o0o A Companhia de Artilharia 3514 voou para Angola no dia 2 de Abril de 1972 (Domingo de Páscoa) num Boeing 707 dos Tams e regressou no dia 23 de Julho de 1974, após 842 dias na ZML de Angola, no subsector de Gago Coutinho, Provincia do Moxico o0o Rendemos a CCAÇ.3370 em Luanguinga em 11 de Abril de 1972 e fomos rendidos pela CCAÇ.4246 na Colina do Nengo em Junho de 1974. Estivemos adidos ao BCav3862 e depois ao BArt6320 oOo O Efectivo da Companhia era composto por 172 Homens «125 Continentais, 43 Cabo-Verdianos e 4 Açorianos» oOo

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Revivendo...

Caros Amigos:
Dirão que estou a tornar-me maçador, querendo impor a minha presença, mas não me importo, porquanto isso não corresponde à verdade e, se assim pensarem, tanto pior para vocês, pois será que então se arriscarão a ter que aturar um "Diário" que, certamente, não será o de Anne Frank... Bem! Não façam caso, pois estou a brincar!... Mas enfim, o que é que querem? O que fazer não é muito e, para ocupar tempo, não achei melhor do que isto!... Mas, por favor, não levem a mal a situação!
Como disse acima, de facto, os meus afazeres são poucos e, lá de vez em quando, vou vasculhar os álbuns e caixas de sapatos cheias de velhas fotos, vou recordando ou revivendo horas passadas há muito tempo, mas que sempre mexem com a gente e nos deixam com vontade de compartilhar com alguém que compreenda o que nós sentimos ao revivermos os factos que elas documentam.
É o que sucede com o documento que ilustra esta mensagem e que envolvem a minha pessoa, além do Furriéis: Enfº. Marques, Cardoso da Silva e Diogo, no Depósito de Géneros do Nengo, numa qualquer comemoração da qual já nem me lembro qual tenha sido! Minha não foi e, portanto terá sido de qualquer um dos outros figurantes. Mas para o caso, isso agora não interessa. O que tem interesse é, de facto, demonstrar que aquela convivência, documentada por esta e por outras mais imagens patentes neste "blog", não passou em vão, deixando marcas que ficarão permanentemente gravadas para nós e para as gerações vindouras.
Entretanto, nós vamos relembrando e, como diz o título: Revivendo...
Por agora já chega e não quero "chatear-vos" mais com as minhas "parlengas"!...
Cordiais saudações para todos quantos "espionarem" o "blog", pedindo-lhes que se atirem para a arena!
Para os colaboradores efectivos, um abraço do amigo,
Botelho
P.S. O amigo Soares anda um tanto ou quanto arredio pois pouco se tem manifestado. A propósito gostaria de ter o seu endereço electrónico para comunicar pessoalmente com ele.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Memórias


Caros amigos:
Cá estou de novo, trazendo uma nova contribuição para as "memórias" da Cart 3514 "Panteras Negras", relembrando com esta imagem uma das comemorações que, períodicamente ocorriam, para, felizmente, quebrarem a monotonia da convivência colectiva naquele ambiente onde as alegrias não eram muitas!... Enfim, lá se recorria à "muleta" à qual estou agarrado, em companhia do "Dr. Marques" e do "Vaguemestre Diogo", que pelos vistos e apesar de tudo, aparentam estar bem animados, eu incluído!... Não me lembra exactamente qual a comemoração que se fazia, pois, na verdade, o tempo decorrido já é muito, mas se não estou em erro, estamos no quarto dos furrieis que ficava no extremo esquerdo do "bidonville" do Comando e dado eu estar de garrafa em punho, dá indicações quase precisas de que a causa da "borga" teria sido o meu aniversário no ano de 1973 (31/Dez/73), no Nengo.
Já lá vão decorridos quase 35 anos, o que é muito tempo!...
Disto tudo o que resta? Saudade, nostalgia, recordações da camaradagem que se compartilhava com todos, como se fossemos uma família.
Não vou alongar-me mais e vou acabar, por agora, enviando cordiais saudações a todos vós e também para os dois companheiros daquela "borga"
Cumprimentos do amigo Botelho

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Comunicado dos Companheiros do site Ultramar.terraweb.biz

À terceira vez, percebemos o "recado"!
Comunicado único
Caros Antigos Combatentes, Companheiros, Camaradas e Amigos.
Iniciámos este projecto em Março de 2006, com a intenção de criarmos um elo de ligação entre todos aqueles que estiveram na Guerra do Ultramar e, após aquele conflito, se dispersaram pelos cinco cantos do mundo.
De alguma forma, modéstia à parte, o site http://ultramar.terraweb.biz/index01.htm conseguiu "juntar" muitos antigos camaradas, por interpostas pessoas, filhos ou netos de antigos combatentes que há muito anos não se viam ou falavam, através desta fabulosa ferramenta de informática, que é a internet e também, passou a ser um veículo de informação do que aconteceu e do que está acontecer.
Talvez aquela informação seja uma incomodidade, mas trata-se da verdade nua e crua, por isso
quando se incomoda ... ... ..., o incomodo torna-se um alvo a abater, por essa razão depusemos as "armas", não por um de acto de cobardia, mas para salvaguarda de coisas e bens envolvidos.
O site http://ultramar.terraweb.biz/index01.htm manter-se-á online sem qualquer actualização a partir desta data. Ficará como uma referência ou "memorial", como lhe queiramos chamar, a todos os Combatentes da Guerra do Ultramar e aos ex- Militares que estiveram nas restantes ex- províncias ultramarinas.
Um BEM-HAJA a todos aqueles que colaboraram com as suas informações, as suas imagens e tudo o demais que enriqueceu o nosso e vosso site. O nosso OBRIGADO!
O fórum http://ultramar.forumeiros.com/ manter-se-á receptivo a toda a matéria relacionada com anúncios de "Procura de Camaradas", "Encontros Convívios" e "Notícias", para tanto, é necessário efectuar-se um registo, que será solicitado quando clicar em "Registrar-se", existente no endereço supra mencionado, para que o futuro membro possa então inserir o que pretende.
23 de Novembro de 2008
A equipa do Terraweb
Entrar no site não actualizado

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

O Padeiro

Creio que muitos camaradas viram, e ouviram, à uns meses o nosso famoso Paco Bandeira contar com emoção a história do Elvis, algures no Norte de Angola. Ao ouvi-la fiquei emocionado, veio-me à memória a história de um camarada do Batalhão cuja especialidade era Padeiro, mas como não sabia fazer pão, o Comandante castigou-o e destacou-o para a Linha da Frente. Estava a nossa Companhia destacada no Mussuma, quando um dia suou o alarme, precisavam de Voluntários para ir prestar socorro aos camaradas do Batalhão que tinham accionado uma mina anti-carro com uma Berliett, na antiga picada entre o Nengo e Ninda e não havia héli para fazer a evacuação dos feridos. Num instante juntou-se pessoal suficiente para ir prestar auxilio e socorrer os feridos,o Condutor com uma perna partida, e outro com escoriações ligeiras. Lembro-me que um dos Furriéis que comandava a nossa coluna nos ordenou, ninguém abandona a viatura, a nossa missão é socorrer os feridos e arrancar o mais depressa possivél para Gago Coutinho "depressa é relativo,lembro-me que em alguns troços do itinerário a viatura só andava com tracção ás quatro rodas por causa da areia". Enquanto carregavam os feridos, o Padeiro e outros queixavam-se que não tinham munições suficientes para seguirem em frente para Ninda, ia ser bonito, estavam todos acagaçados. Um camarada nosso tinha um Dilagrama, e ofereceu-o a um deles, que ao aproximar-se da nossa viatura para o receber, accionou uma mina anti-pessoal na berma da picada, foi sacudido violentamente, e com ele o Padeiro que estava logo atrás. No meio do estrondo, da poeirada e fumo, o Padeiro gritava desesperado agarrado aos olhos, "Ai a Minha Mãe está a chamar" Transportámos cinco feridos, mas há uma imagem, de muitas que não consigo apagar da minha memória! Eram as pernas daquele jovem ,com pregos e pedaços de metal uma lástima, o Padeiro de olhos feridos, rosto a sangrar, pensamos o pior, está cego, chegados à sede do Batalhão, foram tratados e alguns evacuados. Meses depois voltei a ver o Padeiro felizmente já restabelecido, os estilhaços não lhe afectaram a vista...! Safei-me dizia ele todo contente, ainda não foi desta, viva o Padeiro respondi eu. Quando o Batalhão se mudou para a Praia como se dizia no Leste, soubemos que uma viatura da coluna tinha capotado à saida da ponte entre o Lutembo e a Casa Branca, na zona do Luio, e ouve Mortes entre eles o PADEIRO....!Até sempre.
César Correia

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

No Quimbo das Transmissões

De César Correia

Imagem captada no Quimbo das Transmissões, numa qualquer comemoração, talvez o aniversário de um de nós, deduzo eu, pois em cima da mesa em primeiro plano há duas garrafas de espumante, e uma botelha de whisky e muita alegria estampada no rosto de todos. Vamos mencionar a equipa para a posteridade em baixo: Victor Dinis, Oliveira, Monteiro e Tavares das trms. Ao meio: Resende, Correia, Careca, Rego, fur. Medeiros, Neves, Vieira do dep. géneros, Vilaça, Cruz e Ruivo. Em cima: Martins e o sr. Milo, em mais um dos muitos momentos de festa, que era apanágio desta excelente rapaziada, que tivemos o prazer de conhecer e conviver, durante tanto tempo.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Outros Blogs do Leste

Para quem esteve no Leste de Angola, não deixe de visitar os bloges em anexo, e arquivá-los na pasta dos seus favoritos, actualização diária de informação sobre os ex-combatentes, sobre África da era colonial e muito mais. http://groups.msn.com/Osluenas/provnciasdeangola.msnw , http://www.lestedeangola.weblog.com.pt/ , http://www.lumege.blogspot.com/ , http://ultramar.terraweb.biz/

Futebol nos trópicos

Caros amigos Carvalho e Soares:
Cordiais saudações para vocês e para quem, porventura, tiver acesso a esta msg. Acredito que, talvez, muitas pessoas mais, tenham acesso a este "blog", sem, no entanto, darem a entender a sua "espionagem". Seria bem melhor que se manifestassem e dessem também o seu contributo para estas memórias que perdurarão através dos tempos e das gerações futuras.
Tenho apreciado muito o interesse do Carvalho em seguir a evolução progressiva dos Bundas e da sua sede distrital e municipal, com as notícias fidedignas com que nos tem presenteado.
Quanto às fotos que ilustram os últimos capítulos deste "blog", nomeadamente a da gunga monstruosa, a do Boletim de vencimentos do C.Correia e a dos jogadores de futebol (meu Deus!... Quantas recordações, de ocorrências passadas com alguns dos seus figurantes!... Embora nostálgicas, são agradáveis de relembrar.
Não quero alongar-me mais, pois a hora já vai avançada e tenho que ir tratar a minha "diabetes" que já está a dar sinal!...
Um grande abraço para cada um de vós, do amigo
Botelho

DATA l8/NOV/008

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

2º Pelotão (imagens)

De César Correia

Na foto em cima: fur. Ramalhosa, Ramos, Fonseca, Resende, Ribeiro, Isidro e Silveira. Em baixo: enf.Rodrigues, Borges, Ruivo, Neves, fur. Soares, Vilaça, Cabo Maik, Correia e ao centro o alf. Brás.
Retrato duma tarde de futebol no destacamento da latriteira do Mussuma, onde o 2º pelotão esteve algum tempo, na protecção à Tecnil, acabaram por construíram um pequeno rectângulo, com duas balizas meio marrecas num descampado adjacente, onde passavam os tempos livres, a correr atrás da bola, para entreter e manter o físico e a mente em ordem, como testemunha a imagem em anexo.

Documentos D´outrora (3)

De César Correia

Boletim de Vencimento
Recibo do 1º vencimento em campanha na RM-Angola no mês de Abril de 72, do espólio histórico do camarada César Correia, no valor de 1.642$00, esta verba vinha acrescida do prémio de embarque ou coisa parecida, pois o vencimento era composto, pelo base ou pré no valor de 30$00, o complementar de 690$00, a subvenção em campanha de 144$00 o que perfazia um total de 864$00, o equivalente a 4 euros e 30 cêntimos na moeda actual, uma fortuna de nada, para tanto sacrifício ao longo de dois anos e tal, ensinaram-nos a perdoar, mas jamais iremos esquecer.
Um abraço

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Estórias de caça (2)

Foto cedida pelo nosso camarada do 1º grupo, ex-Alferes Mil. Manuel Araújo Rodrigues.
Na imagem uma Gunga macho (o maior antílope de África) carregado num Unimog 404, em frente ao kimbo dos metralhas, com os camaradas: Carmo no volante , Gonçalves, Pimenta, Guerreiro e o Careca de tacho na mão a caminho do rio para lhe despirem a pele.

Destacamento do Nengo - Quem porventura visita o nosso blog, há-de pensar que afinal a nossa comissão não passou de uma aventura tipo safari, não foi de facto assim, tivemos que nos adaptar ás circunstâncias e aproveitar o que de bom e útil encontrávamos no terreno, como devem calcular, à trinta e tal anos as condições logísticas não eram fáceis, estávamos desterrados a mais de 400 kms da capital do Moxico de onde provinham semanalmente as provisões alimentares, transportadas em colunas auto por picadas muitas vezes intransitáveis, devido ás chuvas, lama, areia, avarias, imprevistos como minas e emboscadas, o mau acondicionamento e o calor muitas vezes detioravam os frescos tais como, legumes e carne, a solução para remediar era procurar caça para comer, correndo riscos, pois sair de noite numa viatura com uma dezena de homens de holofote em punho, éramos um alvo fácil, facilmente passávamos de caçadores a presas.
Mas esta Gunga macho com 1 tonelada de peso, foi abatida pela manhã (Todas as gungas que caçámos fora abatidas á luz do dia) quando atravessava a picada, pelo nosso pessoal que se deslocava para a sede da companhia no Nengo, onde se vinham abastecer todos os dias de mantimentos, eram cerca de dez homens, e o caricato da situação é que não conseguiram carregá-la para cima da berliett de forma alguma, tendo recorrido ao cabo do guincho da viatura, para a rebocar por arrasto picada fora durante vários kms até ao Nengo.
Gostaria muito de citar aqui os camaradas que abateram este troféu mas não me recordo, foi á muito tempo. O camarada Diogo o nosso vague-mestre da companhia, é que ficava sempre contente com o depósito de géneros a abarrotar com tanta carne...!
Adeus até ao meu regresso

Gago Coutinho - Rei encoraja o Governo Angolano

Lumbala Nguimbo 14-11-2008
Mbandu III encoraja governo a investir em programas sócio económicos. O Rei Mwene Mbandu III, do grupo etno-linguístico Mbunda, louvou e encorajou hoje, no Lumbala Nguimbo, o governo angolano a continuar a investir nos programas de impacto sócio-económico, para o rápido desenvolvimento do país. Falando à Angop, o Rei sustentou que as vias de comunicação, educação, saúde e agricultura constituem factores importantes para o progresso de um país e a melhoria do nível de vida da população. Na sua opinião, “o desenvolvimento de um país vê-se pela educação do seu povo, circulação e atendimento hospitalar”. Segundo Ele, o empenho do governo nos últimos seis anos está a motivar muitos angolanos na diáspora a regressarem ao país. O reinado de Mwene Mbandu III, de 58 anos, investido no trono a 16 de Agosto do ano corrente, se estende até regiões da Zâmbia, Namíbia, Zimbabwe e Bostwana, países onde se encontra o grupo etno-linguístico Mbunda.
noticia AngolaPress

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Centro Infantil em Gago Coutinho

Lumbala Nguimbo 12-11-2008
Crianças ganham centro infantil.
As crianças da sede municipal dos Bundas (Lumbala-Nguimbo) ganharam hoje (quarta-feira), um centro infantil inaugurado pelo Governador da província, João Ernesto dos Santos “Liberdade”, no âmbito das festividades do Dia da Independência Nacional. Com capacidade para 128 crianças até aos cinco anos de idade, o centro, afecto à área municipal de assistência e reinserção social, comporta quatro salas de aulas, uma biblioteca infantil, um refeitório e uma sala de recreação. A construção do complexo infantil visa promover e estimular a educação pré-escolar, aprendizagem da língua e do estudo do meio, bem como administrar os cuidados básicos da saúde e higiene pessoal e colectivo. Para assegurar a permanência das crianças, o centro tem um suplemento alimentar de três refeições diárias e as aulas pré-escolares serão administradas por uma educadora social coadjuvada por oito vigilantes. Ainda íntegra o complexo uma sala de alfaiataria, onde serão administrados cursos de corte, costura e decorações, para os jovens interessados. Bundas é um dos nove municípios que constitui a província do Moxico e que dista 356 quilómetros a sul do Luena, com uma população estimada em mais de 30 mil habitantes. Tem como actividades principais a agricultura e a caça.
noticia AngolaPress

Novos Agricultores em Gago Coutinho

Lumbala Nguimbo 12-11-2008
Desmobilizados beneficiam de kits agrícolas.
Vinte desmobilizados das ex-forças militares da Unita, residentes na vila de Lumbala-Nguimbo (Moxico), beneficiaram terça-feira última de kits de material agrícola, entregues pela direcção provincial do Instituto de Reinserção Social dos ex-militares (IRSEM).
O chefe provincial do IRSEM, José Bernardo Saviqueia, disse que os meios entregues visam suprir as dificuldades que os assistidos enfrentam na implementação de pequenos projectos agrícolas na região.
Para João Manuel, um dos beneficiados, os instrumentos agrícolas chegaram no momento oportuno, por se tratar da época em que os camponeses começam a lançar sementes à terra.
Fernando Dias, outro beneficiado, louvou o gesto do governo, que tem sabido resolver os problemas que afectam os ex-militares, em particular os do município dos Bundas.
Disse ainda que, com os meios recebidos, fará uma campanha agrícola exemplar, diferente dos outros anos, em que produziu pouco por insuficiência de meios agrícolas.
Os kits comportam enxadas, catanas, serrotes, ancinhos, entre outros materiais agrícolas.
noticia AngolaPress

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Gago Coutinho - Comemoração da Independência Nacional

Lumbala Nguimbo, 11 Novembro 2008
O governador da província do Moxico, João Ernesto dos Santos “Liberdade”, destacou hoje, terça-feira, a importância da Independência Nacional, como a maior vitória alcançada pelo povo angolano, depois de longos anos de luta contra o regime colonial português.
Falando no acto central provincial alusivo à comemoração dos 33 anos da Independência Nacional, o governante enalteceu os sacrifícios dos angolanos na luta pela dignidade e identidade nacional. Apelou ao maior engajamento da população na reconstrução do país e enalteceu os feitos do País, no que concerne a construção e reconstrução de infra-estruturas sociais, económicas e administrativas, que visam melhorar a qualidade de vida das populações naquela localidade e não só.
Durante o comício, João Ernesto dos Santos frisou que a paz, alcançada em 2002, é um outro factor importante para o desenvolvimento de Angola.
Assistiram ao acto membros do governo provincial do Moxico, do conselho consultivo das Forças Armadas Angolanas (FAA) e Polícia Nacional, entidades tradicionais, representantes dos partidos políticos, entre outras entidades.
noticia AngolaPress

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

S. Martinho no Nengo

Nengo 11 Novembro de 1973
Faz amanhã 35 anos que celebrámos o S. Martinho com este magusto na messe dos sargentos, as castanhas foram "oferecidas" pelo nosso camarada de intendência Carlos Alberto Diogo, o barista Inocêncio Carreira o trabalho de as assar e nós o prazer de as saborear.
Diz a tradição, (no S. Martinho vai à adega e prova o vinho), de facto não provámos o vinho novo nem tão pouco a água-pé, tivemos que acompanhar com cerveja e vinho verde, que acabaram por cumprir na falta do néctar tradicional.
Ao olhar as imagens em anexo, recordo com "nostalgia" esses momentos de grande amizade e empatia que criámos outrora em pleno sertão Africano e nos dias de hoje, tentamos recriar com algum ênfase nas páginas do nosso blog.

Antes do magusto: Á esquerda os camaradas, Parreirinha, o jovem Botelho, Manuel Parreira, Pereirinha, Duarte e Marques. À direita, Soares, Carvalho, Diogo, Barros e Monteiro.

A meio um fadinho para animar o ambiente: Á esquerda, Parreira e o Pereirinha cantando o fado. À direita Soares, Carvalho, Diogo, Barros e Monteiro

No final já bem animados: O Liberto, Pereirinha, Duarte, Marques, e Carvalho, acompanhando o Manel Parreira numa "moenga" do seu Alentejo, que ele cantava sempre que aquecia um pouco, vamos lá .....(Alentejo quando canta, encostado à solidão, trás a alma na garganta, e o sonho no coração,....agora todos.... Eu vi um passarinho, ás 4 da madrugada, cantando lindas cantigas, á porta da sua amada...) Os metralhas eram quase todos oriundos do Alentejo e do Algarve, excepto o chefe da quadrilha, e então nestes momentos de alegria, exaltavam as suas saudades, através deste hino ao seu querido Alentejo, que quase todos nós aprendemos a trautear com eles.

domingo, 9 de novembro de 2008

Comemorações em G. Coutinho

Lumbala Nguimbo
Uma campanha de limpeza e de embelezamento das principais ruas da cidade do Luena (Moxico) está a ser promovida hoje (domingo) pelo Conselho Provincial da Juventude, no âmbito das festividades do 33º aniversário da independência de Angola, a ser assinalado a 11 de Novembro.
Em declarações a imprensa, o presidente do conselho, Alexandre Paulino Bumba, garantiu que campanhas de limpeza e embelezamento serão promovidas até Dezembro, de modo a manter a higiene da cidade.
No âmbito das comemorações do 11 de Novembro, jovens de agremiações políticas e religiosas mostraram-se satisfeitos com a construção, pelo Governo, do Instituto Médio de Administração e Gestão do Moxico.
O acto central provincial dos 33 anos da Independência Nacional terá lugar na sede municipal dos Bundas (Lumbala – Nguimbo), a 356 quilómetros a sul do Luena.
noticia AngolaPress

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Agricultura em Gago Coutinho

Lumbala Nguimbo 01-11-2008
Camponeses dos Bundas satisfeitos com oferta de imputs
Luena – Os camponeses do município dos Bundas (Moxico) manifestaram-se sexta-feira última, em Lumbala – Nguimbo, satisfeitos com a distribuição de imputs agrícolas, da Direcção da Agricultura e Desenvolvimento Rural (MINADER).
Os meios entregues pelo director provincial do Minader, António da Silva, no acto da abertura da presente campanha agrícola, vão contribuir para o desenvolvimento da actividade agrícola na região. Realçou que estes instrumentos de trabalho vão também aumentar a possibilidade de produzir alimentos para a comercialização e para o consumo familiar.
Domingos Loloji camponês de profissão disse que o apoio vai aumentar o interesse da população envolver-se no processo de produção.
Ao elogiar o gesto do governo, pediu mais apoio em instrumentos e sementes agrícolas, bem como a assistência técnica, para permitir uma colheita satisfatória.
Por seu turno, Cachimbi Namana frisou que a estratégia do governo ajudar a população com imputs agrícolas vai permitir combater a fome e a pobreza que assola as comunidades rurais.
Apelou ao governo, meios de transporte para apoiar os agricultores organizados em cooperativas, no escoamento dos produtos do campo para cidade e vice-versa.
noticia AngolaPress

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

MEMÓRIAS

Caros amigos:
Cumprimento e apresento cordiais saudações a todos os elementos da Cart 3514, mas em especial aos amigos Carvalho e Soares e tenho a dizer-lhes que, apesar de se lamentarem por falta de comunicação de mais elementos da nossa Cart, verifico, pela frequência actual de comentadores, não têm muitas razões para aquelas queixas.
Na mais recente colaboração, efectuada em 2 do corrente pelo César Correia, revela-se que este tem um excepcional dom de descrição dos acontecimentos e um estilo literário bastante agradável. Deste ex-militar, tenho apenas memória visual, pois na verdade, pouca convivência tive com ele, no meu dia-a-dia
Recuando até 28 de Outubro, encontro um comentário do inesquecível Arlindo Sousa!... Estou a vê-lo, com o seu copinho ao lado, agarrado aos “circuitos impressos”, ao ferrinho de soldar e aos “kits” de rádio, a fazer as suas montagens de um aparelho de TSF, de um qualquer curso de radio montador, mas não me lembro de qual.
Num relance de olhos pelas colaborações, encontro uma do amigo António Soares, com data de 18 de Outubro. Deste camarada tenho muitas memórias, pois convivemos mais de perto… Estou a recordar-me e com muita saudade dos ensaios de cânticos de Natal, aos quais aderi de alma e coração, pois que desde muito novo fui arrastado para conjuntos corais e fiquei “viciado”. Também estou a vê-lo atarefado nas obras dos acampamentos: A “messe” dos of. e sargentos, os quartos dos Fur., dos Sargentos, a Secretaria e os quartos de Of., o Dep.de Géneros, o Refeitório, a padaria, etc., etc…. A ele ficámos a dever o conforto que nos proporcionou a todos… A ele, um muito obrigado que, embora tardio, é a expressão real da minha gratidão e da dos restantes elementos que compuseram a nossa CArt.
Li algures num comentário a este “blog” que tínhamos sido abençoados por não termos sido muito “atingidos” pelo flagelo das baixas em serviço. Tivemos apenas duas e, mesmo essas, por lamentáveis descuidos de segurança!... Apenas a escassos dois meses de permanência na ZML, ocorre a morte do Ernesto Gomes, quando ainda estávamos em Luanguinga e depois, quando ainda estava a sede da CArt em Gago Coutinho e, portanto, antes de termos ido para o Nengo, morre, num “estúpido acidente” (cito alguém que o disse também neste blogue) o Joaquim Ricardo. Também tenho a mesma opinião e a comprovar que assim é e foi, aqui em anexo uma imagem que, se não houvessem sido tomadas certas precauções, haveriam a lamentar muitos mais do que apenas aqueles dois. Deste acidente, apenas resultaram, que me lembre, pequenos traumas e ligeiros ferimentos tratados no Posto de Socorros da CArt, com mercúrio-cromo e pouco mais. No entanto curvo-me, respeitosamente, perante a memória dos mortos
Despeço-me, até à próxima colaboração com um abraço para todos.
Octávio Botelho


Accionamemto duma mina anti-carro por uma berliett da Cart3514 em Agosto de 1973 na picada entre o Nengo e Ninda, apenas alguns feridos ligeiros e danos materiais, na imagem o Coutinho e o Parreira algo aprensivos pelo sucedido.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Documentos D´outrora (2)

Destino LUANDA

"Boarding Pass" dos TAMS distribuido a cada camarada após o checkin no Aeroporto Militar de Lisboa, com o destino, o lugar e data de embarque, aquando da nossa partida para Angola em 2 de Abril 1972 (Domingo de Páscoa) - Documento cedido por César Correia

Documentos D´outrora (1)

Relação do Efectivo
Relação dos efectivos da Cart. 3514 no RAL3 em Évora, Dezembro de 1971
(Clicar sobre o doc. para aumentar)

domingo, 2 de novembro de 2008

De César Correia (2)

César Correia
A minha primeira noite em Luanda
Como muitos camaradas sabem sou natural da zona de Viseu, nasci em Mosteirinhos, na encosta sul da serra do Caramulo, de verão calor de rachar, no inverno geada, neve e frio de cortar, mas o que mais me acagaça são as trovoadas, algum trauma de infância, não sei explicar.
Aterramos em Luanda às 8h30 em 3 Abril de 1972, saímos do Boeing 707 dos Tams e a primeira sensação foi a de entrar num forno, na pista um calor e humidade sufocante, alagados em suor a pele peganhenta, alguns camaradas com os bolsos do blusão manchados de gordura, os pacotes de manteiga e queijo surripiados ao pequeno almoço no avião começaram a derreter. Depois de recebermos a bagagem lá partimos a caminho do Grafanil, onde ficamos instalados por uns dias, antes da marcha a caminho do leste, numa das muitas casernas rudimentares de madeira cobertas com chapa ondulada, alimentados a ração de combate, por ali ficamos, não arriscando o desenfianço para Luanda a cerca de 10 kms.
Já tarde encontramos um camarada de Viseu que nos aconselhou a ir ao cinema ver um filme para nos distrairmos. A meio da fita a malta começou abandonar à pressa a esplanada ao ar livre, achamos um pouco estranho, até que um camarada, se abeirou de nós e perguntou, são maçaricos? Chegamos hoje de manhã respondemos, se estão perto do vosso sector pirem-se a correr, se não abriguem-se na pala do bar, vem aí uma carga de água car..lho..., cavamos de imediato a correr direito à caserna, mas não nos safámos, chegamos repassados que nem pintos, um porradão de água, trovões e relâmpagos que iluminavam tudo como de dia, uma coisa do outro mundo nunca visto, eu que odeio trovoadas, chorei e rezei à padroeira da minha terra (Nossa Senhora do Rosário de Fátima) que me livrasse daquele pesadelo, mas como veio assim passou, ficando no ar um cheiro acre a terra torrada, mil vezes pior que as trovoadas de Maio na minha aldeia, o tempo refrescou um pouco, mas foi coisa de pouca dura, o calor e o ar asfixiante voltaram, queria dormir, não era capaz, despi a camisa e sosseguei um pouco, de madrugada acordei com alergia , comichão no corpo, fui ao espelho parecia um Cristo, pergunta-me um camarada, tens varicela…? As melgas tinham-nos assolado com picadas, tive que recorrer à enfermaria a fim de me tratarem, pomada, umas gotas e uns comprimidos lá me aliviaram o sofrimento, mas pior ainda, aconselharam-me a não meter os beiços nas loiras da Nocal, não beber cerveja, outro pesadelo com aquele calor.
Mas nem tudo foi mau apesar do perigo em que estivemos supostamente envolvidos, eu ás vezes costumo dizer, fui um privilegiado, conheci os encantos de África, e não há palavras, fotografia ou filme que possam descrever aquela terra, os seus encantos, as suas paisagens, as suas gentes, os costumes, o pôr do sol, os cheiros, os aromas, só mesmo pisando aquela terra, poderão alguma vez sentir aquilo que atrás citei, e que jamais esquecerei.

Luanda - Campo Militar do Grafanil

Campo Militar do Grafanil - Casernas

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

De Cabo Verde

De Severo Ramos de Oliveira
Boa tarde camarada António Carvalho. É com muito prazer que informe-te da sua mensagem, eu fico muito satisfeito, quando recebo mensagem dos meus companheiros, ex-combatentes do ultramar, agradeço-lhe a sua atenção e vou fazer tudo para ajudar-te a encontrar outros companheiros aqui em Cabo verde, agradecia que me enviasse alguns nomes desses colegas teus.
Abraços
Severo de Oliveira

terça-feira, 28 de outubro de 2008

De Arlindo Machado de Sousa (EUA)

Destacamento do Lumbango 1972, Arlindo de Sousa, Dimas, Carvalho e Araújo Rodrigues
Mais Vale Tarde que Nunca .....
Olá Carvalho..tudo bem? Espero bem que sim…que te encontres bem na companhia dos teus. Eu penso em escrever mas por um motivo ou outro vai passando e …. Quando damos por nós já não são dias…são meses! Como se costuma dizer "mais vale tarde do que nunca," aqui vai um abraço e uma mensagem que se achares por bem incluir no blog …tudo bem, e podes alterar ou modificar da maneira que quiseres…não tem direito de autor!!! Um abraço!
Pedreira do Nengo 1972 - Marques, Soares, Capitão Rui Santos, Cabo António Santos Oliveira, Carvalho, Arlindo Sousa, Cardoso da Silva, Rodrigues, Duarte e Diogo
Olá Camaradas…Desde que contactei com o Carvalho e tive conhecimento deste Blog da “nossa 3514”, sempre que posso dou uma vista de olhos ao que se escreve e vou acompanhando o desfilar de recordações, o descrever de episódios, alguns que não conhecia, outros que trazem recordações e fazem lembrar alguns, quase esquecidos, nas memórias de um passado distante…mas sempre presente, de um tempo que nos marcou a todos, para o resto da nossas vidas! Lá diz o Victor Espadinha que recordar é viver…. e graças a todos vós…vivemos cada dia mais um pouco, retomando contactos perdidos, partilhando recordações, matando saudades!!!
Estou nos Estados Unidos, na Califórnia, onde tive o prazer de ser co-fundador de uma organização de ex-combatentes que desde 1990 se reúne pelo menos uma vez por ano com um programa que normalmente inclui Missa por alma dos camaradas falecidos, jantar de confraternização e convívio. Na primeira reunião na cidade de São José, o Rev. Dr Noia que celebrou a Missa e trabalhava com ex-combatentes da guerra do Vietname internados em hospitais de doentes do foro psiquiátrico, disse na homilia, entre outras coisas : antes de mais dou-vos os parabéns por terem regressado de saúde e capazes de funcionar normalmente, trabalhando e vivendo uma vida normal com as suas famílias! É verdade…estamos de parabéns! Agora ao ver estas páginas recheadas de recordações, felicito todos os que para ela contribuíram e que de certo continuarão a fazê-lo, construindo e fortalecendo esta ponte que nos reúne de novo apesar de espalhados pelos mais variados pontos do Universo, que estou certo, muitos mais lêem, embora não comentem!
Um abraço e bem hajam!
Arlindo Machado de Sousa
Ps. - Os Grandes Amigos como o Arlindo de Sousa nunca se esquecem, longe ou perto, ausentes ou não, eles fazem parte dum grupo, duma geração, duma época, da interacção que criámos em determinado momento das nossas vidas, e como tal, estarão sempre de corpo inteiro e por direito próprio, no álbum das nossas melhores recordações.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Ponte do Rio Nengo

Imagem enviada por César Correia

Imagem captada junto aos eucaliptos na ponte do rio Nengo, julgo eu, não tenho a certeza, com os camaradas, em cima: César Correia, Pimenta, Júlio Norte, Guerreiro e Liberto, em baixo: Joaquim Gonçalves (Beringel), Porfirio Gonçalves, Venâncio do Carmo e Bernardino Careca

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Chana do Rio Luce

Imagem enviada por César Correia


Imagem magnifica da ligação rodoviária entre Gago Coutinho e Ninda, atravessando a chana do rio Luce, ainda em fase de construção. Tivemos aqui dois sub-destacamentos em épocas diferentes, um em cada margem, junto à mata. Recordo-me de bons momentos aqui passados, havia muita caça ao longo desta grande chana que ladeava este pequeno rio, mas à noite as melgas eram um pesadelo. Pela manhã habitualmente iamos até à ponte dar um mergulho, era o único local com acesso ao rio, de menina a tira colo como sempre. Certo dia depois dum belo banho, regressávamos ao destacamento, e damos de caras com uma matilha de mabecos, vindo estrada abaixo, paramos indecisos com a situação, e os animais em formação cerrada continuaram a sua marcha na nossa direcção, tivemos de abrir fogo, só depois de termos abatido um deles, desarvoraram cada um para seu lado a toque de chumbo.
Mas também recordo com tristeza um fim de tarde de Agosto de1972 em que fui incumbido de vir ao Rio Luce onde estava o 2º pelotão, trasladar para G. Coutinho o corpo do nosso camarada 1º Cabo Joaquim Pedro Ricardo (Natural de Chanca - Sobral da Abelheira no concelho de Mafra) que aqui perdeu a vida num estúpido acidente.
Adeus até ao meu regresso

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Reliquias do Passado

O Pré
O César Correia fez questão de me enviar, este pequeno tesouro guardado religiosamente, à mais de trinta anos no seu baú de recordações, que não resisti em publicar, são estes pequenos nadas, que nos ajudam a lembrar as memórias do passado. Quatro notas emitidas pelo banco de Angola, o equivalente a dois ordenados mensais, que era na altura o Pré que um soldado auferia em África, qualquer coisa como oitocentos e tal escudos. Com esta massa na altura comprava-se muita cerveja, Cuca, Nocal e Eka, muito tabaco, bué de crika, até dava quase para tirar a carta de condução, só no Pica-Notas (Boite Pica-Pau) é que não comprava nada, só com camanga na algibeira.



sábado, 18 de outubro de 2008

Bravo Camarada!....

Fiquei muito sensibilizado com o escrito do César Correia. Porventura até hesitei em responder uma vez que, sendo um dos visados no seu conteúdo, pela positiva, se calhar não me ficaria bem tecer qualquer comentário.
Achei porém que a razão principal desta mensagem, ou melhor, a mensagem que ele nos dá, era de longe mais importante que o elogio pessoal recebido, que muito agradeço e retribuo pois, na verdade o César foi, por assim dizer, o meu braço direito na equipa que, com gosto liderei, para que mais conforto, segurança e bem estar, todos, directa ou indirectamente usufruíssem .
Muito trabalhador, humilde, conhecedor profundo do que fazia, amigo do seu amigo, fácilmente se relacionava com quer que seja, pois tem um coração bom e enorme que abarca toda a gente. Sempre o tive e tenho como um amigo especial e muito predilecto.
Todavia, o que quero aqui realçar, é a coragem do César. Dentro de poucos meses comemoraremos o primeiro aniversário do nosso blogue. Do inicio até agora apenas o César quis dar o seu testemunho. Cheio de emoção, de convicção, de solidariedade, de lealdade para com os camaradas com quem mais privou ou que, por qualquer outra razão, mais o marcou nessa nossa passagem conjunta pela CART 3514.
O objectivo principal deste blogue é exactamente o que o César fez; intervir, comentar, dar testemunho, recordar, manter bem viva a chama da amizade que nos entrelaçou e amarrou, de forma transversal, a todos, sem excepção, e que gostaríamos que perdurasse enquanto existissemos nesta "terra dos vivos".
Que belo exemplo o César aqui nos deixou! É caso até para lhe agradecermos pois, com esta sua iniciativa, provavelmente irá sensibilizar e incitar tantos outros camaradas a manifestarem a sua opinião ou a trazerem alguma recordação vivida, ao conhecimento de nós todos.
Desta forma o objectivo da criação deste blogue estava conseguido para satisfação de todos, em especial do seu mentor, o Carvalho.
É muito importante que se reescreva a história da nossa Companhia sob pena de perdermos para sempre todo o manancial de factos e acontecimentos, uns mais relevantes que outros, é certo, mas que marcaram de forma indelével as nossas vidas, ajudando assim a cimentar a relação fraternal que, ontem como hoje, defendemos e reclamamos.
Todos temos pois essa obrigação, uma vez que fomos nós os seus autores e actores. Personalizámos os eventos ocorridos por isso só podemos ser nós os legítimos relatores a registá-los na "Memória Colectiva" dos homens e mulheres deste país.
Bravo inesquecível amigo César Correia!...
Com um abraço

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Homenagem aos Meus Camaradas de Armas

O Orgulho de ser um Pantera Negra.
Bandeira Portuguesa ao alto na colina do Nengo onde tantos sonhos passaram, durante tantas horas, tantos dias, tantos meses e alguns anos.

César Correia junto ao mastro da bandeira no pedestal central da parada com o brasão da Cart.3514, no destacamento do Nengo, obra que ele ajudou a construir, e de que fala com muito orgulho e jamais esquecerá.
De César Pereira Correia
2º Pelotão da Cart.3514
Após findar a minha recruta fui mobilizado para Angola e colocado em Évora a fim de iniciar a minha especialidade como atirador de artilharia na Cart.3516.
No final da especialidade fui transferido para a Cart.3514 e colocado no 2º Pelotão então comandado pelo Furriel Soares na ausência do Alferes Brás, que se encontrava em Tancos na Escola Prática de Engenharia a tirar a especialidade de sapador de minas e armadilhas (Fevereiro de 72), não esquecendo os Furriéis Carrilho e Ramalhosa, assim como os restantes camaradas.
Fiz a minha apresentação nessa manhã , depois já na companhia dos meus novos camaradas fomos fazer um crosse , como habitualmente para os lados de Valverde. Logo aí comecei a perceber o lado bom e humano de uma pessoa extraordinária de seu nome António Manuel de Melo Soares, que ao ver nosso camarada 1º Cabo Joaquim Pedro Ricardo ( Faleceu de acidente em Angola no dia 23 Agosto de 1973) em dificuldade respiratória, aproximou-se e perguntou o que se passava, sou cardíaco, e perante o sofrimento espelhado no seu rosto, comentou alto o seu desagrado perante os presentes, como é possível um homem com problemas cardíacos vir à tropa.
Aconselhou-o a ficar ali, a fazer uns exercícios leves de recuperação e esperar pelo regresso dos companheiros.
Este episódio marcou-me, não era normal na tropa um superior agir desta forma tão humana. Mais tarde convivendo de muito perto com o António Soares constatei que que aquela acção tinha sido uma mera gota de água no oceano, a sua personalidade forte e cheia de qualidades, que não vou aqui enumerar, pois é do conhecimento de todos que como eu privaram ao longo desse tempo com Ele.
Não quero deixar de fazer aqui uma homenagem ao nosso saudoso 1º cabo Ricardo, pela disponibilidade e voluntariedade na ajuda desinteressada aos colegas de armas, embarcou connosco nesta aventura desconhecida com a promessa de voltar mas o destino e a sorte assim não quiseram.
Todos foram meus amigos, mas a alguns deles não vou perder a oportunidade de fazer alguns elogios, o Ruivo que fazia o seu trabalho e o dos outros sem olhar a quem, para que a sua equipa executasse o que lhe era confiado, o nosso cabo Ribeiro a quem apelidámos “o reguila” era bom moço mas com muita garganta, os cabos Silveira e Rodrigues “enfermeiro”, tantos jovens da minha idade tudo rapaziada da boa, os Cabo Verdeanos que tão bem sabiam cantar as sua coladeras e mornas em horas de saudade, jamais vou esquecer o Cardoso, Augusto, Gomes, O Pequenino Pastorinho, Nunes, Borges, Montrond o mestre que construía violinos e cavaquinhos das latas do óleo, os continentais Ramos, Resende, Vilaça, Isidro, Ribeiro, Fogeiro “transmissões”, e todos os demais merecem a minha admiração, pelo que fizeram, pela amizade, pelo companheirismo, contribuíram para amenizar a dor que nos ia na alma, num lugar de incertezas, distante de tudo e de todos aqueles que choravam silenciosamente a nossa ausência.
Parabéns Rapazes um abraço a todos e não faltem aos convívios.
César Correia e o camarada António Soares
Comentário
Recebi hoje um email, do nosso camarada César Pereira Correia e duas dezenas de fotos do seu álbum de recordações alusivas ao nosso percurso militar desde a formação da Cart3514 em Évora á nossa comissão no Leste de Angola que retratam fielmente a sã camaradagem que sempre foi o lema das relações entre todos sem excepção, e em especial uma série de imagens do destacamento base do Nengo na fase de construção das infra-estruturas que vieram trazer mais conforto, segurança e bem estar, e o César fala sempre com grande orgulho nesta obra, pois participou activamente em todas as fases, desde a terraplanagem ao primeiro içar da bandeira no pedestal central da parada com o brasão da 3514, onde tantas imagens foram captadas para a posteridade. (Carvalho)

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Rui Bacelar comentou..!

Comentário
Boa tarde amigos e camaradas. Não fiz parte da v/guerra, mas de uma mesma guerra, um bocadinho ao lado. Era Furriel na Cart. 3540, que fazia parte do Bart.3881, que esteve no Leste, de 1972 a 1974. A minha Compª esteve no Lunhamége, depois houve alguns grupos que estiveram em Lumbala, mais tarde rodamos para o Luando, mais perto de Silva Porto (Kuito). Muitas vezes entro neste v/site (e em outros) para matar saudades. Um abraço para todos e até sempre.
Ps. Camarada Rui Bacelar, desde já muito obrigado pelo teu comentário, mas não consigo localizar Lunhamége no mapa, e a que Lumbala te referes, nós Cart3514 estivemos em Gago Coutinho, hoje Lumbala Nguimbo, mas existe também outra Lumbala no quadrado do Cazombo "Alto Zambeze", na provincia do Moxico.
Um abraço até sempre.
Carvalho

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Estórias de Caça (1)

Foto-recordação desta pequena história passada com 1º Cabo Correia «Estrangeiro» na companhia de alguns camaradas. Em baixo: David Monteiro, Carvalho, o nosso cão Mucoi e o Alf. Rodrigues. Em cima: Operário da Tecnil, Tomás da Silva, Valério (Bélinha), Rosa, David Vaz, Correia, Rego, Coutinho e Gaspar.

Gunga é o maior de todos os antílopes, os machos chegam a pesar 1 Tonelada
Nengo ano 1972
O destacamento da pedreira na margem esquerda do rio Nengo, foi criado para protecção duma exploração e desmonte de granito, britagem de inertes e central de betuminosos para asfaltagem da estrada que liga Gago Coutinho a Ninda, era um local aprazível, bastante arborizado a uma centena de metros do rio, onde de facto todos gostavam de estar, ficava a meia dúzia de kms da sede da companhia, onde íamos todos os dias buscar mantimentos e pão fresco, ali perto foi montado um acampamento para os nativos e famílias que trabalhavam na obra, o que tornava o local tanto de dia como de noite mais acolhedor e movimentado.
Estávamos com sete ou oito meses de comissão e o bichinho da caça começou a ser uma rotina nos hábitos do pessoal, começámos por sair á noite dar uma volta de berliett, por perto apalpando o terreno, cada vez mais longe, muitas das vezes só voltávamos depois de abater alguma peça de caça.
Tornou-se difícil gerir as saídas nocturnas pois toda gente queria ir, e quando encontravamos uma peça de caça, só um podia atirar como era óbvio, e de facto o Gaspar era o melhor, o que chateava o seu comandante de secção que era o Correia, a quêm nós carinhosamente tratávamos por "estrangeiro" devido a sua peculiar forma de falar, e que se vangloriava de ser o melhor atirador da sua aldeia e arredores.
Quando íamos caçar o Correia nunca se calava vociferando continuamente, ò furriel porra, desde quando é que um soldado raso passa a perna ao cabo.
Um dia ao fim da tarde a secção do Correia regressava da protecção à desmatação e vêem ao longe atravessando a picada duas ou três gungas, o condutor acelera e o Correia grita para o Gaspar hoje quem atira sou eu, e baixas a bolinha daqui pra frente. Chegados ao local o Correia levanta-se do banco, manda calar o pessoal, está além, está além, aponta arma e dispara um tiro, diz o Gaspar com sacanice, já mataste um ganbuzino, grita o Correia, ò meu ceguinho não viste que lhe acertei, e abala a correr mata dentro, ficando o resto do pessoal a gozar o prato, e o Correia na sua linguagem singular gritando "ó seus canalhas não bindes ajudar, tais fo...dos não lhes botam os dentes".
Não encontrou a gunga, a mata era fechada e a luz já era fraca, regressou irritado, por causa dos piropos dos camaradas, mas ninguém o demovia da certeza, que lhe tinha acertado, e moeu a cabeça ao Alferes depois do jantar par irem ao local com o cão e o holofote que o animal estaria perto do local onde ele o alvejou.
Na manhã seguinte o amigo Correia que levou a noite a a sonhar com a gunga foi dos primeiros a levantar-se para voltar ao local, quando fossem levar o pessoal da protecção, e tinha razão, pois quando iam chegando começaram a ver abutres sobrevoando a zona o que indiciava um animal morto por perto. Assim que pararam a berliett o cão saltou e arrancou logo naquela direcção, lá estava aquele grande troféu por terra a curta distância do local onde foi baleado pelo Correia.
Ninguém o calava, dizia ele eufórico, ó Alferes daqui para a frente quem atira sou eu, qual Gaspar qual car..lho, esse gajo nem um boi enxerga à frente dos olhos, quanto mais uma gunga a cem metros e a fugir, só o cabo Correia.
PS. O João de Almeira Correia era 1º Cabo, natural do distrito de Viseu, um moço sempre bem disposto e muito reinadio, muito alegre, amigo do seu amigo, que despia a camisa para ajudar qualquer um dos camaradas. Nunca mais tivemos noticias dele, julgo que emigrou, mas não perdi a esperança de o voltar a encontrar, o mundo não é assim tão grande.
Adeus até ao meu regresso

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Missão Católica de Gago Coutinho

Localização da Missão Católica de S. Bonifácio em Gago Coutinho

Lumbala Nguimbo
«Entrevista de Siona Casimiro»
A Missão Católica de S. Bonifácio está situada dentro mesmo da Vila sede de Lumbala Nguimbo. Esteve privada da presença missionária desde 1974. A Igreja local está em todos aspectos na estaca zero e, no quadro do esforço tendente ao seu reerguer, esteve em Luanda o seu pároco, Padre Orlando Agostinho, 33 anos de idade.
“O apostolado” abordou-o para saber do sacerdócio naquele sertão.
O Apostolado: Senhor padre, localize-nos por favor a vossa Jurisdição.
Padre Orlando AgostinhoA Missão católica de São Bonifácio está situada dentro mesmo da vila sede de Lumbala Nguimbo, município das Bundas, ao Sul da província de Moxico. Fundada em 1937 pelos missionários beneditinos, é uma das missões mães da Diocese do Luena, ao lado daquelas do Luau (Santa Teresinha) e S. Bento de Cazombo. Fica a quase 492 km da capital da província. Situa-se mais próxima da Zâmbia do que do Lwena, por exemplo.
O Apostolado: E a população residente,como a pode caracterizar?
Padre Orlando AgostinhoA população pertence ao grupo étnico Bunda, contando com outros grupos etnolinguísticos. Está estimada em 37.000 habitantes, na sua maioria recém retornada das Repúblicas da Zâmbia, do Congo Democrático e Namíbia, muitos deles não sabendo expressar-se em português, senão, em inglês. Um clima tropical quente domina na região. A pesca, a lavoura e a caça são as actividades essenciais dos habitantes. Os principais produtos cultivados são: massango, massambala, e cereais e colheita de mel. Realço ainda que a comunidade integra maioritariamente famílias de ex-militares, isto é, das extintas FAPLA, da UNITA, das FAA.
O Apostolado: Como se apresenta a situação da Igreja em termos de infra-estruturas por começar?
Padre Orlando AgostinhoA Igreja de Lumbala está em todos os aspectos na estaca zero fisicamente falando. Estruturas não existem. A guerra destruiu o único edifício da igreja que havia. Ficou sem cobertura, janelas, portas, chão, pintura, instalação eléctrica. Casa paroquial, internato masculino e suas casernas, sistema de água canalizada, residência das madres e seu dispensário e internato feminino, a aldeia dos idosos e leprosos... Tudo foi ao ar. Estas estruturas passaram momentos difíceis logo depois da independência. No ano 1978 com a adopção da política marxista–leninista, foram violentamente confiscadas pelo governo de então e muito património espiritual e material saqueado. Alguns imóveis voltaram à propriedade da Igreja nos anos 90, mas o recomeço da guerra impossibilitou a sua utilização, construção e reconstrução, bem como a colocação de um padre. A área mergulhou de novo na situação de abandono e saque por parte dos soldados. Hoje em dia, o próprio pároco está provisoriamente numa antiga casa de professores por equipar e sem espaço de acolhimento de visitas.
O Apostolado: Em termos sociais, como pode descrever a comunidade paroquial?
Padre Orlando AgostinhoA comunidade paroquial não foge muito ao que referi sobre a população local em geral. Ela integra muitas categorias vulneráveis. Entre as pessoas de terceira idade, há velhos rejeitados e estigmatizados tradicionalmente pelas suas aldeias e famílias. Há considerável número de desempregados e órfãos, em maioria crianças e jovens que não sabem expressar-se em português, senão em inglês mal falado e dialectos locais. Muitos repatriados não encontraram as suas famílias nas áreas de origem depois de muitos anos no exílio, pelo que se fixaram sem querer em comunidades de conveniência e não da sua proveniência.
O Apostolado: Pode ser mais profundo sobre as carências da população local?
Padre Orlando Agostinho
À dificuldades de vária ordem: falta de água corrente, de electricidade, de escolas suficientes, de hospitais que ofereçam segurança aos doentes, de emprego, sobretudo para jovens regressados e outros que se entregam rapidamente à vida fácil e de vícios. Para aquisição de certos meios, tanto os alimentos como materiais de construção, a distância de Lwena tem significado a triplicação ou quadruplicação da Missão Católica de Lumbala Nguimbo
ECCLESIAL 5
O Apostolado: Como tem sido encarado o pároco nestas condições?
Padre Orlando AgostinhoA Diocese, mesmo sem grandes condições para acomodar um pároco ouvira a súplica do povo e enviou aos 28 de Maio de 2006 um pároco. O povo alegrou-se e agradeceu isso ao seu Bispo. O ároco é visto e tido como o pai benfeitor-socorrista da comunidade tanto dos cristãos como dos não-crentes. É o padre que deve apoiar o transporte para doentes da comunidade, do hospital à casa e vice-versa; é o padre que deve e pode apoiar o transporte para levar capim e material de pau-a-pique para construir a casa de um(a) idoso(a), doentes e outras necessidades das pessoas que fazem parte ou não da comunidade cristã.
O Apostolado: Em que tem consistido o trabalho do padre nestas circunstâncias?
Padre Orlando AgostinhoAntes de mais, devo sublinhar que a miséria espiritual é muito notória. O povo de Lumbala Nguimbo esteve privado da presença missionária desde 1974, isto é, antes da independência. Assim, o nosso trabalho pastoral gira em torno da mensagem evangélica, transmitir aos nossos cristãos a esperança e o amor entre os irmãos na caridade, baseadas numa profunda dimensão humana nas suas relações pluridimensionais. A nossa mensagem vinca quanto não devem ser conceitos vagos a compreensão e o respeito pela diferença, a justiça social, o espírito de tolerância e reconciliação entre irmãos, o respeito pelos direitos humanos e democracia, em suma,a cultura da paz. Incentivamos as populações ao serviço particular e comum da agricultura, sobretudo lavras e hortas para a Caritas da Missão.
O Apostolado: Falando em incentivos, o pároco tem disposto dos meios necessários?
Padre Orlando Agostinho
Em verdade, falta tudo: meios litúrgicos (paramentos, mala de missas; máquina de fabricar hóstias etc...), materiais para o secretariado de pastoral paroquial, equipamento para os serviços comunitários da Caritas e residência paroquial, apetrechos para a biblioteca paroquial.

A residência paroquial, por exemplo, é muito pequena para o próprio pároco e, pior, para acolher uma visita do Bispo e outros hóspedes. Aliás, quando isso acontece, alguns missionários dormem acumulados numa só sala, e outros ao relento, quer dizer, passando as noites dentro dos carros. Outro exemplo, a vastidão do município requer ao pároco visitar constantemente as comunas e pequenas comunidades, em companhia de um grupo de catequistas e seu conselho paroquial, mas o transporte é exíguo.
O Apostolado: Exíguo, como?
Padre Orlando Agostinho -Até só para tirar os meios de sustento para o pároco de Lwena ao município, o carro danifica-se logo na primeira viagem. Contando com os mantimentos, o combustível e os próprios ajudantes numa viagem duríssima e longa, o pequeno e único veículo já é insuficiente. De realçar que a viagem de Lwena-Lumbala Nguimbo gasta 200 litros de combustível por causa do uso permanente da tracção reforçada, porque sem esta técnica, a viagem torna-se cansativa, difícil e longa, levando 2 a 6 dias. A pastoral naquelas picadas ainda é mais complicada, colocando anecessidade de algumas motorizadas e bicicletas. As picadas muito arenosas, pantanosas, esburacadas recomendam a aquisição de um carro-aberto tipo“Land-Cruiser Pickap”.
O Apostolado: Mais exemplos, ainda?
Padre Orlando Agostinho
Posso referir, ainda, que animais ferozes abundam na zona, muitos deles à espreita na beira das estradas, pontes. Uma vez, quando me dirigia ao Lumbala Nguimbo, fui cercado por cerca de 30 mabecos, animais mais ferozes do que o leão. Em Maio/2006, aquando da tomada de posse do pároco, o Bispo Dom Mbilingi, alguns catequistas e a minha mãe, também, viveram quase uma experiência igual. Devido a presença de pegadas do leão no local de descanso, tiveram que transferir-se para outro sítio mais seguro.O Apostolado: O que faz no sentido de minimizar ou ultrapassar este ambiente de tamanha adversidade?
Padre Orlando AgostinhoOra, o sacerdote que está a trabalhar em Lumbala Nguimbo é ainda muito jovem. Esta é a sua primeira missão como pároco e está, por isso, com muita força de vontade de trabalhar e ajudar os seus irmãos a redescobrirem as raízes da sua fé e voltar às origens da primeira Evangelização realizada pelos missionários Beneditinos em 1963. Na perspectiva de reduzir as dificuldades materiais da sua actividade, concebemos um projecto de apetrechamento da Missão de que diligenciamos a aprovação e execução,
O Apostolado: A jeito de palavra final, o que apetece dizer para os leitores?
Padre Orlando AgostinhoA Comunidade dos fiéis de S.Bonifácio é formada actualmente por cerca de 3.000 fiéis só na sede. A grande limitação é os escombros deixados pela guerra que aí se desenrolou como bastião de guerrilha entres beligerantes. Estando a Missão em estaca zero, ela precisa urgentemente dos principais meios e usuários, residência paroquial e suas estruturas. O pároco lida com a solicitação constante dos catequistas de comunas distantes e confrontados com maiores dificuldades de satisfação do seu serviço. Eles têm desejo de se verem bem formados, pois temos catequistas sem baptismo, e outros com antiga e única formação. Esses desejam voltar às origens, fazer e dizer como os primeiros missionários faziam: formar, divertir e informar. Há o desafio de catequeses comunais e pequenas comunidades já existentes e outras ainda por se fundar. Em remate, reafirmo que, em Lumbala Nguimbo, trata-se de um voltar às raízes da primeira Evangelização, senão um recomeçar, um criar com mãos vazias
noticia http://www.apostolado-angola.org/

Água em Gago Coutinho

Lumbala Nguimbo 28 Set. 2008
Os munícipes da vila de Lumbala-Nguimbo, sede municipal dos Bundas, província do Moxico, ganharam hoje, sexta-feira, um novo sistema de captação, tratamento e distribuição de água potável. O sistema de abastecimento de água foi reposto em seis meses num investimento de 15 milhões de kwanzas, no âmbito do programa de melhoria e aumento da oferta dos serviços sociais básicos ás populações. Foi construído um tanque de distribuição com capacitdade 50 mil litros, sete chafarizes e quatro lavandarias públicas, para além de colocadas torneiras domiciliares. O coordenador do grupo de acompanhamento do comité provincial do MPLA, Domingos Máquina, que inaugurou o sistema, enalteceu o empenho do governo na resolução dos principais problemas sociais que afectam as comunidades. Para ele, o consumo de água potável vai contribuir para melhoria da qualidade de vida das populações. Maria Luzia Kayawo, de 64 anos de idade, regozijou-se com o trabalho do governo na reposição da água canalizada.
noticia AngolaPress

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Leão assalta Destacamento

Histórias de Angola
Rio Luati 1 Outubro 1973
Este destacamento do 1º pelotão da Cart3514 com um efectivo de 30 homens incluindo, cozinheiro, enfermeiro, transmissões e condutor, situado na margem esquerda do rio Luati, a montante da ponte na picada que liga Gago Coutinho a Ninda, tinha como missão a segurança duma exploração de latrite (1) a céu aberto, o parque de máquinas de desmonte e carga, camiões, trabalhadores que pernoitavam no local em pré-fabricados de madeira e em palhotas rudimentares, assim como a protecção duma frente de trabalho a cerca de 5 kms, na desmatação, compactação e construção da estrada, a cargo da Tecnil (2). O local não era o ideal, no plano da segurança, muito exposto e inseguro, situado numa zona baixa em relação à envolvente, muito isolado, as transmissões ficavam inoperacionais durante a noite, a 64 kms de Gago Coutinho, a 26 kms de Ninda (3) e a 50 kms da fronteira. Havia algum receio e preocupação, o rio era um corredor referenciado de passagem, muito utilizado entre as bases na Zâmbia e o Muié na região de Cangombe, na infiltração de guerrilheiros do MPLA.
O acampamento com quarenta e poucos metros de diâmetro, era protegido por uma barreira de terra com dois metros de altura em toda a periferia, no interior seis tendas cónicas e cozinha de campanha, a uma centena de metros o rio Luati, de leito profundo, largura mediana, forte caudal, correndo num vale estreito e sinuoso entre duas colinas bastante arborizadas. Na margem direita, a montante da ponte havia uma grande chana (4), onde várias vezes fomos de noite caçar, palancas, cabras do mato e outros, quando os géneros escasseavam, se detioravam com o calor, ou simplesmente pelo gosto, ousadia e aventura.
Nos destacamentos jantava-se cedo; às seis da tarde cai a noite, nos trópicos a transição dia noite é muito rápida, luz só de petromax, as melgas são endémicas, como tal o pessoal recolhia ás tendas jogava cartas, escreviam, liam ou dormiam, apenas dois sentinelas, em turnos de duas horas, zelavam pela segurança nocturna no perímetro do destacamento. Com dezassete meses de comissão, já tinha passado a fase do medo, estávamos naquela «estou-me fod…. para isto tudo», conhecíamos o terreno, a situação, estávamos medianamente preparados para algumas situações, nas outras havia de ser o que Deus quisesse, nem sequer admitíamos pensar nelas, apesar do que ocorria á nossa volta..! Nos 27 meses que passámos nesta zona do leste, as companhias operacionais do Bcav.3862 primeiro e depois as do Bart.6320, destacadas no Mussuma, Ninda e Chiúme, nunca tiveram descanso, minas anti-pessoal e anti-carro, emboscadas a colunas-auto na picada e na mata, faziam operações constantemente na zona envolvente, algumas vezes lançadas em hélis a curta distância dos objectivos com elevado grau de risco, outras vezes em conjunto com Flechas (5), Catangueses (6), GE (7), Paraquedistas, Fuzileiros e Comandos, apoiados pela Força Aérea ou pelos Sul Africanos no lançamento de meios, transporte ou bombardeamento de objectivos do Sete ao Chalala, do Luanguinga ao Cuando.
Os aquartelamentos de Ninda e Chiúme foram flagelados várias vezes de noite pelo IN com armamento pesado, houve baixas psíquicas, feridos, estropiados e mortos.
Esperávamos interiormente cenários de outra ordem, noutros palcos, com outros actores, outras cenas, mas jamais o filme que segue dentro de momentos.
Mapa da zona envolvente do destacamento do Luati, com os camaradas António Oliveira e Castro que faziam o quarto de sentinela, e o suposto trajecto do leão assinalado a vermelho. (clique sobre a imagem para aumentar a foto)
A determinada altura da estadia começámos a ouvir «Urros» todas as noites, vindos do outro lado do rio, uns diziam que eram pacaças outros que eram leões, na dúvida uma noite, subimos para a berliett e fomos ao outro lado do rio, bater a mata com o holofote ao longo da picada, mas não vislumbrámos nada, apenas umas pegadas frescas de leão num trilho de caça. Uns dias mais tarde, precisamente a noite de 1 Outubro de1973 ficou na nossa memória, escura como breu, fria, apesar da época do cacimbo estar no fim, (Altitude média no leste de Angola 1200mts) o 1º Cabo António Oliveira e o Castro, faziam o quarto de sentinela das 23 à 1 da madrugada, sentados no aconchego da lareira, com um cachorro pequeno deitado ao lado, e a confiança absoluta no Mucoi, um cão de porte médio, valente, agressivo, muito territorial, de raça «Leão da Rodésia»(8) sempre vigilante de dia e de noite na detecção e aproximação ao destacamento de pessoas estranhas ou animais, mas naquela noite pressentindo o perigo eminente, não deu sinal algum, acobardou-se, refugiando-se numa das tendas, de pêlo eriçado e rosnando baixinho, pondo em risco a segurança, do pessoal.
Um leão solitário de farta juba, decidido a comer uma refeição a qualquer preço, vindo do outro lado do rio atravessou a ponte, seguiu picada acima até ao destacamento, protegido pela escuridão, rodeou e farejou as casas de madeira, subiu sorrateiramente a barreira de protecção do acampamento, e com um salto felino abocanhou o cachorro, o Castro ao sentir o impacto da fera contra as pernas dá um tiro por instinto e grita desesperado, é um Leão è um Leão, o animal foge pelo meio das tendas galgando a barreira de protecção oposta, desaparecendo na cerrada penumbra da mata com uma parca refeição.
Entre militares e civis instalou-se o «medo» momentaneamente, a maioria do pessoal já não dormiu nessa noite e alguns camaradas acamparam em cima da berliett até ao raiar do dia.
Tomámos o pequeno almoço, e seguiu-se o ritual diário, uma secção saiu para a protecção á frente de trabalhos, a segunda ficou de serviço ao destacamento, e a terceira que devia descansar, pegaram na arma e seguiram o rasto do leão até o perderem numa zona de mata densa já bem longe do destacamento.
No regresso avistamos duas palancas num trilho á beira do rio, caminhando em direcção á mata, o pessoal divide-se e acabamos por abater um animal, que transportámos para o destacamento, onde repartíamos habitualmente parte da carne com o pessoal civil, que trabalhava na obra. Estranhámos ninguém querer aceitar, principalmente os trabalhadores nativos, que eram sempre os primeiros a chegar e os últimos a sair, levando sempre o resto da carcaça e os despojos do animal, e tinham razão, sabiam por experiência que com carne fresca na “dispensa” corriam o risco acrescido de ser os principais alvos de ataque.
Na foto o Carvalho com o Joaquim Gonçalves "Beringel" e o Rosa a esfolar a palanca
Os Trabalhadores não queriam lá pernoitar, garantiam que o animal iria voltar novamente pela calada da noite, e que ninguém estaria em segurança, ia haver estragos, o caso tornara-se surreal, foi então que o Alferes Rodrigues juntou o pessoal, e disse, temos que tentar resolver a situação, inventar uma armadilha, cada um diga o que pensa e sabe, não tardou estava encontrada uma solução, que nos pareceu ser a mais viável, era preciso uma árvore isolada de mato, a trezentos ou quatrocentos metros do acampamento, na direcção em que o animal fugira após o ataque e com caminho aberto para a berliett passar.
A meio da tarde depois de encontrado o local ideal, montámos a armadilha com uma granada defensiva amarrada ao tronco duma árvore, meia cavilha de segurança enfiada, argola presa com um cordel de nylon tenso ao naco de carne e deste ao tronco um cordel bastante frouxo, de modo que o animal, accionasse o engenho mas não fugisse com o isco antes da explosão.
Isco com carne de palanca, armadilhado com uma granada defensiva

Ao final do dia, conseguimos convencer os civis a ficar, jantámos todos juntos, um churrasco de palanca na brasa e umas cervejinhas nocal, e assim que começou a escurecer civis e militares entrincheiraram-se em cima da berliett, numa longa pausa, a contagem decrescente tinha começado, muitos cigarros, expectativa, ouvidos à escuta, eis que uma hora e tal depois, o primeiro de muitos urros, cada vez mais perto mais intensos, instala-se o silêncio, finalmente o animal detectou o isco, um clarão, um estrondo enorme ecoa no vale, viatura em andamento, o Beja acelera, algumas dúvidas, terá sido o leão ou outro animal..? De holofote em punho, seguimos em marcha lenta, pesquisando a mata palmo a palmo...!!
Lá estava de cabeça no solo, maxilar estilhaçado, quartos traseiros em pé, ainda vivo, respiração ofegante, um momento de arrepiar, o Alferes Rodrigues salta para o chão, encosta-lhe o cano da G3 à cabeça e dispara acabando com o sofrimento deste belo e imponente rei da savana africana.
Carregado para cima da berliett de volta ao destacamento, houve farra com muito álcool e cerveja à mistura, em redor da lareira, com outras histórias de situações idênticas, narradas e vividas por indígenas locais, de ataques perpetrados por leões solitários, animais no limiar da idade, destronados e desapossados das fêmeas, escorraçados do bando e dos seus territórios de caça, por outros machos mais novos e possantes.
Estes animais muitas vezes já sem capacidade de abaterem presas que lhe saciem a fome, aproximam-se de pequenas sanzalas, pela calada da noite, e na primeira oportunidade, invadem quimbos e palhotas, atacando pessoas e animais domésticos, provocando vitimas e semeando o terror entre a população, noite após noite, até serem abatidos como solução na protecção a esta gente que continua a viver primitivamente, das lavras, da pesca, do mel e da caça em pleno coração da mata africana.
Na foto os camaradas Lourenço do Carmo, Carvalho, Ricardo da Conceição e um «peluche» de estimação
Na manhã seguinte após os muitos retratos da praxe, foi literalmente esquartejado, garras, presas, patas, pele, cabeça, rabo, partes da juba, todos queriam uma pequena recordação, um troféu para mais tarde recordarem, esta etapa da nossa passagem por África hoje aqui relembrada, na pessoa dos camaradas 1º Cabo António Oliveira natural do distrito do Porto e César Soares de Castro natural de S. Maria de Lamas, que foram protagonistas duma situação, que poderia ter sido muito complicada, mas que não passou apenas dum grande susto.
Adeus até ao meu regresso
1) Latrite - Minério terroso utilizado em África na compactação de estradas.
2) Tecnil - Empresa de Obras Públicas de Angola.
3) Ninda - Vila, 90 kms a sul de Gago Coutinho.
4) Chanas - Clareiras extensas e alagadiças de vegetação rasteira que ladeiam os rios
5) Flechas - Ex. Guerrilheiros recuperados sob o comando da PIDE
6) Catangueses - Ex. Militares da República Democrática do Congo, apoiantes de Moisés Tchombé, na falhada secessão da província do Catanga, após a proclamação de independência em Junho 1960, do jugo colonial Belga, estavam refugiados em Angola, como mercenários a soldo de Portugal.
7) GE - Grupos Especiais de operacionais indígenas sob o Comando dos Sectores de Zona
8) Leão da Rodésia - “Rhodesian Ridgeback” Raça híbrida do Terrier cruzado com o nativo africano Hottentots utilizado pelos Boers como guarda e na caça grossa na antiga Rodésia, (Zimbabwe) - mais informação clicar em « Leão da Rodésia »

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Grupo de Tramsmissões da Cart.3514

Imagem no interior do seu posto de transmissões no destacamento base do Nengo, com os camaradas Fernando Rego, Victor Marques Dinis, Paulo Ribeiro, Carlos Monteiro, Neves Tavares e o Manuel António Oliveira em alegre convívio de camaradagem, que sempre os caracterizou. Quero aqui deixar uma palavra de elogio e agradecimento a estes jovens do grupo de transmissões da nossa companhia, pois eram eles que em escuta permanente e total disponibilidade, mantinham a unidade com os sub-destacamentos vinte e quatro horas por dia, como elo de ligação, estabilidade e segurança dos seus camaradas, muitas vezes com dificuldades, que na generalidade sempre conseguiram suprimir, pois havia locais de difícil recepção e emissão na comunicação via rádio, no período da noite.

Antes da auto mutilação capilar, com um aspecto mais ao nível dos meninos da linha.
Em cima: Fernando Rego, Carlos Monteiro, João Medeiros e o Manuel António Oliveira.
Em baixo: Paulo Ribeiro, Vítor Marques Dinis e Joaquim Neves Tavares.

Fotos cedidas pelo camarada Paulo Ribeiro
Tanta carecada junta de certo que houve aposta, mas não sabemos quem ganho ou perdeu, terá que ser o Paulo a contar a história do pente zero, pois não me lembro que tenha sido por castigo.
O trabalho que deram ao cabo verdiano Fontes para desfazer os caracóis à rapaziada.
Em cima: Fernando Rego, Carlos Manuel Monteiro, o soba da tabanca João Osvaldo Medeiros e o Manuel António Oliveira.
Em baixo: Paulo Afonso Ribeiro, Vítor Marques Dinis e o Joaquim Neves Tavares.
PS. Paulo o nosso agradecimento pelas fotos, mas não se esqueça de que estamos á espera da sua crónica à cerca destas fotos e do pente zero, queremos que recorde a todos nós essa e outras histórias.
Um abraço