o0o A Companhia de Artilharia 3514 voou para Angola no dia 2 de Abril de 1972 (Domingo de Páscoa) num Boeing 707 dos Tams e regressou no dia 23 de Julho de 1974, após 842 dias na ZML de Angola, no subsector de Gago Coutinho, Provincia do Moxico o0o Rendemos a CCAÇ.3370 em Luanguinga em 11 de Abril de 1972 e fomos rendidos pela CCAÇ.4246 na Colina do Nengo em Junho de 1974. Estivemos adidos ao BCav3862 e depois ao BArt6320 oOo O Efectivo da Companhia era composto por 172 Homens «125 Continentais, 43 Cabo-Verdianos e 4 Açorianos» oOo

terça-feira, 26 de agosto de 2008

FÓRUM IGNARA#GUERRA COLONIAL

Reportagem: «Ninguém fica para trás»
Posted: 26 Aug 2008 08:49 AM CDT
"Ninguém fica para trás"O Resgate de onze militares portugueses que há 35 anos morreram em combate em GuidageReportagem SIC/Visão - Missão Guiné-Bissau; Para ler aqui:http://ultramar.terraweb.biz/Noticia_JAnteroFerreira_NinguemFicaparaTras_Visao_SIC.htm

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

SOBA CAPÚLE

Após conclusão das obras do Nengo eis que surge um convite para que a nossa equipa fosse para Gago Coutinho construir uma Peixaria, mesmo defronte ao estabelecimento comercial do Senhor Aníbal, destinatário daquele novo investimento.
Analisado o projecto, hoje simples de o construir mas, à data, sem quaisquer conhecimentos técnico/científicos, valendo sómente o empirismo amador do "Bidonville" sobretudo do aquartelamento do Nengo, pedi ao Furriel Parreira, particular amigo, este sim com conhecimentos aprofundados sobre a matéria, para me dar algumas noções básicas daquela construção, desde logo pela sua implantação. De bom grado acedeu ao meu pedido e, do exterior das barreiras de protecção do aquartelamento, ensaiámos, várias vezes a sua implantação, esquadrias, folgas para as argamassas, rebôcos, limpos, etc.
Portador de todas estas noções básicas, lá reuni com a equipa de obras, com o César Correia como principal conselheiro, identificámos outras necessidades para o sucesso da mesma, concluindo que seria vantajoso a "requisição" aos Metralhas do companheiro Mil, especialista em rebôcos e acabamentos, que se juntou a nós e lá partimos cheios de entusiasmo para Gago Coutinho.
Aqui chegados tínhamos à nossa espera uma equipa de nativos, constituída por 2 mestres e cerca de 8 serventes que, sob a nossa coordenação, iriam connosco partilhar a construção da dita Peixaria.
Para que fosse rapidamente construída, a nossa equipa - de militares - pernoitou, durante alguns meses - três, salvo erro - em quartos da habitação própria do Sr. Aníbal, construção tipo colonial circundada por varandas, ficando o signatário separado destes, num espaço reservado e bem cuidado, no seu estabelecimento comercial, ao atravessar da rua.
A edificação foi tomando corpo dia após dia, com muitas faltas ao serviço dos serventes nativos, sem contudo haver grandes questões técnicas por resolver, diga-se, ressalvando-se uma anomalia grave, entretanto detectada e ordenada a sua correcção imediata pelo Administrador do Concelho de Gago Coutinho, pelo facto de termos utilizado ferro de 6 mm numa viga (imagine-se a segurança ? quando era suposto ser de 10 mm), que foi ultrapassada de imediato e que de facto veio pôr à prova os parcos e deficientes conhecimentos que, sobre a matéria, o encarregado da obra tinha - eu próprio, claro - mas que, a partir daí, outras situações jamais aconteceram, muito à custa de uma amizade feita com um construtor continental que ao lado supervisionava outra construção. Dava-me umas dicas quando necessárias, a "troco" de uns maços de tabaco da marca Coimbra - a 2$50 cada um - salpicados aqui e ali com umas garrafas de Martini, suponho que também a 2$50 cada uma.
E assim lá conseguimos chegar ao fim da obra para satisfação nossa e regalo do seu proprietário que muito enalteceu a sua qualidade, rapidez e o aspecto visual da mesma, face ao colorido garrido que a mesma ostentava; branco e azul com duas faixas no rodapé de vermelho e verde, cores muito ao gosto dos negros em geral.
Durante esse espaço de tempo que mediou a dita construção, conhecemos muita gente da Vila de Gago Coutinho, de entre ela, destaque para a esbelta filha do Governador - demasiado bonita para o meio e para as nossas cabeças- ...
Éramos entretanto sistemáticamente convidados pela população local para, aos fins de semana, participarmos nos seus batuques, cheios de música, colorido, animação, muito concorridos, com muita bebida nas gargantas e exorcismos próprios das suas crenças e etnias.
Da mesma forma mantivémos uma relação próxima e amiga com todos os nativos que trabalhavam connosco na obra. Isto originou que, inevitávelmente, aprendêssemos muitos dos vocábulos do dialecto que lá se falava, além de canções que aprendemos, cantando-as com eles nas suas farras. Uma delas, por ser muito simples, bonita e cheia de polifonia, chamava-se, Sóle, Sóle Lumetá que, invariavelmente, era cantada nas mais diversas circunstâncias, mesmo à entrada de um qualquer kimbo...
No fim daquela missão em Gago Coutinho, quase que dominávamos o dialecto, a tal ponto que falávamo-lo com grande à-vontade, sempre que a ocasião se proporcionava, muitas vezes mesmo na obra com os pedreiros e serventes oriundos da zona.
Certo dia um dos pedreiros, negro - o Sr. Humberto - pessoa de certa idade, calmo, muito educado, bom trabalhador e bom executante, saltou da sua "kinga" (bicicleta) cumprimentou-me de manhã com o seu habitual sorriso, "moio, gungungo?" (bom dia, estás bom?) acrescentando de seguida mais ou menos isto ; de hoje em diante vou passar a chamar-lhe Soba Capúle!
Fiquei atónito sem perceber o significado daquelas palavras, até que ele me respondeu: Sabe meu Furriel, em tempos havia aqui um Soba em Gago Coutinho que era muito estimado pelo seu povo. Deixou muitas saudades. Era muito alegre e amigo das pessoas. Você é parecido com ele e por isso recebe o seu nome.
Ora essa Sr. Humberto ! Não mereço tão honrosa distinção, respondi eu. De qualquer forma agradeci, meio envergonhado de tal sortilégio, não defraudando assim a mensagem que aquele homem quis passar.
Como se não bastasse e por espanto meu, no dia seguinte, o Sr. Humberto e alguns outros trabalhadores ao chegarem à obra, já me cumprimentaram como Soba Capúle e trouxeram um barrete, umas divisas e uma machadinha. Esta tinha como objectivo substituir a espingarda; as divisas, côr de pastel, eram constituídas por duas fitas caídas do ombro uns 10 cms, uma vermelha outra amarela; o barrete, com formato de cone, fazia parte também dessa indumentária.
Fiquei sensibilizado com tal atitude e então passei a usar em Gago Coutinho esse tipo de "fardamento", claro está, longe das vistas dos "chicos militares" do Batalhão existente na Vila.
Ainda hoje conservo, no meu baú de recordações estas insígnias, resquícios do que foi em tempos, um Soba tradicional de Gago Coutinho.
Tudo isto veio a "talhe de foice" pelo artigo emanado da Angola Press, trazido ontem ao nosso Blogue pelo Carvalho, sobre a reposição da Monarquia em Gago Coutinho.
Será que esse tal Soba Capúle pertencia à etnia ou dinastia dos MBundas? Se foi, então como seu "descendente", honrei o seu nome e o seu povo.
Com um abraço

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Restaurada a Monarquia em G.Coutinho

Lumbala Nguinbo, 18 Agosto de 2008
Investido rei dos Bundas em Lumbala Nguimbo
O Rei da etnia Mbunda, Mwene Mbandu III, foi investido, este domingo, ao trono, na sede municipal dos Bundas em Lumbala Nguimbo, em cerimónia presidida pelo príncipe zambiano, Justino Frederico Katwiya.
O Rei com 58 anos de idade, licenciado em línguas e técnico superior de jornalismo, formado na República da Zâmbia, Mwene Mbandu III é herdeiro de seus ancestrais da linhagem do rei Katavola-ka-Ngambo da região dos Bundas.
O reinado ora restaurado foi interrompido na sequência do aprisionamento e deportação do seu monarca, Mwene Mbunda, para lugar incerto, pelas forças políticas portuguesas, em 1974.
Durante o reinado Bunda, que coincidiu com a vigência do período da dominação colonial, 1914 a 1974, Mwene Kazungo Xande foi sempre o rei de todos os sobas da tribo Mbunda.
Hierarquicamente Mwene Kazungo Xande era reconhecido e respeitado como chefe supremo e herdeiro da coroa Mbunda, tendo sob sua jurisdição vinte e três sobas, localizados nos municípios dos Bundas e na Zâmbia.
Segundo o administrador municipal dos Bundas, Julho Augusto Kuando, a coroação do rei Mbandu III é resultado de um profundo trabalho com espírito de equipa de pessoas com rica idoneidade que descobriram o local onde estava o reino desalojado e desvirtuado pelo poder da ocupação estrangeira.
O administrador municipal justificou que antes era impossível realizar este acto, devido ao conflito armado e que foi consumado agora com a conquista da paz no país.
O administrador elogiou o governo angolano, tendo acrescentado que depois da conquista da paz este tem sabido valorizar o papel das autoridades tradicionais, bem como reconhecer a cultura do seu povo de “Cabinda ao Cunene” e “do mar ao leste”.
Ao recordar que a autoridade tradicional é uma figura de estima e respeito do povo de uma determinada área de jurisdição, disse que ela é igualmente o elo de ligação entre o governo, sociedade e vice-versa. Agradeceu, por outro lado, os esforços do Governo Central e Provincial na busca de soluções para a melhoria e aumento das condições sociais, económicas e culturais das populações do município dos Bundas. Assistiram à cerimónia de coroação e tomada de posse do Rei Mbandu III o Vice -Ministro da Administração Território, Garciano Domingos, o Governador da Província do Moxico, João Ernesto dos Santos “Liberdade”, Embaixador Angolano acreditado na Zâmbia, Pedro Neto, autoridades tradicionais, entidades religiosas e convidados.
Notícia AngolaPress

domingo, 17 de agosto de 2008

Romance, Realidade ou Ficção?

Episódios do romance «Os CUS DE JUDAS » do Escritor Lobo Antunes publicado pela editora Don Quixote em 1979 sobre a sua vivência nas Terras do Fim do Mundo, no sub-sector de Gago Coutinho, nas comunas de Ninda e Chiúme integrado na Cart.3313 do Batalhão de Artilharia 3835 como Militar e Médico, entre Dezembro de 1970 e Janeiro de 1972, rodando depois para Malange onde findou a sua comissão de serviço em Angola.


Outro vodka? É verdade que não acabei o meu mas neste passo da minha narrativa perturbo-me invariavelmente, que quer, foi á seis anos e perturbo-me ainda: descíamos do Luso para as Terras do Fim do Mundo, em coluna, por picadas de areia, Locusse, Luanguinga, as companhias independentes que protegiam a construção da estrada, o deserto uniforme e feio do Leste, quimbos cercados de arame farpado em torno dos pré-fabricados dos quartéis, o silêncio de cemitério dos refeitórios, casernas de zinco a apodrecer devagar, descíamos para as Terras do Fim do Mundo, a dois mil quilómetros de Luanda, Janeiro acabava, chovia, sentado na cabine da camioneta, ao lado do condutor, e de boné nos olhos, o vibrar de um cigarro infinito na mão iniciei a dolorosa aprendizagem da agonia....pág 43

Gago Coutinho, a quatrocentos quilómetros ao sul do Luso e junto à fronteira com a Zâmbia, era um mamilo de terra vermelha poeirenta entre duas chanas podres, um quartel, quimbos chefiados por sobas que o Governo Português obrigava a fantasias carnavalescas de estrelas e fitas ridículas, o posto da PIDE, a administração, o café do Mete Lenha e a aldeia dos leprosos;...pág 45

Gago Coutinho era também o café do Mete Lenha, branco sopinha de massa cujo esforço para falar o torcia de caretas,.....pág 47

Impedidos de pescar e de caçar, sem lavras, prisioneiros do arame farpado e das esmolas de peixe seco da administração, espiados pela PIDE tiranizados pelos cipaios, os luchazes fugiam para a mata, onde o MPLA, inimigo invísivel, se escondia, obrigando-nos a uma guerra de fantasmas.... pág 48


Ninda. Os eucaliptos de Ninda nas demasiadamente grandes noites do Leste, formigantes de insectos, o ruido de maxilares sem saliva das folhas secas lá em cima, tão sem saliva como as nossas bocas tensas no escuro: o ataque começou do lado da pista de aviação, no extremo oposto à sanzala, luzes móveis acendiam-se e apagavam-se na chana num morse de sinais. A Lua enorme aclarava de vi és os pré-fabricados das casernas, os postos de sentinela protegidos por sacos de areia e toros de madeira, o rectângulo de zinco do paiol; à porta do posto de socorros, estremunhado e nu, vi os soldados correrem de arma em punho na direcção do arame, e depois as vozes os gritos, os esguichos vermelhos que saíam das espingardas a disparar, e tudo aquilo, a tensão, a falta de comida decente.... O gigantesco, inacreditável absurdo da guerra, me fazia sentir na atmosfera irreal, flutuante e insólita,... pág 61

O Chiúme era o último dos Cus de Judas do Leste, o mais distante da sede do Batalhão e o mais isolado, perigoso e miserável: os soldados dormiam em tendas cónicas na areia, partilhando com os ratos a penumbra nauseabunda que a lona segregava como um fruto podre, os sargentos apinhavam-se na casa em ruína de um antigo comércio, quando antes da guerra os caçadores de crocodilos por ali passavam a caminho do rio, e eu dividia com o capitão um quarto do edifício da chefia do posto, através de cujo tecto esburacado os morcegos vinham redopiar sobre as nossas camas em espirais cambaleantes de guarda-chuvas rasgados,..... pág 83

...Lembrei-me do sorriso da minha mãe, que tão poucas vezes vi sorrir depois, e do ramo de trepadeira que todas as noites batia contra a janela, chamando-nos para misteriosas proezas de Peter Pan. E agora, encostado ao arame, sozinho, a fim de que me não vissem as lágrimas, encostado ao arame do Chiúme e assistindo ao descer do morro até à chana, e para lá da chana, à mata de morrer do Leste, à mata magra e pálida do Leste,..... pág 88

- Bonjour, mon lieutenant - Tinham arribado dias antes ao Chiúme, uma companhia inteira de negros katangueses de lenço vermelho ao pescoço, comandados por um alferes de meia-idade que se apresentou como primo de Tchombé, exprimindo-se num francês de disco Linguaphone - j´ai trés bien connu Mobutu, mon lieutenant - avisou-me ele a puxar escarro de desprezo das grutas de Altamira dos pulmões - il était caporal comptable à l´armée belge - reunidos e armados pela Pide, constítuiam uma horda indisciplinada e petulante a que a emissora da Zâmbia chamava « os assassinos a soldo dos colonialistas portugueses »; não faziam prisioneiros e regressavam da mata aos berros, com os bolsos cheios de quantas orelhas lograssem apanhar; apoderavam-se das mulheres da sanzala perante o desespero resignado do soba, cada vez mais perdido na contemplação da chana,..... pág 93

Como no Chiúme, entende, no Natal de 71, primeiro Natal de guerra após quase um ano na mata, em que acordei de manhã e pensei. É dia de Natal hoje, olhei para fora e nada mudara no quartel, as mesmas tendas, as mesmas viaturas em círculo junto ao arame, o mesmo edifício abandonado que uma granada de bazooka destruíra, os mesmos homens lentos a tropeçar na areia ou acocorados nos degraus desfeitos da messe de sargentos, coçando em silêncio a flôr-do-congo dos cotovelos como mendigos nas escadas de uma igreja. É dia de Natal hoje, vi o céu de trovoada do lado do rio kuando e a eterna segunda-feira do costume no cansaço dos gestos, o calor escorria-me das costas em grossos pingos pegajosos..... pág 136

Dias antes havia partido de coluna uma companhia de pára-quedistas, que apoiados por helicópteros sul-africanos, chegados do Quito-Quanaval para uma operação excessiva e inútil na terra dos Luchases, e todas as noites os pilotos, enormes, loiros, arrogantes, se embebedavam com estrépido quebrando copos e garrafas e desafinando canções em afrikander, ..... pág 137

A impertinência brutal dos sul-africanos, que nos julgavam um pouco uma espécie de mulatos toleráveis.... Os politicos de Lisboa surgiam-me como fantoches criminosos ou imbecis defendendo interesses que não eram os meus..... Sabiam bem que eles e os filhos deles não combatiam, sabiam bem de onde vinham quem na mata apodrecia, tinha morto e visto morrer para que o pesadelo se prolongasse muitos anos, os fuzileiros haviam desfilado uma noite pelo Quartel-General do Luso entoando insultos, todas as tardes ouvíamos a emissão do MPLA às escondidas, ..... Demasiados estropiados coxeavam ao fim da tarde por Lisboa, nas imediações do anexo do Hospital Militar, e cada coto era um grito de revolta contra o incrível absurdo das balas..... pág 138

Mais tarde conhecemos a hostilidade dos brancos de Angola, dos fazendeiros e dos industriais de Angola reclusos nas suas vivendas gigantescas repletas de antiguidades falsas..... Se vocês cá não estivessem limpávamos isto de pretos num instante. Cabrões, pensava eu.... pág 139

As Terras do Fim do Mundo eram a extrema solidão e a extrema miséria, governadas por chefes de posto alcoólicos e cúpidos a tiritarem de paludismo nas suas casas vazias, reinando sobre um povo conformado, sentado à porta das cubatas numa indiferença vegetal.... E, no entanto, havia a quase imaterial beleza dos eucaliptos de Ninda ou de Sessa, aprisionando nos seus ramos uma densa noite perpétua, a raivosa majestade da floresta do Chalala a resistir ás bombas,.... pág148

O Leste? Ainda lá estou de certo modo, sentado ao lado do condutor numa das viaturas da coluna, a pular pelas picadas de areia a caminho de Malange, Ninda, Mucoio, Luate, Luce, Nengo, rios que a chuva engrossava sob as pontes de pau, aldeias de leprosos, a terra vermelha de Gago Coutinho que se prende à pele e aos cabelos..... Os agentes da PIDE no café do Mete-Lenha, lançando soslaios foscos de ódio para negros que bebiam nas mesas próximas as cervejas tímidas do medo. Quem veio aqui não consegue voltar o mesmo, .... Quando se amputou a coxa gangrenada ao guerrilheiro do MPLA apanhado no Mussuma os soldados tiraram retrato com ela num orgulho de troféu, a guerra tornou-nos bichos, percebe, bichos cruéis e estúpidos ensinados a matar..... pág 152

Nós não éramos cães raivosos quando chegámos aqui, disse eu ao Tenente que rodopiava de indignação furiosa, não éramos cães raivosos antes das cartas censuradas, dos ataques, das emboscadas, das minas, da falta de comida, de tabaco, de refrigerantes, de fósforos, de água, de caixões, antes de uma berliet valer mais do que um homem e antes de um homem valer apenas uma notícia de três linhas no jornal. Faleceu em combate na província de Angola, .... pág 153

Aos sábados de manhã, os velhos reuniam-se ao centro da sanzala em torno de uma cabaça de tabaco e soltavam, pelo nariz e pela boca, fumos castanhos e serenos como as locomotivas antigas, com ódio pelo ocupante escrito em grandes letras vermelhas na sua indiferença vegetal. Eram os velhos do Nengo, do Luce, do Luate, os velhos de Sessa e do Mussuma, os velhos de Luanguinga e do Lucusse, os velhos de Nerriquinha, os velhos do Chalala, os velhos e orgulhosos luchazes, senhores das Terras do Fim do Mundo, vindos há muitos séculos da Etiópia em migrações sucessivas, que tinham espulso os hotentotes, os Kamessekeles, os povos que habitavam aquele país de areia e noites frias.... Velhos livres tornados reles escravos do arame pelos canhangulos dos milícias, pelos rostos triangulares e furiosos dos pides, pelo rancor do Estado Colonial que os tratava como a uma raça ignóbil, e que cuspiam no chão escuro a saliva fumegante do tabaco, em escarros pesados de desprezo...... O Comandante encolhia os ombros no seu gabinete blindado, escravo ele também do arame e dos orgulhosos e desumanos donos da guerra que em Luanda, cravando pontos coloridos nos seus mapas, um a um nos matavam.... pág182

Frases soltas extraídas do Romance « OS CUS DE JUDAS »

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

De Luanda a Gago Coutinho (2)

D`este viver aqui neste papel descripto

É este o título dum livro do Escritor António Lobo Antunes, Alferes Médico que esteve destacado em Ninda no Leste de Angola, de Dezembro 1970 a Janeiro 1972 incorporado na Cart.3313 sob o comando do Capitão Melo Antunes e integrado operacionalmente no Bart.3835 com CCS. do Batalhão sediada em Gago Coutinho. Escreveu cartas á sua amada com o que lhe ia na alma, tal como todos nós o fizemos. As filhas Joana e Maria João organizaram a correspondência, do pai para a mãe, nessa época e transcreveram-na em livro, editado pela Dom Quixote. No dia 27 de Janeiro de 71, Lobo Antunes escrevia assim:
“Minha namorada querida
Aqui cheguei, finalmente, a Gago Coutinho, depois de uma viagem apocalíptica, como nunca pensei ter de fazer em qualquer época da minha vida: partimos às 3 horas da manhã dia 22, em autocarros tipo Claras, de Luanda para Nova Lisboa, através de um cenário maravilhoso, mas que à 23ª hora começou a cansar-me. Chegámos de madrugada a Nova Lisboa, dormimos nas camionetas, e às 3 da tarde do dia 29 (ou 23?), depois dos 600 km de autocarro, meteram-nos no comboio para o Luso: 2 dias de viagem em vagões de 4ª classe – essa famosa invenção dos ingleses para os habitantes do 3º mundo, e que a companhia dos caminhos-de-ferro de Benguela inglêsmente adoptou - em grandes molhos de pernas e de braços, de armas e de cabeças. Essas carruagens possuem apenas 3 únicos bancos longitudinais: dois ao correr das janelas e o último, duplo, ao centro, como uma risca ao meio. Como faltavam vagões , assistiu-se então a um espectáculo indescritível: de todo o lado surgiram membros que pareciam não pertencer a nenhum corpo. Cheguei a coçar a minha cabeça com uma mão alheia. Aí dormia, ou fingia dormir, e comia as conservas que inundavam o chão de latas e de molhos, e que me estragaram completamente as vísceras. Deportados judeus para um campo de concentração nazi. E depois veio o inferno, ou inferno maior, o sétimo inferno inversamente comparável ao 7º céu de Maomé: agarraram em nós e meteram-nos em camionetas de carga para os 500 km minados que separam o Luso de Gago Coutinho: dois bate-minas à frente (duas berlietts carregadas de sacos de areia) e depois uma extensa fila de carros, onde seguíamos de arma apontada numa tensão de ataque iminente. Felizmente não houve minas nem emboscadas, mas aconteceu uma coisa horrível: a camioneta em que eu seguia, a última (por sorteio) partiu a direcção, a uma velocidade considerável, e esmagou-se numa vala. Eram 21: três braços partidos, e pernas, várias outras lesões sortidas, e eu com seis pontos no lábio e 3 na língua: ainda não a sinto. Caímos todos uns por cima dos outros, e pensei que tivesse sofrido mais do que isso porque o corpo dava-me a sensação de se encontrar multiplamente rachado. Mas tudo passou, continuo a resistir, e amo-te. Isto é o fim do mundo: pântanos e areia. A pior zona de guerra de Angola: 126 baixas no batalhão que rendemos, embora apenas com dois mortos, mas com amputações várias. Minas por todo o lado."
in D`este viver aqui neste papel descripto.
Comentários para quê..!!

Nota: O Bart.3835 (Força e Áudacia) rodou em Janeiro de 1972 para Malange, sendo rendido em Gago Coutinho pelo Bcav.3862 (Cavalo Branco) ao qual a Cart.3514 ficou adida operacionalmente em Abril de 1972.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

De Luanda a Gago Coutinho (1)

MAPA DA REPÚBLICA POPULAR ANGOLA - Viagem épica de 1400 kms, Luanda, Nova Lisboa (Huambo), Silva Porto (Kuito), Luso (Luena), a Gago Coutinho (Lumbalaguimbo) na fronteira leste a cerca de cinquenta kms da Zâmbia. ( Transp. autocarros da EVA, C.F.Benguela e MVL)
Itinerário sublinhado. Mapa de Angola in Terra_Web
Quadrante referenciado amarelo na Carta Geográfica de Angola
SECTOR DE GAGO COUTINHO PROVÍNCIA do MOXICO - Para que a memória não esqueça estes lugares por onde passámos e onde convivemos durante 27 meses, com angustia, receios, e muita saudade da família e dos amigos, mas onde criámos também um clima de empatia, amizade, solidariedade e camaradagem para o resto da nossa vida que jamais esqueceremos, estejam longe ou perto sejam eles presença habitual, ou não nos convívios anuais da Cart 3514, serão sempre recordados carinhosamente. Carta geográfica do sector de G. Coutinho. in Live Search Maps

sábado, 26 de julho de 2008

QUINTA DOS TRÊS PINHEIROS 21/06/2008

Foto de Família do 3ª Encontro de Convívio da CART 3514
realizado em 21/06/2008 na Quinta dos Três Pinheiros em Mealhada, este ano a cargo do nosso camarada António Duarte que de facto está vocacionado, para bem saber receber os amigos, pois presenteou-nos com uma visita ao Museu do vinho da sua Cidade e depois num lugar maravilhoso, um lauto almoço que a todos agradou e deliciou, na companhia de todos os camaradas e familiares presentes.
Foto reportagem deste belo encontro na Mealhada
que ficará na nossa memória até que Deus queira..!!
1: Parreirinha, Zé Abreu, Careca, Carvalho, Pires, Ruivo e Barros
2: Fernando Oliveira, V. Dinis, Gonçalves, Parreira, Duarte, Carrusca, Gaspar e S. Gonçalves
3: S.Duarte, M.Oliveira, Vieira, A.Águas, Melo, Jomi, Marques, Carreira e Correia
4: C.Silva, Soares, Medeiros, A.Rodrigues e Raúl de Sousa

Santiago Duarte, Carvalho, Parreira, Zé Abreu e Careca no Museu do Vinho em Anadia

Na Praça do Município da Anadia com o Duarte e o Jomi

Careca, Costa e Silva, Rodrigues, Carvalho, Melo e Gaspar

Soares e Medeiros na companhia das Esposas

Soares, Medeiros, Pires, Filho e Esposa

Jomi, Careca, Costa e Silva e Rodrigues

Melo, Gaspar e Famílias

Jomi, Santiago Duarte e Esposa

Zé Abreu, André Águas e Famílias

Zé Abreu, Águas e Famílias

M. Oliveira, Marques, R. Sousa, Parreira e Esposas

Raul de Sousa Parreira e Esposas

M. Oliveira, Marques e Esposas

Duarte e Serafim Gonçalves e Esposas
Casal Correia e Casal Carrusca

Correia, Carrusca, Gonçalves e Esposas

Barros, Vieira Esposa e Filho
Casal Gonçalves e as Esposas do Carrusca e do Duarte

Victor Dinis, Fernando Oliveira e Esposas

As Famílias Vieira, Dinis, Fernando Oliveira e Esposa do Barros

Ruivo, Carreira e Esposas

Parreirinha, Ruivo e Esposas

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Recordações

Caros amigos:
Li e tomei boa nota das v/mensagens e verifiquei que, por um qualquer lapso da parte da minha assistente (minha neta Rita), e também meu, por estar a iniciar-me nestas andanças da Net, as fotos de que falei na comunicação anterior, não foram enviadas. Agora, após terem sido cumpridas as necessárias formalidades, vão ser, efectivamente, enviadas as referidas fotos.
As vossas mensagens reacenderam em mim saudades de muitas ocorrencias do nosso tempo de comissão.Oportunamente, irei enviando mais algumas colaborações.
Sem mais, um abraço do amigo.Botelho

No RAL3 na entrega do Estandarte da CART.3514, com o 1º Grupo em 02/04/72 (Domingo de Páscoa)
No Bar de Gago Coutinho com o Carvalho, Pinto, o nosso padeiro Freitas, Pires, Melo, Arlindo Sousa, Castro, e o saudoso Simplicio Caetano

Em Gago Coutinho á porta da arrecadação de armamento

No alpendre do Comando no Nengo na companhia do Cap. Crisóstomo dos Santos e do Fur. Silva

Esta fora do contexto, apresenta o meu actual aspecto

PRIVILÉGIOS

Para a memória de todos que visitam este blog. temos o companheiro Octávio Barbosa Botelho na companhia de uns quantos amigos, entre eles o Duarte, Parreira, Cardoso da Silva, Diogo e o Fonseca Marques em cima, ao meio o Costa e Silva, Carrusca, Carvalho, António Soares, Parreirinha, Pereirinha e o saudoso Arlindo Pais, em baixo o Nunes e o Guerra do 3º pelotão.

Foi com grande satisfação e surpresa que ao consultar o nosso blog. leio um comentário do nosso grande amigo 1º Sargento Octávio Barbosa Botelho.
Tinha pedido ao Medeiros já algum tempo se não conseguia o contacto deste amigo açoriano, afim de lhe mandar uma mensagem, pois sempre que nos encontramos, lembramos com muita saudade o seu companheirismo a sua dedicação para com todos nós. A sua Biblioteca itinerante que sempre o acompanhava, os seus conhecimentos de cultura geral, muito para além da média, os seus hábitos de leitura, que tão bem nos soube transmitir nesses longos meses em que tivemos o privilégio da sua companhia do seu saber e da sua amizade.
Muitas vezes não é a distância que resfria amizades, porque homens bons estejam longe ou perto, têm sempre o seu lugar cativo na memória das nossas melhores recordações, isto para dizer que o Botelho foi sempre da nossa idade quando connosco confraternizava, foi sempre igual a si próprio quando tinha que tomar decisões, sempre com respeito e verticalidade, foi um companheiro de corpo inteiro sempre solidário com qualquer um dos camaradas.
Por tudo isto e pela vontade de recordar os nossos belos tempos de África, faço questão de que este amigo de longa data nos acompanhe nesta página de ontem e de hoje a fim de preservar o que de melhor criámos entre nós a amizade e o respeito entre todos.
Um grande abraço em nome de todos os camaradas a este amigo de ontem e de sempre.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Aleluia!

Foi com esta palavra de exaltação, exuberância e alegria com que me expressei, ao ler um comentário de hoje mesmo, do inesquecível amigo Octávio Botelho, então 1º Sargento da CART 3514 !
Ainda há dias no Encontro da Mealhada falámos dele - perdoa-me amigo mas sinceramente julgava que já tinha falecido - mas ao saber que ainda se conservava vivo e bem vivo, combinei na altura com o Medeiros, seu conterrâneo micaelense, que quando me deslocasse a S. Miguel entraria em contacto com o João para que, via telemóvel, tentássemos contacto para Água Retorta, aonde vive, não é?, a fim de ouvirmos a voz deste nosso ilustre conterrâneo.
Depois do nosso regresso, penso só o ter visto uma vez em Ponta Delgada, ainda como militar, há muitos e muitos anos. Nunca mais o vi...
Lembro-me dele com saudade. Sabem porquê ? Porque tinha várias especificidades que lhe reconheci em Angola, não muito comuns num cidadão qualquer.
A 1ª de todas porque era, reconhecídamente, um HOMEM BOM ! Estirpe de pessoas cada vez menos comum e vulgar. De grande educação, simplicidade e honestidade. Sendo por via disso, por nós todos, respeitado e admirado.
A 2ª foi por ser a única pessoa que conheci, até aos dias de hoje, que gostasse muito de ler, mas... quase exclusivamente só, o Dicionário Português. Na altura já o lera, do principio ao fim, 4 vezes. Vejam bem ! Que coisa incrível mas ao mesmo tempo admirável ! Não é? Era, por natureza, um autodidacta, ou seja, pessoa que dirige livremente o seu processo de ensino e aprendizagem.
Adorava falar com ele sobre terminologias, pois eu também, enquanto estudante, gostava muito do Português, de palavras novas, de significados diferentes mas sobretudo da origem etimológica e evolução semântica dessas palavras. Suponho que ele tinha a antiga 4ª classe mas era de facto um homem rico em saberes, sobretudo no uso correcto da nossa língua.
Em 3º lugar porque foi um elemento activo, preponderante até, com uma bonita voz de barítono, no Grupo Coral que ensaiei por altura do Natal, durante os dois anos que estivémos em Angola. Achava piada um homem daquela idade estar disponível, tal como nós mais jovens, para aqueles raros momentos de prazer e cultura.
Finalmente, acrescento mais um ponto, porque era, tal como o Arlindo, o Medeiros e eu próprio, açoriano. Os únicos quatro açorianos da CART 3514 !
Que seja bem-vindo amigo Botelho e cá o esperamos também para ler as suas/nossas memórias, neste que é também o seu blogue.

P.S. Obrigado amigo Paulo Ribeiro pelo encorajamento.
Um abraço

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Encontro da CART 3514 na Mealhada

O Carvalho presenteou-nos, mais uma vez, com uma série de fotografias, tiradas agora por satélite através do poderoso programa Google Earth, mostrando alguns dos locais por onde passaram companheiros da nossa Companhia CART 3514 e, escolheu um título deveras sugestivo - Recordar Também é Viver-.
De facto, revejo-me n,algumas dessas imagens, sobretudo as relacionadas com as do Nengo aonde se vislumbra ainda - 36 anos depois, vejam bem - uma enorme clareira de latrite e areia que foi afinal o aquartelamento aonde passámos a maior parte do tempo da nossa "comissão de serviço" e onde, uma pequena equipa de obras constituida por 4 elementos; o meu particular amigo César Correia, o Vaz, o Matos e eu próprio, mais trabalharam para o conforto e bem estar de todos nós, com construções sugestivas e inovadoras à época, suponho, muito direccionadas às necessidades para que se destinavam, às quais se denominaram, não sei bem de quem partiu a ideia, de "Bidonville".
Tudo isto para vos dizer que ao que aconteceu na Mealhada a 21 deste mês - o Encontro e Almoço dos companheiros da CART 3514 - ficaria bem receber o título de "Recordar Também é Viver", pois foi uma forma de, cerca de 40 camaradas e suas familias confraternizarem, recordarem o passado, ouvirem histórias de que eu próprio desconhecia e, deste modo, imbuídos de um espírito de sã camaradagem e amizade, lá passarmos no Restaurante/Hotel 3 Pinheiros, alguns momentos de grande prazer, alegria incontída e profundo sentimento de união que só cada qual pode registar e medir.
Impossível ignorar o Responsável deste Encontro; o Duarte, o companheiro Duarte sempre muito dedicado a esta causa, suponho até que o "Mentor" destes encontros. Inicialmente, segundo ouvi, sómente com os seus "metralhas" de quem sempre se afirmou como defensor e seu líder incontestado.
Razão para que todos nós estejamos gratos a ele e à sua esposa pelo empenho e qualidade com que nos banquetearam, não sem antes, como já acontecera em Anadia, envolverem-nos numa visita sócio-cultural, ao Museu Regional da localidade, agora para ouvirmos a história do vinho da Região, com excelente interlocutora, imagens lindíssimas, som perfeito, artefactos e quadros inéditos e de grande qualidade, quase todos eles ligados a um dos ícones da Bairrada - o seu leitão - um pouco à imagem do que acontecera na Adega S, Domingos em Anadia, sobre os Espumantes da zona.
Um obrigado sentido ao casal Duarte, à sua disponibilidade, ao AMOR como recorda colegas e compartilha saudade, simpatia em receber-nos a todos, dando especial atenção ao nosso querido amigo Abreu - merece tudo de bom porque sempre foi, para nós, um Homem Bom - e por isso temos que voltar a vê-lo e a abraçá-lo no próximo Encontro, da responsabilidade do afável e entusiasta Carrusca.
Valeu a pena viajar do Pico à Mealhada. Voltámos a abraçar, com muita saudade, companheiros, vimos pela 1ª vez outros, permitam-me que destaque o Marques, o nosso Fur. Enfermeiro, dado como "desaparecido" mas igual ao que era d,antes, só com um pouco menos de cabelo, o que também é natural já que na altura se notava essa lacuna, ficando apenas um pequeno "amargo de boca" : não termos visto outros camaradas com quem teríamos imenso gosto de os ver, abraçar e confraternizar.
Com um abraço

quarta-feira, 18 de junho de 2008

RECORDAR TAMBÉM É VIVER

Ponte do Rio Nengo onde tantos momentos passámos em actividades aquáticas e outras

Destacamento na margem esquerda do rio Luanguinga onde iniciámos a comissão

Gago Coutinho (Lumbala N´guimbo) com sede do Batalhão e a pista de aviação á direita

Destacamento na margem esquerda do rio Mussuma

Destacamento na colina do Nengo, tantos anos depois ainda lá existe a base em latrite

Destacamento na margem direita do Rio Luce

Para quem esteve em Sessa esta imagem não lhe será estranha, eu estive lá uns tempos em final de comissão ( imagens do hearth google)

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Aos companheiros de Cabo Verde

Afinal amigos, isto começa a ficar mais interessante. As alfinetadas que aqui vou dando, e não me cansarei de dá-las enquanto não melhorarmos a participação dos colegas, vão surtindo algum efeito, embora, se lamente ainda. muito à custa das intervenções do Carvalho que tem sido o grande animador e mentor do blogue e, passe a imodéstia, do signatário que lá vai dando também o seu parco contributo. Mas, como prometera, hoje vou escrever um pouco sobre os nossos amigos cabo-verdianos. Antes de mais, há que repôr uma pequena gafe que cometi num comentário àcerca dum escrito do Carvalho aonde listava todos os companheiros dos diferentes pelotões, comando etc., causando-me grande admiração por ele identificar tantas coisas, a maior parte das quais eu já me esquecera. De entre elas, dizia que apenas me recordava dos companheiros do meu pelotão, comando e metralhas e quase que nem dos cabo-verdianos me lembrava. De facto não era bem isso que queria dizer. Tentei alterar mas já estava escrito e deixei ficar como estava. Hoje vou corrigir, repondo a verdade. Realmente é dos cabo-verdianos que mais me recordo, juntamente com os outros companheiros entretanto mencionados. E sabem porquê? Pelo espírito ilhéu e irreverência que ostentavam, exactamente igual aos sentimentos que eu, como ilhéu, também sentia. Na prática, sentíamos ser todos portugueses de 3ª ou de 4ª ; incultos, atrasados, envergonhados relativamente ao conceito que os continentais tinham de nós, rindo-se dos nossas pronúncias e falares que os consideravam dialectos da língua mãe - ainda hoje isto é verdade - que de tudo sabiam e de tudo palpitavam, considerando-se de facto portugueses de 1ª , uma espécie do que Hitler chamaria "a raça pura, a raça ariana". Por isso, as ilhas foram sempre ignoradas pelos Governos de então e, quando alguma coisa chegava cá, era por troca de muita subserviência, qual mendigo pedindo uma migalha de pão à mesa de um rico. O território portugês, o Continente especificamente, era-nos adverso. Nada semelhante ao que considerávamos o esplendor, mesmo vivendo em miséria, o sossego, a paz, e a beleza natural das nossas ilhas e a amabilidade das nossas gentes. Ainda nos primeiros tempos de recruta em Tavira, aqui e ali senti esta sensação de marginalização bem ao vivo. Com o andar do tempo, claro que tudo se alterou. Os nossos e os vossos conceitos. Privilegiaram-se relações, aproximá-mo-nos como seres humanos normais e a estima e o afecto entre todos nós passou a comandar as nossas vidas, esbatendo-se assim diferenças, de origens, de côr, de ideias, etc. Quando cheguei a Évora, em Setembro de 2001 para formarmos a nossa CART 3514, quase todos ignoravam os cabo-verdianos. Os epítetos que lhes eram atribuidos, eram semelhantes aos dos açorianos: os gajos são revoltados, maus, inimigos do estado e da nação, próximos dos movimentos de libertação, mal educados, bêbados, perigosos, etc. O rosário era grande... Quase que não ousavam aproximar-se deles pois eram traiçoeiros, munidos de navalhas de ponta e mola, sempre à espreita de uma "guerra". Foi isto que ouvi deles em Évora, razão porque ninguém os queria na sua companhia. Lentamente comecei a aproximar-me deles porque, mais do que ninguém, os compreendia e lá passava os fins de semana, com eles, ferrolhado naquele quartel, na maioria dos casos fazendo serviços dos que iam para as suas terras passar o fim de semana com as famílias. O primeiro que abordei foi o Borges. O grandalhão, forte, que gaguejava muito, do pelotão do Carvalho. Não foi fácil falar com ele, tal era o sentimento de revolta que lhe ia na alma. Inicialmente até tive algum receio. Depois de saber que eu também era ilhéu, igual a eles, o Borges foi como que um livro aberto. Nos dias seguintes, o Borges já se fazia acompanhar por mais e mais cabo-verdianos para, em conjunto, falarmos das nossas ilhas, das nossas dificuldades, da tropa, da fome que passámos naquele maldito quartel.
Depois, sabendo que eu gostava muito de música e que tinha dirigido alguns grupos corais apesar dos meus 17, 18 anos, conduziram-me lá para uma das casernas deles para ouvi-los a tocar nos seus cavaquinhos, aonde se vibrava com o choradinho das suas lindas mornas e a alegria das coladeras, das quais, algumas, já conhecia. Assim criámos muita amizade entre nós a tal ponto que quando vim à ilha Terceira - aonde vivia na altura - gozar os 10 dias de licença de mobilização, fui com pessoa amiga à Base Americana das Lajes comprar pastas de dentes colgate,  na altura muito na moda , chocolates e outras guloseimas de que já não me recordo, pedidos feitos pelo Borges, para oferecer aos meus amigos de Cabo Verde. Entreguei-lhos para os distribuir. Quando souberam que os dois pelotões de cabo-verdianos existentes em Évora íam ser integrados na nossa companhia CART 3514, ficaram radiantes, pois não queriam ir nas outras duas Companhias que se formavam em simultâneo naquele quartel, o RAL 3. Devem-no ao nosso Capitão Rui Almeida! Não posso esquecer também o grande contributo que o Medeiros deu nesta aproximação pois ele, tal como eu, ilhéu, percebíamos bem os sentimentos que íam na alma daqueles nossos camaradas. Outros colegas terão dado os seus contributos. O certo é que tivémo-los em Angola como bons companheiros, amigos e cooperantes, ajudando-nos muitas vezes com os seus cantares típicos e sons harmoniosos dos seus cavaquinhos e violões, a embalar os nossos corações e sentimentos, em serões inesquecíveis, no calor de uma fogueira e do luar sertanês do aquartelamento do Nengo.
Um abraço

1º Pelotão da CART.3514 (1)


Imagem do 1º Pelotão num destacamento algures entre o rio Nengo e o Luce tirada em 1972, com quase todos os camaradas que fizeram parte deste grupo.
Em baixo: Semedo Borges, Pinto, Castro com "Morteiro" ao colo, Veiga, Carmo, David Monteiro, Paiva, Jesuino Pereira e Carvalho e o nosso Mucoi (cão de raça "leão da rodézia").
Ao meio: Eugénio Pereira, Rosa, Faustino Costa, Oliveira, Gaspar, Alf. Rodrigues, Arlindo Barros e Augusto Silva.
Em cima: Zé Abreu, Simplício Caetano, Pires, Almeida Correia, Rego Correia, Melo e Ricardo Conceição.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Que será destes MENINOS

Hoje falei com o Parreira, por causa do nosso convívio na Mealhada, e também do nosso Blog.
Passei uma vista de olhos pelas fotos de então e fiquei a pensar o que será destes meninos que nos acompanhavam nos destacamentos, que nos lavavam a roupa a louça das refeições a troco de tão pouco, como um prato de sopa e meia dúzia de angolares, mas que traziam sempre a alegria estampada no rosto, será que resistiram á brutalidade da guerra ao flagelo das minas, ao drama da fome, que alastraram Angola após a descolonização...? Deixo aqui esta recordação da "praia" do Mussuma com o meu Amigo Parreira, após uns mergulhos no rio Mussuma pela calma da manhã e destes meninos que nos seguiam para todo o lado, lembro algo engraçado acerca desta imagem, quando os gaiatos se aproximaram para nos acompanharem na foto, a sua primeira reacção foi cobrir a nudez com as mãos, mas o Parreira não foi em modas e gritou logo, porra mãos no peito seus c....lhos a máquina não vos come a pila. Recordo também aqui uma pequena história passada no destacamento do Luce, com uma destas crianças. Á noite quando se deitava na tenda da cozinha, foi mordido por uma cobra de metro e pouco que se encontrava no meio da manta, e o Elísio Soares na ânsia de lhe atenuar o sofrimento correu a deitá-lo na minha cama para lhe tratar do pé, a gritar segura-o Carvalho segura-o, ajudei de inicio mas não consegui resistir ao cheiro do éter á injecção nem ao bisturi a lancetar aquele calcanhar atingido pelos ganchos da serpente e saí tenda fora enjoado, para apanhar ar e depois já refeito ajudando a rapaziada a caçar a dita cuja, não fosse ela fazer mais estragos no destacamento. Hoje acho graça, não ao acidente como é óbvio, mas pelo efeito causado. Quando me fui deitar senti os lençóis molhados , reparei então que o cambuta se tinha mijado na minha cama..! Fiquei danado com o meu amigo Elísio Soares.... e disse-lhe amanhã entras de serviço á lavandaria para ficares a saber que a minha cama não é uma marquesa, respondendo ele ironicamente, isso queria o meu furriel, e eu também..! Uma marquesa...? Contente-se com uma "sivusga" se quiser, ou é filho de algum cabo miliciano...!!!
Tive que me penitenciar, e no dia seguinte, oh Maria vai com as outras lavar ao rio...!
Adeus até ao meu regresso

terça-feira, 3 de junho de 2008

Partilha

Com esforço daqui e dali lá vamos conseguindo manter de pé o nosso blogue.
Mas, com grande pena minha, a participação dos nossos camaradas continua sendo desastrosa pois não dão sinal de vida, de empenho e até de solidariedade na manutenção e refrescamento desta página. Não acredito que seja só por desconhecimento deste espaço ou até mesmo das técnicas básicas de informática.
Felizmente que já tivémos alguém externo à CART 3514 a entrar nesta página manifestando a sua opinião sobre o que aqui leu e, dando a conhecer também o que ela, com outros companheiros, fazem num outro blogue - www.projectoignara.blogspot.com., lutando em prol do que aqui dizemos.
Falo da Susana Gaspar, actriz, filha de ex-combatente que mantém uma página semelhante à nossa, embora mais participada, com maior número de conteúdos, aberta a todos os que nela queiram participar, e são muitos, página essa ilustrada com muitas fotos enviadas por ex-combatentes pertencentes às mais diversas companhias que combateram em África no decurso daquela guerra, escritos históricos sobre a mesma, tendo ainda como missão, além de espectáculos relacionados com este tema, para que, como se dizia noutro local - este lapso de tempo das nossas vidas seja perpetuado na memória colectiva dos portugueses através da sua divulgação - reunem-se em diferentes locais do país com ex-combatentes, deficientes das Forças Armadas e público em geral, numa missão verdadeiramente extraordinária, carregada de humanismo e cheia de coragem e dinamismo, que eu próprio fiquei rendido a estes actos de estoicismo, bravura, e heroísmo. Bem hajam a todos vocês Susana! Estão de parabéns!
Então acho que não podemos ignorar estes movimentos, bem pelo contrário, devemos apoiá-los. Por isso nada melhor que o nosso "expert" nesta matéria e autor deste blogue, o amigo Carvalho, poder também, com algum material da nossa Companhia, com o qual vai recheando condignamente, esta página, cedê-lo à Susana para que ela o possa anexar na sua. Estamos desta forma contribuindo para a tal divulgação de que falávamos.
Já agora que falo do Carvalho, que raio de baú tu foste encontrar decorridos 36 anos? Onde foste pesquisar a história da nossa Companhia, nomes dos companheiros que faziam parte dos nossos pelotões, apoio ao Comando, aviões dos TAMs etc? São fantásticas as surpresas com que nos tens presenteado. Sabes que a maior parte daqueles nomes já não me dizem nada? É uma vergonha dizer isto mas, tirando os do meu pelotão, os metralhas e os do comando, pouco mais me recordava dos nomes de tantos que afinal estiveram connosco durante aquele tempo, especialmente dos cabo-verdianos. Sobre estes escreverei um dia sobre eles. Conviveram connosco com com grande dignidade e amizade. Considerá-mo-los excelentes companheiros. Gostaria que fosse possivel um dia, algum deles, aparecer nesta página para lhes poder enviar um abraço fraternal, ao ritmo das suas lindas e melodiosas coladeras.
Um abraço

domingo, 25 de maio de 2008

CHEIRA BEM....

... cheira a Lisboa!...
Normalmente é com este misto de alegria, imaginação e boa disposição que viajo para a capital. E sabem porquê? Mesmo passados 36 anos quando em Julho de 74 regressámos a Lisboa vindos da nossa "comissão de serviço" em Angola, com o chamado "dever cumprido", após 9 horas de vôo nos TAMs (Transportes Aéreos Militares), ao entrarmos em território português exactamente pelo Algarve, eis que uma grande alegria, incontida emoção em quase todos nós CART. 3514, entoou, cantou, berrou, quase até chegarmos à pista de aterragem, a canção "Cheira bem, cheira a Lisboa!..."
Um momento tão emocionante e marcante na minha vida pessoal, se calhar na de nós todos, pôde jamais ser igualada, testemunhada pelo marejar das lágrimas que sorrateiramente caíam sem que nos apercebêssemos mas que, ao mesmo tempo, embargava a nossa voz e o nosso canto.
Depois a descida em camiões militares para entrega de fardamento, por avenidas que não me recordo, com a população aqui e ali, reconhecendo o regresso de militares vindos do "Ultramar", acenando, dando vivas ao 25 de Abril com os dedos em posição de V de vitória, correspondendo nós com a mesma sinalética e com os gritos de alegria e Vivas a Portugal, fizeram daquele pedaço de tempo, algo inebriante, inigualável, que perdurará para todo o sempre nos nossos corações.
Passei há dias por Lisboa. Como sempre recordei todos aqueles momentos! Por isso, sempre que lá vou, raramente me esqueço daquele dia de Julho de 1974... e da semana seguinte aonde tive que aguardar transporte para os Açores, na gostosa companhia do meu querido amigo Carrilho...
Um abraço para todos!

segunda-feira, 19 de maio de 2008

LUSO 11 ABRIL 72


Viagem de Todos os Medos
36 Anos depois vamos recordar essa viagem de todos os medos. Segunda-feira de madrugada, naquela coluna MVL com a protecção de um esquadrão dos dragões, que nos havia de transportar do Luso até Luanguinga - G. Coutinho, encolhidos atrás dos tapais das viaturas como gado a caminho do matadouro, 406 kms de picada, mata, calor, suor, mosquitos, pó, ansiedade, e muitos temores, como baptismo de campanha naqueles 27 longos meses, onde nada havia, onde apenas a esperança, solidariedade e amizade não eram palavras vãs, mas a realidade do dia a dia, passados neste lugar inóspito, onde um dia alguém em desespero de causa, denominou como a Terra do Fim do Mundo.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

SEIXAL Junho 2007


Foto reportagem do nosso convivio na Quinta da Valenciana em Fernão Ferro, organizado pelo camarada Gonçalves no Seixal em 2007.
Em cima: Serafim Gonçalves, Vieira, Parreirinha, Fogeiro, André Águas, Brás, Medeiros, Costa e Silva, Jomi, Correia, Carrusca, Oliveira, Carreira, Dinis, Santiago Duarte, Venâncio do Carmo.
Em Baixo: Milo, Gaspar, Gonçalves, Paulo Ribeiro, Duarte, Carvalho, Parreira, Rodrigues, Pinto, Melo, Pereirinha.

Familia Brás, C.Silva, Rodrigues, Pereirinha e Esposa


Esposa do P.Ribeiro, Famila Brás, C.Silva, Rodrigues e Pereirinha

Carvalho e Parreira

Familia Carrusca, Fam. Duarte, Fam. Medeiros

Jomi, Parreira, Melo, Oliveira, S.Duarte. Rodrigues e Milo

Rodrigues, C.Silva, Milo, Medeiros, Parreira e Gonçalves

Duarte, Fogeiro, Venâncio Carmo, S.Duarte

S.Duarte, A.Águas, Carreira, P.Ribeiro, M.Dinis, Correia, S.Oliveira e Gaspar

Brás, Pinto e Rodrigues

Rodrigues, C.Silva, Milo e Medeiros

Pereirinha, Esposa, Vieira, Duarte e Familias

S.Duarte, Carreira, M.Dinis, S.Oliveira, Parreirinha, Gaspar,e Carrusca e Familias
C.Silva, Milo, Medeiros, Carvalho, Parreira e Gonçalves
C.Silva a começar a partir Bolo de Aniversário na companhia
do Gaspar, Vieira, Carrusca, Oliveira e Familias