o0o A Companhia de Artilharia 3514 voou para Angola no dia 2 de Abril de 1972 (Domingo de Páscoa) num Boeing 707 dos Tams e regressou no dia 23 de Julho de 1974, após 842 dias na ZML de Angola, no subsector de Gago Coutinho, Provincia do Moxico o0o Rendemos a CCAÇ.3370 em Luanguinga em 11 de Abril de 1972 e fomos rendidos pela CCAÇ.4246 na Colina do Nengo em Junho de 1974. Estivemos adidos ao BCav3862 e depois ao BArt6320 oOo O Efectivo da Companhia era composto por 172 Homens «125 Continentais, 43 Cabo-Verdianos e 4 Açorianos» oOo

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

MEMÓRIAS

Caros amigos:
Cumprimento e apresento cordiais saudações a todos os elementos da Cart 3514, mas em especial aos amigos Carvalho e Soares e tenho a dizer-lhes que, apesar de se lamentarem por falta de comunicação de mais elementos da nossa Cart, verifico, pela frequência actual de comentadores, não têm muitas razões para aquelas queixas.
Na mais recente colaboração, efectuada em 2 do corrente pelo César Correia, revela-se que este tem um excepcional dom de descrição dos acontecimentos e um estilo literário bastante agradável. Deste ex-militar, tenho apenas memória visual, pois na verdade, pouca convivência tive com ele, no meu dia-a-dia
Recuando até 28 de Outubro, encontro um comentário do inesquecível Arlindo Sousa!... Estou a vê-lo, com o seu copinho ao lado, agarrado aos “circuitos impressos”, ao ferrinho de soldar e aos “kits” de rádio, a fazer as suas montagens de um aparelho de TSF, de um qualquer curso de radio montador, mas não me lembro de qual.
Num relance de olhos pelas colaborações, encontro uma do amigo António Soares, com data de 18 de Outubro. Deste camarada tenho muitas memórias, pois convivemos mais de perto… Estou a recordar-me e com muita saudade dos ensaios de cânticos de Natal, aos quais aderi de alma e coração, pois que desde muito novo fui arrastado para conjuntos corais e fiquei “viciado”. Também estou a vê-lo atarefado nas obras dos acampamentos: A “messe” dos of. e sargentos, os quartos dos Fur., dos Sargentos, a Secretaria e os quartos de Of., o Dep.de Géneros, o Refeitório, a padaria, etc., etc…. A ele ficámos a dever o conforto que nos proporcionou a todos… A ele, um muito obrigado que, embora tardio, é a expressão real da minha gratidão e da dos restantes elementos que compuseram a nossa CArt.
Li algures num comentário a este “blog” que tínhamos sido abençoados por não termos sido muito “atingidos” pelo flagelo das baixas em serviço. Tivemos apenas duas e, mesmo essas, por lamentáveis descuidos de segurança!... Apenas a escassos dois meses de permanência na ZML, ocorre a morte do Ernesto Gomes, quando ainda estávamos em Luanguinga e depois, quando ainda estava a sede da CArt em Gago Coutinho e, portanto, antes de termos ido para o Nengo, morre, num “estúpido acidente” (cito alguém que o disse também neste blogue) o Joaquim Ricardo. Também tenho a mesma opinião e a comprovar que assim é e foi, aqui em anexo uma imagem que, se não houvessem sido tomadas certas precauções, haveriam a lamentar muitos mais do que apenas aqueles dois. Deste acidente, apenas resultaram, que me lembre, pequenos traumas e ligeiros ferimentos tratados no Posto de Socorros da CArt, com mercúrio-cromo e pouco mais. No entanto curvo-me, respeitosamente, perante a memória dos mortos
Despeço-me, até à próxima colaboração com um abraço para todos.
Octávio Botelho


Accionamemto duma mina anti-carro por uma berliett da Cart3514 em Agosto de 1973 na picada entre o Nengo e Ninda, apenas alguns feridos ligeiros e danos materiais, na imagem o Coutinho e o Parreira algo aprensivos pelo sucedido.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Documentos D´outrora (2)

Destino LUANDA

"Boarding Pass" dos TAMS distribuido a cada camarada após o checkin no Aeroporto Militar de Lisboa, com o destino, o lugar e data de embarque, aquando da nossa partida para Angola em 2 de Abril 1972 (Domingo de Páscoa) - Documento cedido por César Correia

Documentos D´outrora (1)

Relação do Efectivo
Relação dos efectivos da Cart. 3514 no RAL3 em Évora, Dezembro de 1971
(Clicar sobre o doc. para aumentar)

domingo, 2 de novembro de 2008

De César Correia (2)

César Correia
A minha primeira noite em Luanda
Como muitos camaradas sabem sou natural da zona de Viseu, nasci em Mosteirinhos, na encosta sul da serra do Caramulo, de verão calor de rachar, no inverno geada, neve e frio de cortar, mas o que mais me acagaça são as trovoadas, algum trauma de infância, não sei explicar.
Aterramos em Luanda às 8h30 em 3 Abril de 1972, saímos do Boeing 707 dos Tams e a primeira sensação foi a de entrar num forno, na pista um calor e humidade sufocante, alagados em suor a pele peganhenta, alguns camaradas com os bolsos do blusão manchados de gordura, os pacotes de manteiga e queijo surripiados ao pequeno almoço no avião começaram a derreter. Depois de recebermos a bagagem lá partimos a caminho do Grafanil, onde ficamos instalados por uns dias, antes da marcha a caminho do leste, numa das muitas casernas rudimentares de madeira cobertas com chapa ondulada, alimentados a ração de combate, por ali ficamos, não arriscando o desenfianço para Luanda a cerca de 10 kms.
Já tarde encontramos um camarada de Viseu que nos aconselhou a ir ao cinema ver um filme para nos distrairmos. A meio da fita a malta começou abandonar à pressa a esplanada ao ar livre, achamos um pouco estranho, até que um camarada, se abeirou de nós e perguntou, são maçaricos? Chegamos hoje de manhã respondemos, se estão perto do vosso sector pirem-se a correr, se não abriguem-se na pala do bar, vem aí uma carga de água car..lho..., cavamos de imediato a correr direito à caserna, mas não nos safámos, chegamos repassados que nem pintos, um porradão de água, trovões e relâmpagos que iluminavam tudo como de dia, uma coisa do outro mundo nunca visto, eu que odeio trovoadas, chorei e rezei à padroeira da minha terra (Nossa Senhora do Rosário de Fátima) que me livrasse daquele pesadelo, mas como veio assim passou, ficando no ar um cheiro acre a terra torrada, mil vezes pior que as trovoadas de Maio na minha aldeia, o tempo refrescou um pouco, mas foi coisa de pouca dura, o calor e o ar asfixiante voltaram, queria dormir, não era capaz, despi a camisa e sosseguei um pouco, de madrugada acordei com alergia , comichão no corpo, fui ao espelho parecia um Cristo, pergunta-me um camarada, tens varicela…? As melgas tinham-nos assolado com picadas, tive que recorrer à enfermaria a fim de me tratarem, pomada, umas gotas e uns comprimidos lá me aliviaram o sofrimento, mas pior ainda, aconselharam-me a não meter os beiços nas loiras da Nocal, não beber cerveja, outro pesadelo com aquele calor.
Mas nem tudo foi mau apesar do perigo em que estivemos supostamente envolvidos, eu ás vezes costumo dizer, fui um privilegiado, conheci os encantos de África, e não há palavras, fotografia ou filme que possam descrever aquela terra, os seus encantos, as suas paisagens, as suas gentes, os costumes, o pôr do sol, os cheiros, os aromas, só mesmo pisando aquela terra, poderão alguma vez sentir aquilo que atrás citei, e que jamais esquecerei.

Luanda - Campo Militar do Grafanil

Campo Militar do Grafanil - Casernas

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

De Cabo Verde

De Severo Ramos de Oliveira
Boa tarde camarada António Carvalho. É com muito prazer que informe-te da sua mensagem, eu fico muito satisfeito, quando recebo mensagem dos meus companheiros, ex-combatentes do ultramar, agradeço-lhe a sua atenção e vou fazer tudo para ajudar-te a encontrar outros companheiros aqui em Cabo verde, agradecia que me enviasse alguns nomes desses colegas teus.
Abraços
Severo de Oliveira

terça-feira, 28 de outubro de 2008

De Arlindo Machado de Sousa (EUA)

Destacamento do Lumbango 1972, Arlindo de Sousa, Dimas, Carvalho e Araújo Rodrigues
Mais Vale Tarde que Nunca .....
Olá Carvalho..tudo bem? Espero bem que sim…que te encontres bem na companhia dos teus. Eu penso em escrever mas por um motivo ou outro vai passando e …. Quando damos por nós já não são dias…são meses! Como se costuma dizer "mais vale tarde do que nunca," aqui vai um abraço e uma mensagem que se achares por bem incluir no blog …tudo bem, e podes alterar ou modificar da maneira que quiseres…não tem direito de autor!!! Um abraço!
Pedreira do Nengo 1972 - Marques, Soares, Capitão Rui Santos, Cabo António Santos Oliveira, Carvalho, Arlindo Sousa, Cardoso da Silva, Rodrigues, Duarte e Diogo
Olá Camaradas…Desde que contactei com o Carvalho e tive conhecimento deste Blog da “nossa 3514”, sempre que posso dou uma vista de olhos ao que se escreve e vou acompanhando o desfilar de recordações, o descrever de episódios, alguns que não conhecia, outros que trazem recordações e fazem lembrar alguns, quase esquecidos, nas memórias de um passado distante…mas sempre presente, de um tempo que nos marcou a todos, para o resto da nossas vidas! Lá diz o Victor Espadinha que recordar é viver…. e graças a todos vós…vivemos cada dia mais um pouco, retomando contactos perdidos, partilhando recordações, matando saudades!!!
Estou nos Estados Unidos, na Califórnia, onde tive o prazer de ser co-fundador de uma organização de ex-combatentes que desde 1990 se reúne pelo menos uma vez por ano com um programa que normalmente inclui Missa por alma dos camaradas falecidos, jantar de confraternização e convívio. Na primeira reunião na cidade de São José, o Rev. Dr Noia que celebrou a Missa e trabalhava com ex-combatentes da guerra do Vietname internados em hospitais de doentes do foro psiquiátrico, disse na homilia, entre outras coisas : antes de mais dou-vos os parabéns por terem regressado de saúde e capazes de funcionar normalmente, trabalhando e vivendo uma vida normal com as suas famílias! É verdade…estamos de parabéns! Agora ao ver estas páginas recheadas de recordações, felicito todos os que para ela contribuíram e que de certo continuarão a fazê-lo, construindo e fortalecendo esta ponte que nos reúne de novo apesar de espalhados pelos mais variados pontos do Universo, que estou certo, muitos mais lêem, embora não comentem!
Um abraço e bem hajam!
Arlindo Machado de Sousa
Ps. - Os Grandes Amigos como o Arlindo de Sousa nunca se esquecem, longe ou perto, ausentes ou não, eles fazem parte dum grupo, duma geração, duma época, da interacção que criámos em determinado momento das nossas vidas, e como tal, estarão sempre de corpo inteiro e por direito próprio, no álbum das nossas melhores recordações.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Ponte do Rio Nengo

Imagem enviada por César Correia

Imagem captada junto aos eucaliptos na ponte do rio Nengo, julgo eu, não tenho a certeza, com os camaradas, em cima: César Correia, Pimenta, Júlio Norte, Guerreiro e Liberto, em baixo: Joaquim Gonçalves (Beringel), Porfirio Gonçalves, Venâncio do Carmo e Bernardino Careca

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Chana do Rio Luce

Imagem enviada por César Correia


Imagem magnifica da ligação rodoviária entre Gago Coutinho e Ninda, atravessando a chana do rio Luce, ainda em fase de construção. Tivemos aqui dois sub-destacamentos em épocas diferentes, um em cada margem, junto à mata. Recordo-me de bons momentos aqui passados, havia muita caça ao longo desta grande chana que ladeava este pequeno rio, mas à noite as melgas eram um pesadelo. Pela manhã habitualmente iamos até à ponte dar um mergulho, era o único local com acesso ao rio, de menina a tira colo como sempre. Certo dia depois dum belo banho, regressávamos ao destacamento, e damos de caras com uma matilha de mabecos, vindo estrada abaixo, paramos indecisos com a situação, e os animais em formação cerrada continuaram a sua marcha na nossa direcção, tivemos de abrir fogo, só depois de termos abatido um deles, desarvoraram cada um para seu lado a toque de chumbo.
Mas também recordo com tristeza um fim de tarde de Agosto de1972 em que fui incumbido de vir ao Rio Luce onde estava o 2º pelotão, trasladar para G. Coutinho o corpo do nosso camarada 1º Cabo Joaquim Pedro Ricardo (Natural de Chanca - Sobral da Abelheira no concelho de Mafra) que aqui perdeu a vida num estúpido acidente.
Adeus até ao meu regresso

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Reliquias do Passado

O Pré
O César Correia fez questão de me enviar, este pequeno tesouro guardado religiosamente, à mais de trinta anos no seu baú de recordações, que não resisti em publicar, são estes pequenos nadas, que nos ajudam a lembrar as memórias do passado. Quatro notas emitidas pelo banco de Angola, o equivalente a dois ordenados mensais, que era na altura o Pré que um soldado auferia em África, qualquer coisa como oitocentos e tal escudos. Com esta massa na altura comprava-se muita cerveja, Cuca, Nocal e Eka, muito tabaco, bué de crika, até dava quase para tirar a carta de condução, só no Pica-Notas (Boite Pica-Pau) é que não comprava nada, só com camanga na algibeira.



sábado, 18 de outubro de 2008

Bravo Camarada!....

Fiquei muito sensibilizado com o escrito do César Correia. Porventura até hesitei em responder uma vez que, sendo um dos visados no seu conteúdo, pela positiva, se calhar não me ficaria bem tecer qualquer comentário.
Achei porém que a razão principal desta mensagem, ou melhor, a mensagem que ele nos dá, era de longe mais importante que o elogio pessoal recebido, que muito agradeço e retribuo pois, na verdade o César foi, por assim dizer, o meu braço direito na equipa que, com gosto liderei, para que mais conforto, segurança e bem estar, todos, directa ou indirectamente usufruíssem .
Muito trabalhador, humilde, conhecedor profundo do que fazia, amigo do seu amigo, fácilmente se relacionava com quer que seja, pois tem um coração bom e enorme que abarca toda a gente. Sempre o tive e tenho como um amigo especial e muito predilecto.
Todavia, o que quero aqui realçar, é a coragem do César. Dentro de poucos meses comemoraremos o primeiro aniversário do nosso blogue. Do inicio até agora apenas o César quis dar o seu testemunho. Cheio de emoção, de convicção, de solidariedade, de lealdade para com os camaradas com quem mais privou ou que, por qualquer outra razão, mais o marcou nessa nossa passagem conjunta pela CART 3514.
O objectivo principal deste blogue é exactamente o que o César fez; intervir, comentar, dar testemunho, recordar, manter bem viva a chama da amizade que nos entrelaçou e amarrou, de forma transversal, a todos, sem excepção, e que gostaríamos que perdurasse enquanto existissemos nesta "terra dos vivos".
Que belo exemplo o César aqui nos deixou! É caso até para lhe agradecermos pois, com esta sua iniciativa, provavelmente irá sensibilizar e incitar tantos outros camaradas a manifestarem a sua opinião ou a trazerem alguma recordação vivida, ao conhecimento de nós todos.
Desta forma o objectivo da criação deste blogue estava conseguido para satisfação de todos, em especial do seu mentor, o Carvalho.
É muito importante que se reescreva a história da nossa Companhia sob pena de perdermos para sempre todo o manancial de factos e acontecimentos, uns mais relevantes que outros, é certo, mas que marcaram de forma indelével as nossas vidas, ajudando assim a cimentar a relação fraternal que, ontem como hoje, defendemos e reclamamos.
Todos temos pois essa obrigação, uma vez que fomos nós os seus autores e actores. Personalizámos os eventos ocorridos por isso só podemos ser nós os legítimos relatores a registá-los na "Memória Colectiva" dos homens e mulheres deste país.
Bravo inesquecível amigo César Correia!...
Com um abraço

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Homenagem aos Meus Camaradas de Armas

O Orgulho de ser um Pantera Negra.
Bandeira Portuguesa ao alto na colina do Nengo onde tantos sonhos passaram, durante tantas horas, tantos dias, tantos meses e alguns anos.

César Correia junto ao mastro da bandeira no pedestal central da parada com o brasão da Cart.3514, no destacamento do Nengo, obra que ele ajudou a construir, e de que fala com muito orgulho e jamais esquecerá.
De César Pereira Correia
2º Pelotão da Cart.3514
Após findar a minha recruta fui mobilizado para Angola e colocado em Évora a fim de iniciar a minha especialidade como atirador de artilharia na Cart.3516.
No final da especialidade fui transferido para a Cart.3514 e colocado no 2º Pelotão então comandado pelo Furriel Soares na ausência do Alferes Brás, que se encontrava em Tancos na Escola Prática de Engenharia a tirar a especialidade de sapador de minas e armadilhas (Fevereiro de 72), não esquecendo os Furriéis Carrilho e Ramalhosa, assim como os restantes camaradas.
Fiz a minha apresentação nessa manhã , depois já na companhia dos meus novos camaradas fomos fazer um crosse , como habitualmente para os lados de Valverde. Logo aí comecei a perceber o lado bom e humano de uma pessoa extraordinária de seu nome António Manuel de Melo Soares, que ao ver nosso camarada 1º Cabo Joaquim Pedro Ricardo ( Faleceu de acidente em Angola no dia 23 Agosto de 1973) em dificuldade respiratória, aproximou-se e perguntou o que se passava, sou cardíaco, e perante o sofrimento espelhado no seu rosto, comentou alto o seu desagrado perante os presentes, como é possível um homem com problemas cardíacos vir à tropa.
Aconselhou-o a ficar ali, a fazer uns exercícios leves de recuperação e esperar pelo regresso dos companheiros.
Este episódio marcou-me, não era normal na tropa um superior agir desta forma tão humana. Mais tarde convivendo de muito perto com o António Soares constatei que que aquela acção tinha sido uma mera gota de água no oceano, a sua personalidade forte e cheia de qualidades, que não vou aqui enumerar, pois é do conhecimento de todos que como eu privaram ao longo desse tempo com Ele.
Não quero deixar de fazer aqui uma homenagem ao nosso saudoso 1º cabo Ricardo, pela disponibilidade e voluntariedade na ajuda desinteressada aos colegas de armas, embarcou connosco nesta aventura desconhecida com a promessa de voltar mas o destino e a sorte assim não quiseram.
Todos foram meus amigos, mas a alguns deles não vou perder a oportunidade de fazer alguns elogios, o Ruivo que fazia o seu trabalho e o dos outros sem olhar a quem, para que a sua equipa executasse o que lhe era confiado, o nosso cabo Ribeiro a quem apelidámos “o reguila” era bom moço mas com muita garganta, os cabos Silveira e Rodrigues “enfermeiro”, tantos jovens da minha idade tudo rapaziada da boa, os Cabo Verdeanos que tão bem sabiam cantar as sua coladeras e mornas em horas de saudade, jamais vou esquecer o Cardoso, Augusto, Gomes, O Pequenino Pastorinho, Nunes, Borges, Montrond o mestre que construía violinos e cavaquinhos das latas do óleo, os continentais Ramos, Resende, Vilaça, Isidro, Ribeiro, Fogeiro “transmissões”, e todos os demais merecem a minha admiração, pelo que fizeram, pela amizade, pelo companheirismo, contribuíram para amenizar a dor que nos ia na alma, num lugar de incertezas, distante de tudo e de todos aqueles que choravam silenciosamente a nossa ausência.
Parabéns Rapazes um abraço a todos e não faltem aos convívios.
César Correia e o camarada António Soares
Comentário
Recebi hoje um email, do nosso camarada César Pereira Correia e duas dezenas de fotos do seu álbum de recordações alusivas ao nosso percurso militar desde a formação da Cart3514 em Évora á nossa comissão no Leste de Angola que retratam fielmente a sã camaradagem que sempre foi o lema das relações entre todos sem excepção, e em especial uma série de imagens do destacamento base do Nengo na fase de construção das infra-estruturas que vieram trazer mais conforto, segurança e bem estar, e o César fala sempre com grande orgulho nesta obra, pois participou activamente em todas as fases, desde a terraplanagem ao primeiro içar da bandeira no pedestal central da parada com o brasão da 3514, onde tantas imagens foram captadas para a posteridade. (Carvalho)

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Rui Bacelar comentou..!

Comentário
Boa tarde amigos e camaradas. Não fiz parte da v/guerra, mas de uma mesma guerra, um bocadinho ao lado. Era Furriel na Cart. 3540, que fazia parte do Bart.3881, que esteve no Leste, de 1972 a 1974. A minha Compª esteve no Lunhamége, depois houve alguns grupos que estiveram em Lumbala, mais tarde rodamos para o Luando, mais perto de Silva Porto (Kuito). Muitas vezes entro neste v/site (e em outros) para matar saudades. Um abraço para todos e até sempre.
Ps. Camarada Rui Bacelar, desde já muito obrigado pelo teu comentário, mas não consigo localizar Lunhamége no mapa, e a que Lumbala te referes, nós Cart3514 estivemos em Gago Coutinho, hoje Lumbala Nguimbo, mas existe também outra Lumbala no quadrado do Cazombo "Alto Zambeze", na provincia do Moxico.
Um abraço até sempre.
Carvalho

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Estórias de Caça (1)

Foto-recordação desta pequena história passada com 1º Cabo Correia «Estrangeiro» na companhia de alguns camaradas. Em baixo: David Monteiro, Carvalho, o nosso cão Mucoi e o Alf. Rodrigues. Em cima: Operário da Tecnil, Tomás da Silva, Valério (Bélinha), Rosa, David Vaz, Correia, Rego, Coutinho e Gaspar.

Gunga é o maior de todos os antílopes, os machos chegam a pesar 1 Tonelada
Nengo ano 1972
O destacamento da pedreira na margem esquerda do rio Nengo, foi criado para protecção duma exploração e desmonte de granito, britagem de inertes e central de betuminosos para asfaltagem da estrada que liga Gago Coutinho a Ninda, era um local aprazível, bastante arborizado a uma centena de metros do rio, onde de facto todos gostavam de estar, ficava a meia dúzia de kms da sede da companhia, onde íamos todos os dias buscar mantimentos e pão fresco, ali perto foi montado um acampamento para os nativos e famílias que trabalhavam na obra, o que tornava o local tanto de dia como de noite mais acolhedor e movimentado.
Estávamos com sete ou oito meses de comissão e o bichinho da caça começou a ser uma rotina nos hábitos do pessoal, começámos por sair á noite dar uma volta de berliett, por perto apalpando o terreno, cada vez mais longe, muitas das vezes só voltávamos depois de abater alguma peça de caça.
Tornou-se difícil gerir as saídas nocturnas pois toda gente queria ir, e quando encontravamos uma peça de caça, só um podia atirar como era óbvio, e de facto o Gaspar era o melhor, o que chateava o seu comandante de secção que era o Correia, a quêm nós carinhosamente tratávamos por "estrangeiro" devido a sua peculiar forma de falar, e que se vangloriava de ser o melhor atirador da sua aldeia e arredores.
Quando íamos caçar o Correia nunca se calava vociferando continuamente, ò furriel porra, desde quando é que um soldado raso passa a perna ao cabo.
Um dia ao fim da tarde a secção do Correia regressava da protecção à desmatação e vêem ao longe atravessando a picada duas ou três gungas, o condutor acelera e o Correia grita para o Gaspar hoje quem atira sou eu, e baixas a bolinha daqui pra frente. Chegados ao local o Correia levanta-se do banco, manda calar o pessoal, está além, está além, aponta arma e dispara um tiro, diz o Gaspar com sacanice, já mataste um ganbuzino, grita o Correia, ò meu ceguinho não viste que lhe acertei, e abala a correr mata dentro, ficando o resto do pessoal a gozar o prato, e o Correia na sua linguagem singular gritando "ó seus canalhas não bindes ajudar, tais fo...dos não lhes botam os dentes".
Não encontrou a gunga, a mata era fechada e a luz já era fraca, regressou irritado, por causa dos piropos dos camaradas, mas ninguém o demovia da certeza, que lhe tinha acertado, e moeu a cabeça ao Alferes depois do jantar par irem ao local com o cão e o holofote que o animal estaria perto do local onde ele o alvejou.
Na manhã seguinte o amigo Correia que levou a noite a a sonhar com a gunga foi dos primeiros a levantar-se para voltar ao local, quando fossem levar o pessoal da protecção, e tinha razão, pois quando iam chegando começaram a ver abutres sobrevoando a zona o que indiciava um animal morto por perto. Assim que pararam a berliett o cão saltou e arrancou logo naquela direcção, lá estava aquele grande troféu por terra a curta distância do local onde foi baleado pelo Correia.
Ninguém o calava, dizia ele eufórico, ó Alferes daqui para a frente quem atira sou eu, qual Gaspar qual car..lho, esse gajo nem um boi enxerga à frente dos olhos, quanto mais uma gunga a cem metros e a fugir, só o cabo Correia.
PS. O João de Almeira Correia era 1º Cabo, natural do distrito de Viseu, um moço sempre bem disposto e muito reinadio, muito alegre, amigo do seu amigo, que despia a camisa para ajudar qualquer um dos camaradas. Nunca mais tivemos noticias dele, julgo que emigrou, mas não perdi a esperança de o voltar a encontrar, o mundo não é assim tão grande.
Adeus até ao meu regresso

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Missão Católica de Gago Coutinho

Localização da Missão Católica de S. Bonifácio em Gago Coutinho

Lumbala Nguimbo
«Entrevista de Siona Casimiro»
A Missão Católica de S. Bonifácio está situada dentro mesmo da Vila sede de Lumbala Nguimbo. Esteve privada da presença missionária desde 1974. A Igreja local está em todos aspectos na estaca zero e, no quadro do esforço tendente ao seu reerguer, esteve em Luanda o seu pároco, Padre Orlando Agostinho, 33 anos de idade.
“O apostolado” abordou-o para saber do sacerdócio naquele sertão.
O Apostolado: Senhor padre, localize-nos por favor a vossa Jurisdição.
Padre Orlando AgostinhoA Missão católica de São Bonifácio está situada dentro mesmo da vila sede de Lumbala Nguimbo, município das Bundas, ao Sul da província de Moxico. Fundada em 1937 pelos missionários beneditinos, é uma das missões mães da Diocese do Luena, ao lado daquelas do Luau (Santa Teresinha) e S. Bento de Cazombo. Fica a quase 492 km da capital da província. Situa-se mais próxima da Zâmbia do que do Lwena, por exemplo.
O Apostolado: E a população residente,como a pode caracterizar?
Padre Orlando AgostinhoA população pertence ao grupo étnico Bunda, contando com outros grupos etnolinguísticos. Está estimada em 37.000 habitantes, na sua maioria recém retornada das Repúblicas da Zâmbia, do Congo Democrático e Namíbia, muitos deles não sabendo expressar-se em português, senão, em inglês. Um clima tropical quente domina na região. A pesca, a lavoura e a caça são as actividades essenciais dos habitantes. Os principais produtos cultivados são: massango, massambala, e cereais e colheita de mel. Realço ainda que a comunidade integra maioritariamente famílias de ex-militares, isto é, das extintas FAPLA, da UNITA, das FAA.
O Apostolado: Como se apresenta a situação da Igreja em termos de infra-estruturas por começar?
Padre Orlando AgostinhoA Igreja de Lumbala está em todos os aspectos na estaca zero fisicamente falando. Estruturas não existem. A guerra destruiu o único edifício da igreja que havia. Ficou sem cobertura, janelas, portas, chão, pintura, instalação eléctrica. Casa paroquial, internato masculino e suas casernas, sistema de água canalizada, residência das madres e seu dispensário e internato feminino, a aldeia dos idosos e leprosos... Tudo foi ao ar. Estas estruturas passaram momentos difíceis logo depois da independência. No ano 1978 com a adopção da política marxista–leninista, foram violentamente confiscadas pelo governo de então e muito património espiritual e material saqueado. Alguns imóveis voltaram à propriedade da Igreja nos anos 90, mas o recomeço da guerra impossibilitou a sua utilização, construção e reconstrução, bem como a colocação de um padre. A área mergulhou de novo na situação de abandono e saque por parte dos soldados. Hoje em dia, o próprio pároco está provisoriamente numa antiga casa de professores por equipar e sem espaço de acolhimento de visitas.
O Apostolado: Em termos sociais, como pode descrever a comunidade paroquial?
Padre Orlando AgostinhoA comunidade paroquial não foge muito ao que referi sobre a população local em geral. Ela integra muitas categorias vulneráveis. Entre as pessoas de terceira idade, há velhos rejeitados e estigmatizados tradicionalmente pelas suas aldeias e famílias. Há considerável número de desempregados e órfãos, em maioria crianças e jovens que não sabem expressar-se em português, senão em inglês mal falado e dialectos locais. Muitos repatriados não encontraram as suas famílias nas áreas de origem depois de muitos anos no exílio, pelo que se fixaram sem querer em comunidades de conveniência e não da sua proveniência.
O Apostolado: Pode ser mais profundo sobre as carências da população local?
Padre Orlando Agostinho
À dificuldades de vária ordem: falta de água corrente, de electricidade, de escolas suficientes, de hospitais que ofereçam segurança aos doentes, de emprego, sobretudo para jovens regressados e outros que se entregam rapidamente à vida fácil e de vícios. Para aquisição de certos meios, tanto os alimentos como materiais de construção, a distância de Lwena tem significado a triplicação ou quadruplicação da Missão Católica de Lumbala Nguimbo
ECCLESIAL 5
O Apostolado: Como tem sido encarado o pároco nestas condições?
Padre Orlando AgostinhoA Diocese, mesmo sem grandes condições para acomodar um pároco ouvira a súplica do povo e enviou aos 28 de Maio de 2006 um pároco. O povo alegrou-se e agradeceu isso ao seu Bispo. O ároco é visto e tido como o pai benfeitor-socorrista da comunidade tanto dos cristãos como dos não-crentes. É o padre que deve apoiar o transporte para doentes da comunidade, do hospital à casa e vice-versa; é o padre que deve e pode apoiar o transporte para levar capim e material de pau-a-pique para construir a casa de um(a) idoso(a), doentes e outras necessidades das pessoas que fazem parte ou não da comunidade cristã.
O Apostolado: Em que tem consistido o trabalho do padre nestas circunstâncias?
Padre Orlando AgostinhoAntes de mais, devo sublinhar que a miséria espiritual é muito notória. O povo de Lumbala Nguimbo esteve privado da presença missionária desde 1974, isto é, antes da independência. Assim, o nosso trabalho pastoral gira em torno da mensagem evangélica, transmitir aos nossos cristãos a esperança e o amor entre os irmãos na caridade, baseadas numa profunda dimensão humana nas suas relações pluridimensionais. A nossa mensagem vinca quanto não devem ser conceitos vagos a compreensão e o respeito pela diferença, a justiça social, o espírito de tolerância e reconciliação entre irmãos, o respeito pelos direitos humanos e democracia, em suma,a cultura da paz. Incentivamos as populações ao serviço particular e comum da agricultura, sobretudo lavras e hortas para a Caritas da Missão.
O Apostolado: Falando em incentivos, o pároco tem disposto dos meios necessários?
Padre Orlando Agostinho
Em verdade, falta tudo: meios litúrgicos (paramentos, mala de missas; máquina de fabricar hóstias etc...), materiais para o secretariado de pastoral paroquial, equipamento para os serviços comunitários da Caritas e residência paroquial, apetrechos para a biblioteca paroquial.

A residência paroquial, por exemplo, é muito pequena para o próprio pároco e, pior, para acolher uma visita do Bispo e outros hóspedes. Aliás, quando isso acontece, alguns missionários dormem acumulados numa só sala, e outros ao relento, quer dizer, passando as noites dentro dos carros. Outro exemplo, a vastidão do município requer ao pároco visitar constantemente as comunas e pequenas comunidades, em companhia de um grupo de catequistas e seu conselho paroquial, mas o transporte é exíguo.
O Apostolado: Exíguo, como?
Padre Orlando Agostinho -Até só para tirar os meios de sustento para o pároco de Lwena ao município, o carro danifica-se logo na primeira viagem. Contando com os mantimentos, o combustível e os próprios ajudantes numa viagem duríssima e longa, o pequeno e único veículo já é insuficiente. De realçar que a viagem de Lwena-Lumbala Nguimbo gasta 200 litros de combustível por causa do uso permanente da tracção reforçada, porque sem esta técnica, a viagem torna-se cansativa, difícil e longa, levando 2 a 6 dias. A pastoral naquelas picadas ainda é mais complicada, colocando anecessidade de algumas motorizadas e bicicletas. As picadas muito arenosas, pantanosas, esburacadas recomendam a aquisição de um carro-aberto tipo“Land-Cruiser Pickap”.
O Apostolado: Mais exemplos, ainda?
Padre Orlando Agostinho
Posso referir, ainda, que animais ferozes abundam na zona, muitos deles à espreita na beira das estradas, pontes. Uma vez, quando me dirigia ao Lumbala Nguimbo, fui cercado por cerca de 30 mabecos, animais mais ferozes do que o leão. Em Maio/2006, aquando da tomada de posse do pároco, o Bispo Dom Mbilingi, alguns catequistas e a minha mãe, também, viveram quase uma experiência igual. Devido a presença de pegadas do leão no local de descanso, tiveram que transferir-se para outro sítio mais seguro.O Apostolado: O que faz no sentido de minimizar ou ultrapassar este ambiente de tamanha adversidade?
Padre Orlando AgostinhoOra, o sacerdote que está a trabalhar em Lumbala Nguimbo é ainda muito jovem. Esta é a sua primeira missão como pároco e está, por isso, com muita força de vontade de trabalhar e ajudar os seus irmãos a redescobrirem as raízes da sua fé e voltar às origens da primeira Evangelização realizada pelos missionários Beneditinos em 1963. Na perspectiva de reduzir as dificuldades materiais da sua actividade, concebemos um projecto de apetrechamento da Missão de que diligenciamos a aprovação e execução,
O Apostolado: A jeito de palavra final, o que apetece dizer para os leitores?
Padre Orlando AgostinhoA Comunidade dos fiéis de S.Bonifácio é formada actualmente por cerca de 3.000 fiéis só na sede. A grande limitação é os escombros deixados pela guerra que aí se desenrolou como bastião de guerrilha entres beligerantes. Estando a Missão em estaca zero, ela precisa urgentemente dos principais meios e usuários, residência paroquial e suas estruturas. O pároco lida com a solicitação constante dos catequistas de comunas distantes e confrontados com maiores dificuldades de satisfação do seu serviço. Eles têm desejo de se verem bem formados, pois temos catequistas sem baptismo, e outros com antiga e única formação. Esses desejam voltar às origens, fazer e dizer como os primeiros missionários faziam: formar, divertir e informar. Há o desafio de catequeses comunais e pequenas comunidades já existentes e outras ainda por se fundar. Em remate, reafirmo que, em Lumbala Nguimbo, trata-se de um voltar às raízes da primeira Evangelização, senão um recomeçar, um criar com mãos vazias
noticia http://www.apostolado-angola.org/

Água em Gago Coutinho

Lumbala Nguimbo 28 Set. 2008
Os munícipes da vila de Lumbala-Nguimbo, sede municipal dos Bundas, província do Moxico, ganharam hoje, sexta-feira, um novo sistema de captação, tratamento e distribuição de água potável. O sistema de abastecimento de água foi reposto em seis meses num investimento de 15 milhões de kwanzas, no âmbito do programa de melhoria e aumento da oferta dos serviços sociais básicos ás populações. Foi construído um tanque de distribuição com capacitdade 50 mil litros, sete chafarizes e quatro lavandarias públicas, para além de colocadas torneiras domiciliares. O coordenador do grupo de acompanhamento do comité provincial do MPLA, Domingos Máquina, que inaugurou o sistema, enalteceu o empenho do governo na resolução dos principais problemas sociais que afectam as comunidades. Para ele, o consumo de água potável vai contribuir para melhoria da qualidade de vida das populações. Maria Luzia Kayawo, de 64 anos de idade, regozijou-se com o trabalho do governo na reposição da água canalizada.
noticia AngolaPress

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Leão assalta Destacamento

Histórias de Angola
Rio Luati 1 Outubro 1973
Este destacamento do 1º pelotão da Cart3514 com um efectivo de 30 homens incluindo, cozinheiro, enfermeiro, transmissões e condutor, situado na margem esquerda do rio Luati, a montante da ponte na picada que liga Gago Coutinho a Ninda, tinha como missão a segurança duma exploração de latrite (1) a céu aberto, o parque de máquinas de desmonte e carga, camiões, trabalhadores que pernoitavam no local em pré-fabricados de madeira e em palhotas rudimentares, assim como a protecção duma frente de trabalho a cerca de 5 kms, na desmatação, compactação e construção da estrada, a cargo da Tecnil (2). O local não era o ideal, no plano da segurança, muito exposto e inseguro, situado numa zona baixa em relação à envolvente, muito isolado, as transmissões ficavam inoperacionais durante a noite, a 64 kms de Gago Coutinho, a 26 kms de Ninda (3) e a 50 kms da fronteira. Havia algum receio e preocupação, o rio era um corredor referenciado de passagem, muito utilizado entre as bases na Zâmbia e o Muié na região de Cangombe, na infiltração de guerrilheiros do MPLA.
O acampamento com quarenta e poucos metros de diâmetro, era protegido por uma barreira de terra com dois metros de altura em toda a periferia, no interior seis tendas cónicas e cozinha de campanha, a uma centena de metros o rio Luati, de leito profundo, largura mediana, forte caudal, correndo num vale estreito e sinuoso entre duas colinas bastante arborizadas. Na margem direita, a montante da ponte havia uma grande chana (4), onde várias vezes fomos de noite caçar, palancas, cabras do mato e outros, quando os géneros escasseavam, se detioravam com o calor, ou simplesmente pelo gosto, ousadia e aventura.
Nos destacamentos jantava-se cedo; às seis da tarde cai a noite, nos trópicos a transição dia noite é muito rápida, luz só de petromax, as melgas são endémicas, como tal o pessoal recolhia ás tendas jogava cartas, escreviam, liam ou dormiam, apenas dois sentinelas, em turnos de duas horas, zelavam pela segurança nocturna no perímetro do destacamento. Com dezassete meses de comissão, já tinha passado a fase do medo, estávamos naquela «estou-me fod…. para isto tudo», conhecíamos o terreno, a situação, estávamos medianamente preparados para algumas situações, nas outras havia de ser o que Deus quisesse, nem sequer admitíamos pensar nelas, apesar do que ocorria á nossa volta..! Nos 27 meses que passámos nesta zona do leste, as companhias operacionais do Bcav.3862 primeiro e depois as do Bart.6320, destacadas no Mussuma, Ninda e Chiúme, nunca tiveram descanso, minas anti-pessoal e anti-carro, emboscadas a colunas-auto na picada e na mata, faziam operações constantemente na zona envolvente, algumas vezes lançadas em hélis a curta distância dos objectivos com elevado grau de risco, outras vezes em conjunto com Flechas (5), Catangueses (6), GE (7), Paraquedistas, Fuzileiros e Comandos, apoiados pela Força Aérea ou pelos Sul Africanos no lançamento de meios, transporte ou bombardeamento de objectivos do Sete ao Chalala, do Luanguinga ao Cuando.
Os aquartelamentos de Ninda e Chiúme foram flagelados várias vezes de noite pelo IN com armamento pesado, houve baixas psíquicas, feridos, estropiados e mortos.
Esperávamos interiormente cenários de outra ordem, noutros palcos, com outros actores, outras cenas, mas jamais o filme que segue dentro de momentos.
Mapa da zona envolvente do destacamento do Luati, com os camaradas António Oliveira e Castro que faziam o quarto de sentinela, e o suposto trajecto do leão assinalado a vermelho. (clique sobre a imagem para aumentar a foto)
A determinada altura da estadia começámos a ouvir «Urros» todas as noites, vindos do outro lado do rio, uns diziam que eram pacaças outros que eram leões, na dúvida uma noite, subimos para a berliett e fomos ao outro lado do rio, bater a mata com o holofote ao longo da picada, mas não vislumbrámos nada, apenas umas pegadas frescas de leão num trilho de caça. Uns dias mais tarde, precisamente a noite de 1 Outubro de1973 ficou na nossa memória, escura como breu, fria, apesar da época do cacimbo estar no fim, (Altitude média no leste de Angola 1200mts) o 1º Cabo António Oliveira e o Castro, faziam o quarto de sentinela das 23 à 1 da madrugada, sentados no aconchego da lareira, com um cachorro pequeno deitado ao lado, e a confiança absoluta no Mucoi, um cão de porte médio, valente, agressivo, muito territorial, de raça «Leão da Rodésia»(8) sempre vigilante de dia e de noite na detecção e aproximação ao destacamento de pessoas estranhas ou animais, mas naquela noite pressentindo o perigo eminente, não deu sinal algum, acobardou-se, refugiando-se numa das tendas, de pêlo eriçado e rosnando baixinho, pondo em risco a segurança, do pessoal.
Um leão solitário de farta juba, decidido a comer uma refeição a qualquer preço, vindo do outro lado do rio atravessou a ponte, seguiu picada acima até ao destacamento, protegido pela escuridão, rodeou e farejou as casas de madeira, subiu sorrateiramente a barreira de protecção do acampamento, e com um salto felino abocanhou o cachorro, o Castro ao sentir o impacto da fera contra as pernas dá um tiro por instinto e grita desesperado, é um Leão è um Leão, o animal foge pelo meio das tendas galgando a barreira de protecção oposta, desaparecendo na cerrada penumbra da mata com uma parca refeição.
Entre militares e civis instalou-se o «medo» momentaneamente, a maioria do pessoal já não dormiu nessa noite e alguns camaradas acamparam em cima da berliett até ao raiar do dia.
Tomámos o pequeno almoço, e seguiu-se o ritual diário, uma secção saiu para a protecção á frente de trabalhos, a segunda ficou de serviço ao destacamento, e a terceira que devia descansar, pegaram na arma e seguiram o rasto do leão até o perderem numa zona de mata densa já bem longe do destacamento.
No regresso avistamos duas palancas num trilho á beira do rio, caminhando em direcção á mata, o pessoal divide-se e acabamos por abater um animal, que transportámos para o destacamento, onde repartíamos habitualmente parte da carne com o pessoal civil, que trabalhava na obra. Estranhámos ninguém querer aceitar, principalmente os trabalhadores nativos, que eram sempre os primeiros a chegar e os últimos a sair, levando sempre o resto da carcaça e os despojos do animal, e tinham razão, sabiam por experiência que com carne fresca na “dispensa” corriam o risco acrescido de ser os principais alvos de ataque.
Na foto o Carvalho com o Joaquim Gonçalves "Beringel" e o Rosa a esfolar a palanca
Os Trabalhadores não queriam lá pernoitar, garantiam que o animal iria voltar novamente pela calada da noite, e que ninguém estaria em segurança, ia haver estragos, o caso tornara-se surreal, foi então que o Alferes Rodrigues juntou o pessoal, e disse, temos que tentar resolver a situação, inventar uma armadilha, cada um diga o que pensa e sabe, não tardou estava encontrada uma solução, que nos pareceu ser a mais viável, era preciso uma árvore isolada de mato, a trezentos ou quatrocentos metros do acampamento, na direcção em que o animal fugira após o ataque e com caminho aberto para a berliett passar.
A meio da tarde depois de encontrado o local ideal, montámos a armadilha com uma granada defensiva amarrada ao tronco duma árvore, meia cavilha de segurança enfiada, argola presa com um cordel de nylon tenso ao naco de carne e deste ao tronco um cordel bastante frouxo, de modo que o animal, accionasse o engenho mas não fugisse com o isco antes da explosão.
Isco com carne de palanca, armadilhado com uma granada defensiva

Ao final do dia, conseguimos convencer os civis a ficar, jantámos todos juntos, um churrasco de palanca na brasa e umas cervejinhas nocal, e assim que começou a escurecer civis e militares entrincheiraram-se em cima da berliett, numa longa pausa, a contagem decrescente tinha começado, muitos cigarros, expectativa, ouvidos à escuta, eis que uma hora e tal depois, o primeiro de muitos urros, cada vez mais perto mais intensos, instala-se o silêncio, finalmente o animal detectou o isco, um clarão, um estrondo enorme ecoa no vale, viatura em andamento, o Beja acelera, algumas dúvidas, terá sido o leão ou outro animal..? De holofote em punho, seguimos em marcha lenta, pesquisando a mata palmo a palmo...!!
Lá estava de cabeça no solo, maxilar estilhaçado, quartos traseiros em pé, ainda vivo, respiração ofegante, um momento de arrepiar, o Alferes Rodrigues salta para o chão, encosta-lhe o cano da G3 à cabeça e dispara acabando com o sofrimento deste belo e imponente rei da savana africana.
Carregado para cima da berliett de volta ao destacamento, houve farra com muito álcool e cerveja à mistura, em redor da lareira, com outras histórias de situações idênticas, narradas e vividas por indígenas locais, de ataques perpetrados por leões solitários, animais no limiar da idade, destronados e desapossados das fêmeas, escorraçados do bando e dos seus territórios de caça, por outros machos mais novos e possantes.
Estes animais muitas vezes já sem capacidade de abaterem presas que lhe saciem a fome, aproximam-se de pequenas sanzalas, pela calada da noite, e na primeira oportunidade, invadem quimbos e palhotas, atacando pessoas e animais domésticos, provocando vitimas e semeando o terror entre a população, noite após noite, até serem abatidos como solução na protecção a esta gente que continua a viver primitivamente, das lavras, da pesca, do mel e da caça em pleno coração da mata africana.
Na foto os camaradas Lourenço do Carmo, Carvalho, Ricardo da Conceição e um «peluche» de estimação
Na manhã seguinte após os muitos retratos da praxe, foi literalmente esquartejado, garras, presas, patas, pele, cabeça, rabo, partes da juba, todos queriam uma pequena recordação, um troféu para mais tarde recordarem, esta etapa da nossa passagem por África hoje aqui relembrada, na pessoa dos camaradas 1º Cabo António Oliveira natural do distrito do Porto e César Soares de Castro natural de S. Maria de Lamas, que foram protagonistas duma situação, que poderia ter sido muito complicada, mas que não passou apenas dum grande susto.
Adeus até ao meu regresso
1) Latrite - Minério terroso utilizado em África na compactação de estradas.
2) Tecnil - Empresa de Obras Públicas de Angola.
3) Ninda - Vila, 90 kms a sul de Gago Coutinho.
4) Chanas - Clareiras extensas e alagadiças de vegetação rasteira que ladeiam os rios
5) Flechas - Ex. Guerrilheiros recuperados sob o comando da PIDE
6) Catangueses - Ex. Militares da República Democrática do Congo, apoiantes de Moisés Tchombé, na falhada secessão da província do Catanga, após a proclamação de independência em Junho 1960, do jugo colonial Belga, estavam refugiados em Angola, como mercenários a soldo de Portugal.
7) GE - Grupos Especiais de operacionais indígenas sob o Comando dos Sectores de Zona
8) Leão da Rodésia - “Rhodesian Ridgeback” Raça híbrida do Terrier cruzado com o nativo africano Hottentots utilizado pelos Boers como guarda e na caça grossa na antiga Rodésia, (Zimbabwe) - mais informação clicar em « Leão da Rodésia »

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Grupo de Tramsmissões da Cart.3514

Imagem no interior do seu posto de transmissões no destacamento base do Nengo, com os camaradas Fernando Rego, Victor Marques Dinis, Paulo Ribeiro, Carlos Monteiro, Neves Tavares e o Manuel António Oliveira em alegre convívio de camaradagem, que sempre os caracterizou. Quero aqui deixar uma palavra de elogio e agradecimento a estes jovens do grupo de transmissões da nossa companhia, pois eram eles que em escuta permanente e total disponibilidade, mantinham a unidade com os sub-destacamentos vinte e quatro horas por dia, como elo de ligação, estabilidade e segurança dos seus camaradas, muitas vezes com dificuldades, que na generalidade sempre conseguiram suprimir, pois havia locais de difícil recepção e emissão na comunicação via rádio, no período da noite.

Antes da auto mutilação capilar, com um aspecto mais ao nível dos meninos da linha.
Em cima: Fernando Rego, Carlos Monteiro, João Medeiros e o Manuel António Oliveira.
Em baixo: Paulo Ribeiro, Vítor Marques Dinis e Joaquim Neves Tavares.

Fotos cedidas pelo camarada Paulo Ribeiro
Tanta carecada junta de certo que houve aposta, mas não sabemos quem ganho ou perdeu, terá que ser o Paulo a contar a história do pente zero, pois não me lembro que tenha sido por castigo.
O trabalho que deram ao cabo verdiano Fontes para desfazer os caracóis à rapaziada.
Em cima: Fernando Rego, Carlos Manuel Monteiro, o soba da tabanca João Osvaldo Medeiros e o Manuel António Oliveira.
Em baixo: Paulo Afonso Ribeiro, Vítor Marques Dinis e o Joaquim Neves Tavares.
PS. Paulo o nosso agradecimento pelas fotos, mas não se esqueça de que estamos á espera da sua crónica à cerca destas fotos e do pente zero, queremos que recorde a todos nós essa e outras histórias.
Um abraço

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Lumbala Nguimbo / Vila Gago Coutinho

Lumbala Nguimbo sede municipal dos Bundas no distrito do Moxico, denominada na era colonial como Vila Gago Coutinho, atribuída em sua honra pelos serviços prestados, aquando da demarcação da fronteira sueste de Angola num litígio que opunha Portugal à Inglaterra.



Monumento em honra do Almirante inaugurado 17 Julho 1969 na então Vila de Gago Coutinho

Na foto acima o Cap. ten. Gago Coutinho e o 1º Ten. Costa Marques numa pausa dos trabalhos de demarcação da fronteira leste de Angola.
A denominada “QUESTÃO do BAROTZE
Iniciada em 1890, refere-se ao litígio entre Portugal e a Inglaterra no que respeita à fronteira sueste de Angola com a Rodésia do Norte, hoje Zâmbia.
Este diferendo objecto de uma decisão arbitral com sentença proferida em 30 de Maio 1912 pelo Rei de Itália Victor Manuel III foi favorável a Portugal.
Em 1913 uma missão portuguesa de que faziam parte o Capitão Tenente Carlos Viegas Gago Coutinho e os 1º Tenente Costa Marques e Sacadura Cabral, procedem à demarcação da fronteira do Barotze. Finalmente a 5 de Março de 1915 é assinado na cidade do Cabo por representantes de Portugal e da Inglaterra o protocolo respeitante às fronteiras luso-inglesas do sueste Angolano.

Na foto de baixo, carta da região sueste de Angola confinante com a fronteira do Barotze.
Carlos Viegas Gago Coutinho nasceu a 17 de Fevereiro de 1869 no bairro da Madragoa em Lisboa, foi oficial da Armada, navegador e historiador vindo a falecer em Fevereiro de 1959.
Ao serviço da, Marinha Portuguesa percorreu os quatro cantos do mundo, atingindo o posto de almirante. Desenvolveu uma vasta obra de investigação científica, publicando uma grande variedade de trabalhos geográficos e históricos.
A partir de 1898 notabiliza-se pelos levantamentos geográficos e delimitações de fronteiras em Angola, Moçambique e demais territórios ultramarinos. No decurso destes trabalhos faz a travessia de África, como Capitão ten. e conhece Sacadura Cabral com quem realiza em 1921 a travessia aérea Lisboa – Funchal, e em 1922 a primeira travessia aérea do Atlântico Sul, entre Lisboa e o Rio de Janeiro.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

1º Pelotão da Cart.3514 (2)

Imagem dos camaradas do 1º grupo tirada em Setembro de 1973 no destacamento do Nengo em frente à secretaria do comando na companhia do nosso Cap. Rui Afonso Crisóstomo dos Santos, e do grande amigo açoriano 1º Sarg. Octávio Barbosa Botelho .
1ª fila: Ricardo Conceição, Pimenta, --?-- , Oliveira, Castro, Carmo, Inocêncio Carreira, Cipriano Veiga, Álvaro Teixeira, mucoi e Careca.
2ª fila: Fur. Arlindo Sousa, David Vaz, Luís Santos, Faustino Costa, Galvão, Cap. Crisóstomo dos Santos, Alf. Rodrigues, Rego Correia, Victor Melo, Domingos Gaspar, António Pinto, Almeida Correia e 1º Botelho.
3ª fila: Jesuíno Pereira, Arlindo Barros, David Monteiro, Simplício Caetano, Rosa, Barbas, Cídio Vaz, --?--, Eugénio Monteiro e António Carvalho

um abraço a todos.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Um Aniversário bem Regado

Tenho de memória que esta foto foi tirada após um jantar de aniversário, e se prolongou noite dentro, como era habitual até de madrugada, no quarto dos furriéis, e como sempre com um final feliz, como ilustra a boa disposição de todos camaradas. Em baixo: Carrilho, António Soares, Marques e Carvalho. Em cima: o 1º Botelho já com pouco gás para estas andanças, Duarte, Medeiros e Diogo.
Um abraço

3 º Pelotão da CART.3514 (1)

Foto cedida pelo camarada José Manuel Carneiro "Pereirinha"
Imagem do 3º Pelotão junto ao mastro da bandeira no destacamento base do Nengo, com os
camaradas que faziam parte deste grupo na companhia do nosso Capitão.
1ª fila: Eliseu Lopes, Saramago, Hipy, Matos, Parreirinha, Zé Abreu, Aguiar, Carreira, Gilberto Nunes e Ribeiro.
2ª fila: Varela, Barraca, Fur. Pereirinha, Cap. Rui Crisóstomo dos Santos, Alf. Costa e Silva, Esteves, Tavares, Fur. Cardoso da Silva, Fur. Parreira, Gomes, Simões e Nunes.
3ª fila: Rodrigues, Serafim Gonçalves, Mauricio Lopes, Guerra, ----?--- , ---?--- , Moeda, Eduardo Gonçalves e ---?--- .
Fica aqui um desafio, identificar os três camaradas de Cabo Verde na foto....!!!!
Ao fundo o anexo em estilo bidonville, onde estavam instalados os quarto de furriéis, a secretaria, o comando e os quartos de oficiais, ladeados por duas das célebres tendas que serviram durante dois anos e tal de caserna ao pessoal operacional, nos destacamentos de protecção ao longo da picada.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Televisão em Gago Coutinho

Legislativas 2008/Lumbala Nguinbo

MPLA entrega material de construção a residentes dos Bundas
Pelo menos 10 residentes do município dos Bundas, província do Moxico, receberam hoje (sábado) material de construção, mobiliário e utensílios de cozinha, da parte do comité do MPLA da província do Moxico, constatou a Angop. Os bens oferecidos pela coordenadora provincial da campanha do MPLA no Moxico, Leonora Bimbi de Morais, são compostos de chapas de zinco, mobiliário de sala e de quarto, carros de mão, loiças, cobertores e lençóis.

No acto de entrega, o primeiro secretário municipal do partido, Augusto Júlio Kuando, informou que estão em construção 40 residências económicas, que serão distribuídas em Novembro próximo, aos jovens residentes em Lumbala – Nguimbo, município sede. As residências, explicou Augusto Júlio Kuando, vão ser atribuídas a jovens casados que nunca tiveram casa própria e deficientes físicos.

Por outro lado, o sinal da Televisão Pública de Angola, TPA, começou também a chegar às localidades do Luyo, Kavuyana, Luanguinga, Lucula, Lutembo e Lufuta, todas adstritas à circunscrição Bundas, onde foram distribuídos kits para o efeito. Leonora Bimbi de Morais disse que "os meios distribuídos vão permitir à população daquelas comunidades acompanhar os acontecimentos que ocorrem no país e mundo".

A dirigente política, exortou na ocasião os eleitores a afluírem às assembleias de voto no dia 5 de Setembro, "votando na continuidade do seu partido que garante um futuro certo e melhor para a população angolana".
Notícia AngolaPress

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Energia elétrica em G. Coutinho

Munícipes do Lumbala-Nguimbo beneficiam de energia eléctrica
Cinco mil moradores da localidade de Lumbala-Nguimbo, sede municipal dos Bundas, província do Moxico, beneficiam desde domingo de energia da rede pública, com a montagem de um grupo gerador de 100 kvas.
Na ocasião, a coordenadora provincial da campanha eleitoral do MPLA no Moxico, Leonora Bimbi de Morais, apelou aos munícipes o uso racional do bem público.
Referiu que o governo do MPLA continuará a resolver os principais problemas que afectam a população no domínio sócio-económico, visando a melhoria do seu bem-estar.
Por sua vez, o administrador municipal dos Bundas, Augusto Júlio Kuando, fez saber que a entrada em funcionamento do sistema de fornecimento de energia eléctrica na vila, vai impulsionar o desenvolvimento e melhorar a vida dos seus habitantes.
Agradeceu o gesto e ressaltou que a iniciativa traduz na prática o desejo e determinação do governo angolano em resolver gradualmente as dificuldades das populações.
Notícia AngolaPress

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Não quero acreditar que nas seiscentas e tal visitas ao nosso site, desde a instalação do Counter a 1 Agosto a maioria delas não seja de camaradas, já que «Geo-localizador de entradas on-line» referência locais repetidamente, o que nos leva a concluir que são companheiros, identificados com a nossa causa. Já agora vou citar visitas de países como Brasil, Índia, Angola, EUA, França, Luxemburgo, Alemanha, Macau, e dos Açores - Angra, P. Delgada, Praia da Victoria, Fajã dos Cúberes e do continente locais como Porto, Viseu, Gondomar, Cortegaça, Mira, P. Varzim. V.N. Gaia, Lisboa, Odivelas, Sintra, Carnaxide, Sintra, Carcavelos, Amadora, Setúbal, V. Novas, Faro, Évora e outros concerteza, pois não tenho feito a verificação diária.
Um abraço.

domingo, 31 de agosto de 2008

Reconstrúidas pontes no Leste

Moxico
Reabilitadas mais de vinte pontes nos Bundas em seis anos.
Vinte e sete pontes metálicas e de madeiras foram construídas e reabilitadas desde 2002 até a presente data, no município dos Bundas, província do Moxico, revelou hoje, sábado, em Lumbala Nguimbo, o seu administrador, Augusto Júlio Kuando. Em declarações à Angop, o responsável explicou que as pontes estão montadas sobre os rios Lunguevungo, Luconha, Luzi, Luvei, Luoze, Lulue, Lumai, Luyo, Kavuyana, Lutembo, Lufuta e Luanguinga, localizados no troço rodoviário que liga a comuna de Lucusse à vila de Lumbala Nguimbo. Apontou que foram igualmente repostas as pontes sobre os rios Ninda, Nguimbo, Mussuma, Nengo, Luce, Luati, Ninda, Cassanga e Chiume, no troço rodoviário que dá acesso às comunas de Ninda e Chiume (Bundas). O administrador municipal indicou que neste momento estão em curso os trabalhos para restituição das pontes sobre os rios Lucula, Mulai, Luanduli, Sessa e Chipumba, no sentido de atingir a sede comunal de Sessa. Sem precisar o montante financeiro empregue na empreitada, o responsável fez saber que a paz no país favorece na recuperação das principais vias de acesso, permitindo assim a livre circulação de pessoas e bens em prol do desenvolvimento da circunscrição. As pontes foram construídas e reabilitadas pelo Instituto Nacional de Estrada de Angola (INEA) em colaboração com a companhia de engenharia das Forças Armadas Angolanas (FAA) e do Programa Alimentar Mundial (PAM).
Notícia AngolaPress

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Pescaria Artesanal

Recordação de 1972 na parada do Destacamento-Base do Nengo ainda em fase de acabamento com alguns «Metralhas» após uma pescaria artesanal, mas fora da lei, com granadas lá em baixo perto da ponte do rio Nengo, entre eles o saudoso Carrilho, Carvalho, Carocinho com um «saguim» ao ombro, e o camarada Resende do 2º pelotão; em baixo Bento Lagarto, Venâncio do Carmo, Gonçalves e Pires.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

FÓRUM IGNARA#GUERRA COLONIAL

Reportagem: «Ninguém fica para trás»
Posted: 26 Aug 2008 08:49 AM CDT
"Ninguém fica para trás"O Resgate de onze militares portugueses que há 35 anos morreram em combate em GuidageReportagem SIC/Visão - Missão Guiné-Bissau; Para ler aqui:http://ultramar.terraweb.biz/Noticia_JAnteroFerreira_NinguemFicaparaTras_Visao_SIC.htm

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

SOBA CAPÚLE

Após conclusão das obras do Nengo eis que surge um convite para que a nossa equipa fosse para Gago Coutinho construir uma Peixaria, mesmo defronte ao estabelecimento comercial do Senhor Aníbal, destinatário daquele novo investimento.
Analisado o projecto, hoje simples de o construir mas, à data, sem quaisquer conhecimentos técnico/científicos, valendo sómente o empirismo amador do "Bidonville" sobretudo do aquartelamento do Nengo, pedi ao Furriel Parreira, particular amigo, este sim com conhecimentos aprofundados sobre a matéria, para me dar algumas noções básicas daquela construção, desde logo pela sua implantação. De bom grado acedeu ao meu pedido e, do exterior das barreiras de protecção do aquartelamento, ensaiámos, várias vezes a sua implantação, esquadrias, folgas para as argamassas, rebôcos, limpos, etc.
Portador de todas estas noções básicas, lá reuni com a equipa de obras, com o César Correia como principal conselheiro, identificámos outras necessidades para o sucesso da mesma, concluindo que seria vantajoso a "requisição" aos Metralhas do companheiro Mil, especialista em rebôcos e acabamentos, que se juntou a nós e lá partimos cheios de entusiasmo para Gago Coutinho.
Aqui chegados tínhamos à nossa espera uma equipa de nativos, constituída por 2 mestres e cerca de 8 serventes que, sob a nossa coordenação, iriam connosco partilhar a construção da dita Peixaria.
Para que fosse rapidamente construída, a nossa equipa - de militares - pernoitou, durante alguns meses - três, salvo erro - em quartos da habitação própria do Sr. Aníbal, construção tipo colonial circundada por varandas, ficando o signatário separado destes, num espaço reservado e bem cuidado, no seu estabelecimento comercial, ao atravessar da rua.
A edificação foi tomando corpo dia após dia, com muitas faltas ao serviço dos serventes nativos, sem contudo haver grandes questões técnicas por resolver, diga-se, ressalvando-se uma anomalia grave, entretanto detectada e ordenada a sua correcção imediata pelo Administrador do Concelho de Gago Coutinho, pelo facto de termos utilizado ferro de 6 mm numa viga (imagine-se a segurança ? quando era suposto ser de 10 mm), que foi ultrapassada de imediato e que de facto veio pôr à prova os parcos e deficientes conhecimentos que, sobre a matéria, o encarregado da obra tinha - eu próprio, claro - mas que, a partir daí, outras situações jamais aconteceram, muito à custa de uma amizade feita com um construtor continental que ao lado supervisionava outra construção. Dava-me umas dicas quando necessárias, a "troco" de uns maços de tabaco da marca Coimbra - a 2$50 cada um - salpicados aqui e ali com umas garrafas de Martini, suponho que também a 2$50 cada uma.
E assim lá conseguimos chegar ao fim da obra para satisfação nossa e regalo do seu proprietário que muito enalteceu a sua qualidade, rapidez e o aspecto visual da mesma, face ao colorido garrido que a mesma ostentava; branco e azul com duas faixas no rodapé de vermelho e verde, cores muito ao gosto dos negros em geral.
Durante esse espaço de tempo que mediou a dita construção, conhecemos muita gente da Vila de Gago Coutinho, de entre ela, destaque para a esbelta filha do Governador - demasiado bonita para o meio e para as nossas cabeças- ...
Éramos entretanto sistemáticamente convidados pela população local para, aos fins de semana, participarmos nos seus batuques, cheios de música, colorido, animação, muito concorridos, com muita bebida nas gargantas e exorcismos próprios das suas crenças e etnias.
Da mesma forma mantivémos uma relação próxima e amiga com todos os nativos que trabalhavam connosco na obra. Isto originou que, inevitávelmente, aprendêssemos muitos dos vocábulos do dialecto que lá se falava, além de canções que aprendemos, cantando-as com eles nas suas farras. Uma delas, por ser muito simples, bonita e cheia de polifonia, chamava-se, Sóle, Sóle Lumetá que, invariavelmente, era cantada nas mais diversas circunstâncias, mesmo à entrada de um qualquer kimbo...
No fim daquela missão em Gago Coutinho, quase que dominávamos o dialecto, a tal ponto que falávamo-lo com grande à-vontade, sempre que a ocasião se proporcionava, muitas vezes mesmo na obra com os pedreiros e serventes oriundos da zona.
Certo dia um dos pedreiros, negro - o Sr. Humberto - pessoa de certa idade, calmo, muito educado, bom trabalhador e bom executante, saltou da sua "kinga" (bicicleta) cumprimentou-me de manhã com o seu habitual sorriso, "moio, gungungo?" (bom dia, estás bom?) acrescentando de seguida mais ou menos isto ; de hoje em diante vou passar a chamar-lhe Soba Capúle!
Fiquei atónito sem perceber o significado daquelas palavras, até que ele me respondeu: Sabe meu Furriel, em tempos havia aqui um Soba em Gago Coutinho que era muito estimado pelo seu povo. Deixou muitas saudades. Era muito alegre e amigo das pessoas. Você é parecido com ele e por isso recebe o seu nome.
Ora essa Sr. Humberto ! Não mereço tão honrosa distinção, respondi eu. De qualquer forma agradeci, meio envergonhado de tal sortilégio, não defraudando assim a mensagem que aquele homem quis passar.
Como se não bastasse e por espanto meu, no dia seguinte, o Sr. Humberto e alguns outros trabalhadores ao chegarem à obra, já me cumprimentaram como Soba Capúle e trouxeram um barrete, umas divisas e uma machadinha. Esta tinha como objectivo substituir a espingarda; as divisas, côr de pastel, eram constituídas por duas fitas caídas do ombro uns 10 cms, uma vermelha outra amarela; o barrete, com formato de cone, fazia parte também dessa indumentária.
Fiquei sensibilizado com tal atitude e então passei a usar em Gago Coutinho esse tipo de "fardamento", claro está, longe das vistas dos "chicos militares" do Batalhão existente na Vila.
Ainda hoje conservo, no meu baú de recordações estas insígnias, resquícios do que foi em tempos, um Soba tradicional de Gago Coutinho.
Tudo isto veio a "talhe de foice" pelo artigo emanado da Angola Press, trazido ontem ao nosso Blogue pelo Carvalho, sobre a reposição da Monarquia em Gago Coutinho.
Será que esse tal Soba Capúle pertencia à etnia ou dinastia dos MBundas? Se foi, então como seu "descendente", honrei o seu nome e o seu povo.
Com um abraço

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Restaurada a Monarquia em G.Coutinho

Lumbala Nguinbo, 18 Agosto de 2008
Investido rei dos Bundas em Lumbala Nguimbo
O Rei da etnia Mbunda, Mwene Mbandu III, foi investido, este domingo, ao trono, na sede municipal dos Bundas em Lumbala Nguimbo, em cerimónia presidida pelo príncipe zambiano, Justino Frederico Katwiya.
O Rei com 58 anos de idade, licenciado em línguas e técnico superior de jornalismo, formado na República da Zâmbia, Mwene Mbandu III é herdeiro de seus ancestrais da linhagem do rei Katavola-ka-Ngambo da região dos Bundas.
O reinado ora restaurado foi interrompido na sequência do aprisionamento e deportação do seu monarca, Mwene Mbunda, para lugar incerto, pelas forças políticas portuguesas, em 1974.
Durante o reinado Bunda, que coincidiu com a vigência do período da dominação colonial, 1914 a 1974, Mwene Kazungo Xande foi sempre o rei de todos os sobas da tribo Mbunda.
Hierarquicamente Mwene Kazungo Xande era reconhecido e respeitado como chefe supremo e herdeiro da coroa Mbunda, tendo sob sua jurisdição vinte e três sobas, localizados nos municípios dos Bundas e na Zâmbia.
Segundo o administrador municipal dos Bundas, Julho Augusto Kuando, a coroação do rei Mbandu III é resultado de um profundo trabalho com espírito de equipa de pessoas com rica idoneidade que descobriram o local onde estava o reino desalojado e desvirtuado pelo poder da ocupação estrangeira.
O administrador municipal justificou que antes era impossível realizar este acto, devido ao conflito armado e que foi consumado agora com a conquista da paz no país.
O administrador elogiou o governo angolano, tendo acrescentado que depois da conquista da paz este tem sabido valorizar o papel das autoridades tradicionais, bem como reconhecer a cultura do seu povo de “Cabinda ao Cunene” e “do mar ao leste”.
Ao recordar que a autoridade tradicional é uma figura de estima e respeito do povo de uma determinada área de jurisdição, disse que ela é igualmente o elo de ligação entre o governo, sociedade e vice-versa. Agradeceu, por outro lado, os esforços do Governo Central e Provincial na busca de soluções para a melhoria e aumento das condições sociais, económicas e culturais das populações do município dos Bundas. Assistiram à cerimónia de coroação e tomada de posse do Rei Mbandu III o Vice -Ministro da Administração Território, Garciano Domingos, o Governador da Província do Moxico, João Ernesto dos Santos “Liberdade”, Embaixador Angolano acreditado na Zâmbia, Pedro Neto, autoridades tradicionais, entidades religiosas e convidados.
Notícia AngolaPress

domingo, 17 de agosto de 2008

Romance, Realidade ou Ficção?

Episódios do romance «Os CUS DE JUDAS » do Escritor Lobo Antunes publicado pela editora Don Quixote em 1979 sobre a sua vivência nas Terras do Fim do Mundo, no sub-sector de Gago Coutinho, nas comunas de Ninda e Chiúme integrado na Cart.3313 do Batalhão de Artilharia 3835 como Militar e Médico, entre Dezembro de 1970 e Janeiro de 1972, rodando depois para Malange onde findou a sua comissão de serviço em Angola.


Outro vodka? É verdade que não acabei o meu mas neste passo da minha narrativa perturbo-me invariavelmente, que quer, foi á seis anos e perturbo-me ainda: descíamos do Luso para as Terras do Fim do Mundo, em coluna, por picadas de areia, Locusse, Luanguinga, as companhias independentes que protegiam a construção da estrada, o deserto uniforme e feio do Leste, quimbos cercados de arame farpado em torno dos pré-fabricados dos quartéis, o silêncio de cemitério dos refeitórios, casernas de zinco a apodrecer devagar, descíamos para as Terras do Fim do Mundo, a dois mil quilómetros de Luanda, Janeiro acabava, chovia, sentado na cabine da camioneta, ao lado do condutor, e de boné nos olhos, o vibrar de um cigarro infinito na mão iniciei a dolorosa aprendizagem da agonia....pág 43

Gago Coutinho, a quatrocentos quilómetros ao sul do Luso e junto à fronteira com a Zâmbia, era um mamilo de terra vermelha poeirenta entre duas chanas podres, um quartel, quimbos chefiados por sobas que o Governo Português obrigava a fantasias carnavalescas de estrelas e fitas ridículas, o posto da PIDE, a administração, o café do Mete Lenha e a aldeia dos leprosos;...pág 45

Gago Coutinho era também o café do Mete Lenha, branco sopinha de massa cujo esforço para falar o torcia de caretas,.....pág 47

Impedidos de pescar e de caçar, sem lavras, prisioneiros do arame farpado e das esmolas de peixe seco da administração, espiados pela PIDE tiranizados pelos cipaios, os luchazes fugiam para a mata, onde o MPLA, inimigo invísivel, se escondia, obrigando-nos a uma guerra de fantasmas.... pág 48


Ninda. Os eucaliptos de Ninda nas demasiadamente grandes noites do Leste, formigantes de insectos, o ruido de maxilares sem saliva das folhas secas lá em cima, tão sem saliva como as nossas bocas tensas no escuro: o ataque começou do lado da pista de aviação, no extremo oposto à sanzala, luzes móveis acendiam-se e apagavam-se na chana num morse de sinais. A Lua enorme aclarava de vi és os pré-fabricados das casernas, os postos de sentinela protegidos por sacos de areia e toros de madeira, o rectângulo de zinco do paiol; à porta do posto de socorros, estremunhado e nu, vi os soldados correrem de arma em punho na direcção do arame, e depois as vozes os gritos, os esguichos vermelhos que saíam das espingardas a disparar, e tudo aquilo, a tensão, a falta de comida decente.... O gigantesco, inacreditável absurdo da guerra, me fazia sentir na atmosfera irreal, flutuante e insólita,... pág 61

O Chiúme era o último dos Cus de Judas do Leste, o mais distante da sede do Batalhão e o mais isolado, perigoso e miserável: os soldados dormiam em tendas cónicas na areia, partilhando com os ratos a penumbra nauseabunda que a lona segregava como um fruto podre, os sargentos apinhavam-se na casa em ruína de um antigo comércio, quando antes da guerra os caçadores de crocodilos por ali passavam a caminho do rio, e eu dividia com o capitão um quarto do edifício da chefia do posto, através de cujo tecto esburacado os morcegos vinham redopiar sobre as nossas camas em espirais cambaleantes de guarda-chuvas rasgados,..... pág 83

...Lembrei-me do sorriso da minha mãe, que tão poucas vezes vi sorrir depois, e do ramo de trepadeira que todas as noites batia contra a janela, chamando-nos para misteriosas proezas de Peter Pan. E agora, encostado ao arame, sozinho, a fim de que me não vissem as lágrimas, encostado ao arame do Chiúme e assistindo ao descer do morro até à chana, e para lá da chana, à mata de morrer do Leste, à mata magra e pálida do Leste,..... pág 88

- Bonjour, mon lieutenant - Tinham arribado dias antes ao Chiúme, uma companhia inteira de negros katangueses de lenço vermelho ao pescoço, comandados por um alferes de meia-idade que se apresentou como primo de Tchombé, exprimindo-se num francês de disco Linguaphone - j´ai trés bien connu Mobutu, mon lieutenant - avisou-me ele a puxar escarro de desprezo das grutas de Altamira dos pulmões - il était caporal comptable à l´armée belge - reunidos e armados pela Pide, constítuiam uma horda indisciplinada e petulante a que a emissora da Zâmbia chamava « os assassinos a soldo dos colonialistas portugueses »; não faziam prisioneiros e regressavam da mata aos berros, com os bolsos cheios de quantas orelhas lograssem apanhar; apoderavam-se das mulheres da sanzala perante o desespero resignado do soba, cada vez mais perdido na contemplação da chana,..... pág 93

Como no Chiúme, entende, no Natal de 71, primeiro Natal de guerra após quase um ano na mata, em que acordei de manhã e pensei. É dia de Natal hoje, olhei para fora e nada mudara no quartel, as mesmas tendas, as mesmas viaturas em círculo junto ao arame, o mesmo edifício abandonado que uma granada de bazooka destruíra, os mesmos homens lentos a tropeçar na areia ou acocorados nos degraus desfeitos da messe de sargentos, coçando em silêncio a flôr-do-congo dos cotovelos como mendigos nas escadas de uma igreja. É dia de Natal hoje, vi o céu de trovoada do lado do rio kuando e a eterna segunda-feira do costume no cansaço dos gestos, o calor escorria-me das costas em grossos pingos pegajosos..... pág 136

Dias antes havia partido de coluna uma companhia de pára-quedistas, que apoiados por helicópteros sul-africanos, chegados do Quito-Quanaval para uma operação excessiva e inútil na terra dos Luchases, e todas as noites os pilotos, enormes, loiros, arrogantes, se embebedavam com estrépido quebrando copos e garrafas e desafinando canções em afrikander, ..... pág 137

A impertinência brutal dos sul-africanos, que nos julgavam um pouco uma espécie de mulatos toleráveis.... Os politicos de Lisboa surgiam-me como fantoches criminosos ou imbecis defendendo interesses que não eram os meus..... Sabiam bem que eles e os filhos deles não combatiam, sabiam bem de onde vinham quem na mata apodrecia, tinha morto e visto morrer para que o pesadelo se prolongasse muitos anos, os fuzileiros haviam desfilado uma noite pelo Quartel-General do Luso entoando insultos, todas as tardes ouvíamos a emissão do MPLA às escondidas, ..... Demasiados estropiados coxeavam ao fim da tarde por Lisboa, nas imediações do anexo do Hospital Militar, e cada coto era um grito de revolta contra o incrível absurdo das balas..... pág 138

Mais tarde conhecemos a hostilidade dos brancos de Angola, dos fazendeiros e dos industriais de Angola reclusos nas suas vivendas gigantescas repletas de antiguidades falsas..... Se vocês cá não estivessem limpávamos isto de pretos num instante. Cabrões, pensava eu.... pág 139

As Terras do Fim do Mundo eram a extrema solidão e a extrema miséria, governadas por chefes de posto alcoólicos e cúpidos a tiritarem de paludismo nas suas casas vazias, reinando sobre um povo conformado, sentado à porta das cubatas numa indiferença vegetal.... E, no entanto, havia a quase imaterial beleza dos eucaliptos de Ninda ou de Sessa, aprisionando nos seus ramos uma densa noite perpétua, a raivosa majestade da floresta do Chalala a resistir ás bombas,.... pág148

O Leste? Ainda lá estou de certo modo, sentado ao lado do condutor numa das viaturas da coluna, a pular pelas picadas de areia a caminho de Malange, Ninda, Mucoio, Luate, Luce, Nengo, rios que a chuva engrossava sob as pontes de pau, aldeias de leprosos, a terra vermelha de Gago Coutinho que se prende à pele e aos cabelos..... Os agentes da PIDE no café do Mete-Lenha, lançando soslaios foscos de ódio para negros que bebiam nas mesas próximas as cervejas tímidas do medo. Quem veio aqui não consegue voltar o mesmo, .... Quando se amputou a coxa gangrenada ao guerrilheiro do MPLA apanhado no Mussuma os soldados tiraram retrato com ela num orgulho de troféu, a guerra tornou-nos bichos, percebe, bichos cruéis e estúpidos ensinados a matar..... pág 152

Nós não éramos cães raivosos quando chegámos aqui, disse eu ao Tenente que rodopiava de indignação furiosa, não éramos cães raivosos antes das cartas censuradas, dos ataques, das emboscadas, das minas, da falta de comida, de tabaco, de refrigerantes, de fósforos, de água, de caixões, antes de uma berliet valer mais do que um homem e antes de um homem valer apenas uma notícia de três linhas no jornal. Faleceu em combate na província de Angola, .... pág 153

Aos sábados de manhã, os velhos reuniam-se ao centro da sanzala em torno de uma cabaça de tabaco e soltavam, pelo nariz e pela boca, fumos castanhos e serenos como as locomotivas antigas, com ódio pelo ocupante escrito em grandes letras vermelhas na sua indiferença vegetal. Eram os velhos do Nengo, do Luce, do Luate, os velhos de Sessa e do Mussuma, os velhos de Luanguinga e do Lucusse, os velhos de Nerriquinha, os velhos do Chalala, os velhos e orgulhosos luchazes, senhores das Terras do Fim do Mundo, vindos há muitos séculos da Etiópia em migrações sucessivas, que tinham espulso os hotentotes, os Kamessekeles, os povos que habitavam aquele país de areia e noites frias.... Velhos livres tornados reles escravos do arame pelos canhangulos dos milícias, pelos rostos triangulares e furiosos dos pides, pelo rancor do Estado Colonial que os tratava como a uma raça ignóbil, e que cuspiam no chão escuro a saliva fumegante do tabaco, em escarros pesados de desprezo...... O Comandante encolhia os ombros no seu gabinete blindado, escravo ele também do arame e dos orgulhosos e desumanos donos da guerra que em Luanda, cravando pontos coloridos nos seus mapas, um a um nos matavam.... pág182

Frases soltas extraídas do Romance « OS CUS DE JUDAS »