sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
SALVÉ 3 DE DEZEMBRO DE 2010
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
Recordações D´Outrora
Fotos dos Álbuns de: Serafim Gonçalves, Bernardino Careca, Manuel Parreira e Araújo Rodrigues
Quando o calor apertava a solução era abastecer o cantil de água fresca, no rio mais próximo, depois uma pequena pastilha á base de cloro "Hipoclorito de Sódio" para desinfectar de microrganismos e bactérias, veiculadas na corrente hidrica, potenciais causadores de doenças, e estava pronta para consumir, aliás bebemos muitas vezes água apenas filtrada no tempo do cacimbo.
Como sempre depois de mais uma reunião de trabalho, havia sempre lugar a um retrato para enviar á família, que ajudava desanuviar e a encurtar distâncias.
Adeus até ao meu regresso
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| Colina do Nengo 1973 - Dois T6 sobrevoando o kimbo dos "Metralhas" |
Sempre que alguma aeronave militar ou civil sobrevoava a Colina do Nengo, a rapaziada vinha sempre para a parada fazer uma saudação, e os pilotos dos T6 destacados em Gago Coutinho retribuíam quase sempre com um voo picado e depois uma rapada a baixa altitude sobre o destacamento, deixando o pessoal com os cabelos em pé...!
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| Lutembo 1972 - Alves Ribeiro, Paiva, Gonçalves |
Tínhamos chegado ao leste há pouco tempo, nota-se pelo estilo dos maçaricos e dos camuflados, destes camaradas do 3º pelotão que ficaram destacados na comuna do Lutembo, no meio o nosso cozinheiro Alfredo Pinheiro Paiva o "cambuta" da companhia,que nunca mais deu sinal de vida.
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| GEs - Familia tradicional dos Bundas |
Soldados indígenas integrados nos Grupos Especiais com os seus familiares trajados a rigor com toda a bijutaria e adornos próprios em dia de festa na Sede do Batalhão em Gago Coutinho. Viviam em pequenas casas de construção ao longo do arame farpado, por trás do quartel numa primeira linha de contenção. Não era fácil captar esta imagem, só a troco de favores ou dinheiro.
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| Nengo 1972 - Pereirinha, Diogo, Parreira, Soares, Zé Abreu, Cardoso da Silva, Costa e Silva |
Todos os aniversários eram aproveitados para convívio e divertimento, e como o vinho "induca" e o fado "instrói" acabávamos sempre tentando esquecer e afogar o que nos ia na alma, bebendo e cantando.
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| Algures num destacamento - Gonçalves, Matos, Aguiar, Esteves, Lopes, Veiga e Parreira |
Nos destacamentos havia diariamente uma secção de serviço na limpeza, a lavar loiça, ir á lenha, buscar água e ajudar na confecção das refeições, aqui a descascarem batatas como ilustra a imagem.
| Praia fluvial do Nengo - David Monteiro, Carrusca e Pinto na companhia de outros camaradas |
Nos destacamentos raramente tomavamos banho de chuveiro, pois o transporte da água era moroso e dava trabalho, ao final da tarde ia-mos ao rio tratar do corpo, relaxar, dar um mergulho e refrescar.
| Luati 1973 - Correia e Conceição |
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| Gago Coutinho 1972 - Em baixo: Cardoso da Silva, Barraca, Careca, Aguiar, Guarino e Milo. Em cima: Carvalho, Zé Abreu, Castro, Guerra, Costa e Silva e António Duarte. |
Aos domingos havia duas maneiras de dar uma escapadela até Gago Coutinho, ir assistir á missa e ao "santo sacrifício da saída" ou então ter algum jeito para jogar à bola, doutra forma estava condenado a ficar no destacamento, mas acabaram todos por se converterem com o tempo, tanto os cépticos como os não praticantes e até os coxos aprenderam a correr atrás da bola.
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| Nengo 1973 - Em baixo: Careca, Pereirinha e Vieira. No meio: Medeiros, Parreirinha, Joaquim Caeiro Santana, Parreira, Bélinha, Venâncio do Carmo e Lagarto.. Em cima: Martins e Galvão |
Adeus até ao meu regresso
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
Lumbala Nguimbo - Práticas de Feitiçaria
Matam criança e roubam coração...!
Uma criança de 12 anos foi assassinada e o seu coração arrancado por métodos que indiciam prática de feitiçaria em Lumbala Nguimbo, na provincia do Moxico.
A acusação foi divulgada ontem pelo bispo de Luena, Moxico, D. Tirso Blanco, no jornal on-line da Igreja Católica Angolana.
A barbaridade foi denunciada pelo sacerdote no decurso de uma visita pastoral à comuna de Lumbala Nguimbo, onde terá ocorrido o assassínio da criança, a quem foi retirado o coração para práticas de feitiçaria.
"Era uma criança que estava de passagem naquela localidade, e possivelmente aproveitaram-se dela para tráfico de órgãos humanos. Podia ter sido qualquer outra pessoa", adiantou o prelado ao jornal ‘O Apostolado’.
Em Angola, são recorrentes os crimes por prática de feitiçaria.
noticia Correio da Manhã
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
Memórias do Leste de Angola
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| Botelho na Secretaria do Comando |
Mas, pondo de parte esta introdução, que não quero muito longa, vou entrar, de imediato, na evocação de algumas ocorrências passadas durante a nossa permanência na ZML/RMA, nomeadamente, a quando da construção do Destacamento do Nengo, esteve a CArt 3514 sedeada em Gago Coutinho, nas instalações do BCAV” Cavalo Branco”.
Para ajudar a essa evocação, socorri-me da imagem que ilustra este “post” e na qual estou eu representado. Encontro-me no meu posto de trabalho e no cumprimento da minha missão, sentado atrás da secretária, no arquivo da Companhia, onde tratava e dirigia muitos assuntos, tanto oficiais como particulares de todos vós sem excepção.
Nesta missão, era auxiliado pelos Chefes dos serviços respectivos, como fossem o da Alimentação, o do Serviço de Saúde, o do Serviço de Material, o da Intendência e o das Trms. De todos estes Chefes, os que dependiam mais de mim, pois trabalhávamos em sintonia e colaboração eram os Chefe do serviço de Alimentação e o da Intendência.
Ao meu exclusivo cargo, ficava a Administração (Ordenados, Vencimentos e Pré) e toda a correspondência trocada com as Chefias dos Serviços respectivos, tanto do Sector do Luso como da RMA.
Tratava também de assuntos particulares dos militares, prestando-lhes apoio dentro das possibilidades. Em todos estes assuntos tinha um excepcional apoio e precioso auxiliar no meu “braço direito”, o meu competente Escriturário António Carrusca, que, quando o serviço apertava mais, sempre conseguia arranjar uns “ajudantes” extras, para o desenrasca e, até eu, muitas vezes o ajudei!...
Naquele mesmo local em que está colocada aquela secretária, recebi” boas” e “más” novas e, as mais marcantes, por incrível que pareça, são as “ más”. Lembro-me, como se fosse hoje, daquele fatídico dia 23AGO72, em que, num acidente de viação, faleceu um dos nossos camaradas. Não vou citar-lhe o nome, por desnecessário, por ser sabido de toda a gente e, além do mais, ter sido já lembrado na altura apropriada, neste mesmo “blogue” e por mim.
Apesar disso tudo, é-nos muito grato evocar este e outros acontecimentos e que, sem qualquer outro motivo, que não o da saudade e nostalgia, nos levam e recordar tais acidentes históricos e que não são produto de qualquer “ficção de cordel”.
Este já está a ficar longo e como não quero tornar-me aborrecido e maçador, vou terminar, enviando cordiais saudações aos colaboradores deste blogue, a todos os restantes elementos da família “Panteras Negras” e familiares e para todos os nossos “visitantes”, onde quer que se encontrem.
Para todos, um abraço e um “até breve” do Camarada e Amigo.
Botelho
Botelho
domingo, 21 de novembro de 2010
Varano da Savana
"O Caióia gritou oh sinhô Beja, oia oia um Sengue"
Uma manhã regressávamos de Gago Coutinho pela picada velha na chana do Mussuma, quando alguém reparou num lagartão que fugia no meio do capim, abrigando-se numa pequena toca com a cauda de fora, quando lhe pegamos no rabo e o puxamos para fora o animal parecia morto sem reacção alguma, metemos-lo dentro dum saco de serapilheira e levamos para o destacamento do Nengo, onde despertou muita curiosidade, os cães não se chegavam, e o animal depois de solto refugiou-se na placa central do destacamento, onde nessa alturas as flores e os arbustos muito viçosos e frescos lhe deram guarida durante uns meses.
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| Serafim Gonçalves |
Só de noite se atrevia a sair do esconderijo, procurando restos de comida no chão do refeitório, e por fim começou a trepar para as mesas virando panelas e tachos, á procura de pitéus, chegando mesmo a provocar alguns medos aos sentinelas, do posto adjacente ao paiol, com o barulho da loiça a cair no chão da cozinha ás tantas da madrugada. Quando o apanhávamos para uma secção fotográfica ou mostrar a alguém, bastava pegar-lhe na cauda e o animal entrava em estado letárgico, não sei se por mânha ou por stress, ficava inerte, chegou a desaparecer por alguns dias mas voltava sempre, até que um dia foi de vez
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| Manuel Parreira |
Varano da Savana vive junto a linhas de água, pode atingir 2 metros de comprimento, sendo assim, dos maiores sáurios africanos. Estes répteis têm o corpo robusto e patas possantes com fortes garras e a cauda preênsil, comprida e achatada lateralmente. A pele tem cor esverdeada, com manchas amarelas distribuídas num padrão mais ou menos regular, têm a língua bifurcada, que serve, conjuntamente com o órgão de "Jacobson," para a obtenção de informações olfactivas sobre o meio envolvente. Estes répteis diurnos são geralmente vistos a aquecerem-se ao sol, sobre rochas ou ramos; durante a noite procuram abrigo em tocas. Pilham frequentemente os ninhos de tartarugas e de jacaré, para se alimentarem dos ovos, comem de tudo inclusive cadáveres putrefactos. São aquáticos, que nadam e mergulham com facilidade, podendo submergir durante mais de 20 minutos. Em caso de ameaça refugiam-se dentro de água ou atacam com violência usando a cauda; como postura de intimidação arqueiam o dorso, emitem uma espécie de assobio e abanam a cauda lateralmente.
inf. wikipédia
inf. wikipédia
sábado, 6 de novembro de 2010
Hoje há Correio
| NORDATLAS na sua passagem semanal por Gago Coutunho |
(Extractos) - Nunca tinha-mos passado tantos dias sem correio, nada durante doze intermináveis dias, tinha ido de madrugada á vila numa coluna, para buscar, acompanhar e fazer protecção ao pessoal da Tecnil, rotina que todos os dias cumpríamos de segunda a sexta, cheguei ao nascer do sol e como sempre fazia deitei-me novamente, eram ai 9 horas acordei com o barulho e os gritos da rapaziada a festejarem a passagem do NORDATLAS aqui por cima do destacamento na sua rota normal, Luso, Gago Coutinho, N´Riquinha, aeronave que normalmente passava todas as semanas, mas que tinha feito gazeta na passada semana.
Há correio gritava a malta, que dia após dia iam vendo goradas as perspectivas da chegada de noticias, como nos iam prometendo todos os dias, o avião vem amanhã e ele não vinha, até que hoje reapareceu nos céus terminando com a censura geral.
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| NORDATLAS sobrevoando a Colina do Nengo |
Noticias de Lumbala Nguimbo
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| logotipo |
O responsável explicou que o sistema visa melhorar as telecomunicações na rede de telefonia fixa e a expansão do sinal de Internet nas referidas sedes municipais.
AngolaPress
domingo, 24 de outubro de 2010
Relembrando o passado - (Grafanil-Sala de Espera do "Inferno")
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| Capela do Embondeiro no Grafanil |
À primeira, pelo nome que lhe fora dado, dava a impressão de parecer um local bucólico e campestre, com paisagens verdejantes e convidativas para se darem uns agradáveis passeios, aproveitando-se para respirar o ar puro e revigorante! Mas ao chegar-se a tal lugar, à primeira vista, apresentava um aspecto semi-solene, com um portão atravessado por uma barreira, comandada por um “operador” alojado numa cabina situada à esquerda da entrada, com uma passadeira protegida da faixa de rodagem por um varandim metálico que servia para o acesso dos peões, que deixavam na cabina pendurados num grande placard os respectivos BI, levando em troca um cartão para circulação no interior do Campo, preso às lapelas dos casacos ou qualquer outra parte, bem visível, do vestuário. De seguida, entrava-se numa grande avenida, com enormes armazéns de cada lado, cada um deles com os Depósitos de Material inerentes a uma guerra: Material de Guerra(Armamento), Material Auto, Material de Intendência e, junto a estes, as Oficinas de reparações de todos os Materiais e ainda as Secretarias e Armazéns respectivos.
Seguidamente, do lado esquerdo, encontrava-se a célebre Capela do Grafanil, endossada a uma árvore gigante, com o nome de embondeiro ou baobá, representada na foto que ilustra este “post”. A Capela era dedicada a Nª.Srª.de Fátima, cuja imagem se pode nitidamente ver no altar da referida Capela. Em frente do altar, uma ampla área rectangular, ocupada com uma bancada rústica que, aos domingos e dias 13 de cada mês, se preenchia de devotos. Do lado direito e um pouco afastado da Capela, encontrava-se uma excelente esplanada de Cinema, com “écran” para “CinemaScope”, um palco em cimento e uma plateia com bancos confortáveis, mas rústicos, pois não tinham cobertura para se protegerem das chuvas e, claro, os projectores “dernier cri” como material mais delicado, estava instalados numa cabina fechada. Havia ainda um Bar bem fornecido.
Avançava-se um pouco mais e encontrava-se a área destinada a acampamento dos militares recém-chegados, que constavam de casernas de cimento semi-alpendre, com camas de betão, onde se colocavam colchões de espuma para servirem de cama(isto para praças, pois aos sargentos davam umas barracas de madeira tipo JC, onde se fazia o serviço de Secretaria, numa parte e alojamento noutra. Os oficiais e o Comandante iam para Luanda procurar outras acomodações mais compatíveis com o seu “statu”.
Pois, meus caros camaradas, o que vou dizer agora não é, para vós, nenhuma novidade, mas apenas para dar a conhecer a outras pessoas que desconhecem estes factos: O melhor da “festa” era à noite!...Enquanto era dia, a vida desenrolava-se normalmente e sem contratempos de maior!... Sim!...Como ia dizendo, à noite, é que eram elas!...: Eram todos atacados por esquadrilhas, “nuvens” de mosquitos em tal quantidade que não se conseguia dormir e só se ouviam as “palmadas” que os indefesos militares descarregavam neles próprios ao se sentirem “picados” por aqueles atacantes nocturnos esfomeados de sangue "fresco" e, de manhã, ao olharem uns para os outros, diziam: “Olha lá! Deves estar atacado de sarampo ou varicela! ” Respondiam-lhes. Não estou! Estamos!
Resta-me acrescentar que a passagem pelo CM do Grafanil, era feita essencialmemte para dotar as Companhias ou Unidades dos materiais necessários ao cumprimento da missão que vinham cumprir. Como os militares chegavam só com o fardamento, sem armas individuais e equipamentos estes eram levantados nos Depósitos respectivos, sendo-lhes então entregues, juntamente com outros materiais complementares.
Com esta pequena história, apenas pretendi relembrar esta experiência que, para vós, “Panteras Negras” da CArt 3514, foi única e sem repetição mas, que para mim, não foi assim, pois passei três vezes por esse “Inferno”!....
Acho que vou ter de terminar este “palavreado”, pois o “post” está a ficar um bocado longo e não quero tornar-me importuno a ninguém. Assim, e terminando, envio cordiais saudações para os restantes camaradas colaboradores, para todos os elementos da família Panteras Negras e familiares e para todos os eventuais visitantes deste blogue, onde quer que se encontrem.
Para todos um abraço do camarada e Amigo,
Botelho segunda-feira, 18 de outubro de 2010
Estórias d´Angola
Retirada Estratégica
No inicio de 73 a desmatação da nova via rodoviária, chegara ás margens Luati, local pouco afamado, pela actividade operacional permanente, vale estreito, mata envolvente muito cerrada, distante de tudo e de todos, onde as comunicações rádio eram difíceis de dia e à noite totalmente nulas, sujeitando-nos a ficar por nossa conta e risco até ao nascer do sol. Escolhemos um local para fazer o acampamento na orla da mata a meia encosta, na descida para o rio, já perto da ponte de madeira existente, numa zona densa com árvores de médio porte que nos protegiam do meio ambiente e do calor o dia inteiro.
Face ás circunstâncias o 1º Grupo foi reforçado na altura com uma secção do 3ºGr durante algumas semanas, algum tempo depois de mudar o poiso e assentar o pó, começámos a fazer reconhecimentos diurnos na periferia á procura de chanas, picadas e trilhos de animais, apalpar o terreno envolvente, algumas das vezes com percursos na ordem dos vinte kms.
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| Protecção á Tecnil numa frente de trabalho |
Ambientados ao meio, retomámos os raids nocturnos atrás da caça, e numa dessas saídas o imprevisto aconteceu no caminho de regresso, o condutor não sei se o Pires ou Beja, não me recordo, desacelera a Berliett e aponta para o caminho, á sarilhos, sussurra em voz baixa, olhem bem, passaram aqui os gajos á pouco tempo, havia pegadas frescas de botas da tropa, ficamos alarmados, desligamos o motor descemos e o Araújo Rodrigues de holofote em punho tenta averiguar se o tipo de rasto era similar ao do nosso calçado, parecia que sim, mas continuávamos com muito medo, havia mais de uma dezena de pegadas a toda a largura da picada, era pessoal que caminhava á vontade e sem receios, afastámo-nos da viatura, acocorados na escuridão, esperámos em silêncio e na expectativa, sem saber o que fazer de imediato, alguns longos minutos que mais pareceram horas, ouvimos por fim uma voz ecoar na noite, “Camaradas somos do Ninda, perdemo-nos, andamos á procura da picada,” depois outra voz com um sotaque genuíno “vocês sois da catorze? Nós somos do cabalo branco, carago..!!” Se dúvidas existiam, dissiparam-se com aquela inconfundível pronúncia do norte, após este grande momento de tensão e estabelecido o contacto, estalou o arraial com abraços e risos da tremedeira, o Alferes e os Furriéis de armas em bandoleira, depois de justificações, argumentos e considerandos da ordem, só queriam saber se tínhamos cerveja para dispensar ao pessoal.
Tudo para cima da Berliett a caminho do acampamento, onde nessa noite se esfolou uma cabra do mato para dar comer aquele pessoal, que só sossegaram depois de acabar a cerveja. O Saramago que estava de serviço de sentinela com a sua secção acabou fazendo as honras do bar ao Alferes Maçarico e depois dumas cervejolas bem bebidas e umas cigarradas, emprestou-lhe a tarimba por três noites. (Uma cama com colchão nestas paragens era uma dádiva caída do céu).
O Alferes Maçarico, tinha chegado há quinze dias em rendição individual à CCS do Batalhão e colocado numa Companhia em Ninda no comando deste grupo de combate, a rapaziada já tinham um ano de leste, fartos de porrada, afectados pelo cacimbo, cansados de palmilhar mata, na fase decrescente a contarem os dias um a um à espera de rodarem para Malange.
Foram lançados manhã cedo a oeste da nascente do Mucoio, numa operação de quatro dias, ao final da tarde alcançam a margem do Luati, detectam movimentações na zona com cheiro a esturro, enviesaram o objectivo rodando para leste, caminhando na orla da mata ao longo da chana do rio até encontrarem a picada Gago Coutinho, Ninda.
Nunca pensaram caminhar tantas horas, e muito menos esbarrarem com o pessoal da catorze, naquele local e àquela hora da noite, de holofote em punho aos tiros atrás das cabras e das palancas.
Nunca pensaram caminhar tantas horas, e muito menos esbarrarem com o pessoal da catorze, naquele local e àquela hora da noite, de holofote em punho aos tiros atrás das cabras e das palancas.
Á noite no convívio do jantar, sob a luz do petromax, comentava-mos com eles em dialecto castrense, a razão pela qual tinham usado, aquela retirada estratégica, retorquiam na galhofa, baldámo-nos ou melhor, pirámo-nos, vocês vão para lá aos fogachos, espantam os turras e depois querem que a gente os agarre..!! Nos dias seguintes ao romper da aurora, tomavam uma malga de leite ao pequeno-almoço e abandonavam o destacamento para o interior da mata onde passavam o dia a petiscar rações de combate, a cozinhar pistas, a inventarem azimutes e coordenadas, para enviarem ao centro de operações.
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| Pratulha de reconhecimento numa chana |
Demos-lhes asilo e tacho, durante três noites, semanas mais tarde o Alferes Maçarico passou numa coluna pelo destacamento, para deixar umas grades de cerveja como recompensa e entregar ao saudoso Saramago, um “cartão de visita”, que depois de passar á peluda, lhe abriu a porta na maior fábrica de papel da península, como tributo, pela acção espontânea e desinteressada, como era hábito na sua maneira de ser e estar na vida.
Adeus até ao meu regresso
Adeus até ao meu regresso
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
Noticias de Lumbala Nguimbo

Fátima 2010 (3)
Mensagens recebidas e lidas no convívio:
"
Um grande abraço para SI.
Infelizmente este ano não poderei estar presente no nosso convívio, transmita um grande abraço a TODO PESSOAL e muita saúde para todos.
Rui Crisóstomo dos Santos
"
Estimados amigos, antes de mais agradeço muito este convite e acuso muito a recepção desta estimada carta que recebi com bastante satisfação, que me deu uma grande alegria e a oportunidade de puder comunicar com todos vós depois de longos anos sem notícias. Mas este ano não é possível, não sei se vou de férias, mas nessa data não vai dar, de qualquer forma muito obrigado pela atenção. A finalizar quero enviar um grande abraço para todos os nossos colegas, até uma próxima oportunidade, sempre ao dispor.
João Pinto da Fonseca
Bourget - France
"
Amigos e Companheiros
É com desagrado que informo que por motivos imprevistos não poderei estar presente no nosso encontro do próximo dia 18. Espero que tudo corra bem, com espírito de camaradagem como vivemos há 36 anos. Agradeço a todos o empenho, a dedicação e o trabalho de me terem convidado. Com a promessa de nos encontrarmos numa próxima oportunidade envio um forte e sentido abraço para todos os Artilheiros presentes e ausentes, com votos de que vos aconteça tudo de bom. Não há ninguém que ocupe, o lugar de um Pantera, mas mesmo com menos um, haverá sempre primavera.
Vosso amigo e companheiro
Fernando Pereira de Oliveira
"
Outras mensagens recebidas por SMS e Tel. de alguns camaradas que por motivos vários, não puderam estar presentes fisicamente, mas que não se esqueceram de manifestar de alguma forma, com palavras de amizade e muita saúde, óptima confraternização e um grande abraço a todos os presentes:
Bernardino Candeias Careca, Daniel Venâncio do Carmo, César Soares de Castro, António Dias de Freitas, Gilberto Nunes, Hélder Ramos dos Santos, Joaquim da Cruz Pimenta, António Elísio Soares.
"
Em nome desta amizade.
Camaradas, Família e Amigos.
Em nome dessa amizade, que tão bem preservamos até aos dias de hoje, amizade construída á muito tempo nas dificuldades, na entreajuda e na solidariedade que soubemos consolidar ao longo do tempo no seio da nossa Companhia.
Em nome dessa amizade, quero aqui saudar a vossa presença, assim como de todos os familiares e amigos, neste encontro comemorativo do 36º aniversário da nossa chegada a Lisboa, na noite de 23 de Julho de 1974, após 27 longos meses no leste Angola, e relembrar com exactidão, “os 842 dias de sacrifício passados num local hostil, onde cumprimos a nossa comissão, muitas vezes em missões arriscadas, mas também em aventuras insensatas, aprendemos a lei do “desenrasca”, sofremos os traumas da guerra, as insónias do medo, sentimos a impaciência dos dias, o desespero da distância os efeitos do cacimbo, palmilhamos picadas, vivemos momentos de incerteza, vimos sofrer e morrer, perdemos os amigos Ernesto e Ricardo, mas nós bafejados pela sorte e pelo divino, devemos dar graças a Deus por estarmos hoje aqui, confraternizando e comemorando a glória de termos regressado com saúde e algum juízo..!!
Com o passar dos anos, começámos a sentir a vontade premente de saber o que era feito deste e daquele companheiro, daquela rapaziada ao nosso lado no retrato, demos volta ao sótão a revisitar o passado, revivemos sózinhos momentos e memórias que não podíamos partilhar, recordações que só a gente sente, que só a gente compreende. Ao apelo do Parreira e do Medeiros, respondemos com uma reunião na Mealhada na companhia do António Duarte do Pereirinha e julgo que também o nosso antigo Comandante, Rui Crisóstomo dos Santos, foi o inicio deste ciclo de encontros, com o primeiro no ano de 94 em Vale da Mó-Anadia com apenas duas dezenas de participantes, entre companheiros e familiares.
Depois começou a sério, com a chegada de muitos de vós, que nunca quebraram a rede de contactos, foi uma bola de neve, com a entrada todos os anos de mais participantes, encontrados através duma dica dum companheiro, através dos TLPs, das juntas de Freguesia, na Internet e também da vontade infinita de ressuscitar muitos daqueles que o tempo rompeu os elos de comunicação com o universo da cart3514.
Foi com imensa satisfação e prazer que envolvi alguns de vós nesta campanha, e hoje não vamos deixar passar a oportunidade de dar as boas vindas, saudar e aplaudir os companheiros que pela primeira vez abraçaram este convívio, Luís Manuel Francisco Alves, Augusto José Libãneo, António Santos Oliveira, Luís Fernando Pereira Rego, José Alves Pereira Ribeiro, Luís Ferreira da Silva, Graciano Fernando Simões, os Cabo-Verdianos, Adriano Mendes Teixeira e o João António Fontes, Joaquim das Neves Tavares, José Jesus da Cruz, e por último o José da Cunha Ramalhosa, o ”Homem dos Cinco Continentes,” que viajou de tão longe, fazendo um sacrifício enorme de New Jersey nos EUA até Fátima em nome desta nobre causa que aqui nos trouxe “AMIZADE”.
"
Antes de acabar queria deixar uma pequena mensagem enviada a todos nós pela família dum nosso saudoso amigo, após o seu falecimento e que alguns já conhecem pois está no nosso Blog. É um pequeno trecho que muito me sensibiliza, sempre que o leio.
«Amizades que o tempo não destrói» em http://cart3514.blogspot.com/2009/05/amizades-que-o-tempo-nao-destroi.html
"
Para terminar queria lembrar e homenagear todos os camaradas “panteras negras” que partiram na frente, mas que nunca deixarão estar presentes nestes momentos e na nossa memória colectiva. Obrigado pela atenção.
Bem ajam
domingo, 10 de outubro de 2010
Fátima 2010 (2)
Dos Açores com Amizade
Para os Camaradas da Cart.3514 presentes no convivio do passado dia 18 de Setembro
Para os Camaradas da Cart.3514 presentes no convivio do passado dia 18 de Setembro
Gostaria hoje de estar aqui para convosco celebrar com paixão e muita alegria o nosso 36º aniversário, revendo amigos, abraçando os que pela primeira vez se apresentam nestes Encontros e recordar momentos de grande prazer e comunhão que todos viveram.
Gostaria hoje de estar aqui para, neste grandioso e mítico altar de peregrinação de povos e civilizações, berço de religiosidade cristã, agradecer à Virgem de Fátima a graça que nos concedeu, pela protecção das nossas vidas e das nossas familias, do flagelo e sevícias duma guerra colonial imposta por tiranos, contra a legítima emancipação de povos, tais como nós, vergonhosamente explorados e oprimidos.
Gostaria hoje de estar aqui para, uma vez mais, manifestar o meu apreço e gratidão pelos camaradas Duarte, Gonçalves, Carrusca, Carvalho e suas familias, por serem eles o símbolo do serviço, da disponibilidade e do verdadeiro espirito de grupo, não se poupando a esforços para, de forma entusiástica, congregarem, através da organização destes Encontros, colegas e acompanhantes, a manterem sempre vivas a chama da amizade e fraternidade, denominador que de forma transversal a todos nos uniu naquela que foi a nossa façanha Africana, que pretendemos divulgá-la e transportá-la para as gerações futuras.
Gostaria hoje de estar aqui para vos recordar que manter essa chama e reescrevê-la para memória futura, também é possivel fazê-lo através do nosso Blogue, das mensagens, da revisitação dos testemunhos de cada qual, dos comentários, das fotos, ou seja, através de uma participação activa que muitos de nós poderia, seguramente, aceitar envolvendo-se assim num compromisso de cidadania em prol da consciência cívica.
Não é fácil manter aquele tipo de Blogue pelo “círculo vicioso” de informação - alguma reciclada - a que todos estamos sujeitos, relatando factos verídicos sim, ainda que circunscritos ao periodo de tempo em que fômos envolvidos na guerra. Daí a necessidade de cada qual contribuir com a sua estória, por mais simples que seja, para continuarmos a ter conteúdos e substância para a sua divulgação, registo e manutenção.
Só o esforço titânico, até heroico do seu fundador e responsável, o Carvalho, e colaboração de meia dúzia de camaradas, tem sido possivel tê-lo bem vivo e presente nos nossos monitores informáticos, dando-nos noticia do reencontro de colegas, expurgando relatos e surpreendendo-nos, aqui e ali, por factos nunca dantes contados.
Gostaria hoje de estar aqui para em uníssono elevarmos o nosso espirito ao Divino e recordarmos todos os nossos camaradas falecidos, para que o seu descanso em paz, continue a alimentar a tranquilidade, a esperança e a coragem das suas familias.
Gostaria hoje de estar aqui para vos dizer bem alto que, do coração, vos AMO a todos.
Finalmente, HOJE gostaria de estar aqui para num grito de guerra, convosco, mais uma vez e sempre gritar; VIVA A LIBERDADE!...
Um abraço fraterno para todos os meus companheiros da CART 3514 e suas familias.
Ilha do Pico/Açores,
18 de Setembro de 2010
António Soares ´
Ps - (Mensagem do António Soares transmitida no decorrer do almoço-convivio do passado mês Setembro no D.Nuno em Fátima)
domingo, 3 de outubro de 2010
Fátima 2010 (1)
Agora que o convívio deste ano já passou é tempo de fazer o balanço deste encontro que ano após ano vai aumentando o número de presenças. Comecei a preparar a festa á um ano com a reserva dum espaço de restauração para uma centena de amigos e familiares, depois recomeçámos a labuta de encontrar o maior número de camaradas, que o tempo quebrara os elos de comunicação, empenhei o meu tempo e o de alguns camaradas nesta pesquisa que acabou dando frutos, mais de uma vintena de camaradas ressuscitados, com quem reatamos as vias de comunicação, foram momentos de muita persistência mas também de muita alegria sempre que reestabelecíamos contacto telefónico, alguns próximos outros nem tanto, encontra-mos na Ilha do Fogo o David Monteiro, em Angola o Arlindo Sousa, nos EUA o Ramalhosa, em França o Pinto de Fonseca. Enviámos 76 convites, 52 presenças, 73 acompanhantes entre Familiares e Amigos, 125 no total, tivemos 11 baixas, 6 recuperados, 12 maçaricos pela primeira vez no convívio que aqui quero destacar, (António Oliveira e Augusto Libâneo do1ºGr, Cunha Ramalhosa, José da Cruz, Adriano Teixeira e Francisco Alves do 2ºGr, Graciano Simões e José Ribeiro do 3ºGr, João Fontes e Ferreira da Silva do 4ºGr, Neves Tavares e Pereira Rego das Trms), de realçar a presença pela primeira de dois camaradas de Cabo Verde, que muito nos honrou e a promessa de trazerem mais gente para o ano.
Na sexta-feira fui ao aeroporto de Lisboa buscar um convidado especial, o amigo e decano da companhia, Octávio Botelho vindo de S. Miguel nos Açores, ao fim da tarde recebemos um convite do Monteiro para jantar em Fátima com o Medeiros e as Esposas a que não podíamos faltar de modo algum, era meia noite estávamos a chegar a Torres Novas, na manhã seguinte novamente em Fátima dando as boas vindas á rapaziada repetente nestas andanças que tiveram alguma dificuldade em reconhecer as muitas caras novas que este ano se apresentaram pela primeira vez.
Quero agradecer a todos, que ajudaram na preparação e na participação desta nossa festa, ás famílias e amigos que nos acompanharam, agradecer também aos companheiros ausentes que de alguma forma se aliaram ao evento, expressando através de mensagens e palavras de incentivo a sua amizade e vontade de nos acompanhar numa próxima oportunidade.
Imagem dos 52 companheiros presentes em Fátima
1ª fila-Jomi, Paulo Ribeiro, Angelo, Pereirinha, Beja, Milo, Carvalho, Carrusca, Galvão, Medeiros.
2ª fila- Cruz, Ruivo, Águas, Manuel José Oliveira, Costa Carreira, Porfirio Gonçalves, César Correia Ermandino Nunes, Botelho, Luis Ferreira da Silva, Antonio Oliveira, Gaspar, Francisco Alves.
3ª fila-Vieira, José Alves Ribeiro, Eduardo Barros, Parreirinha, Fonseca Marques, Fogeiro, Raul Sousa. Serafim Gonçalves, Augusto Libâneo, Dias Monteiro, João António Fontes, Melo.
4ª fila- Ramalhosa, Graciano Simões, Aguiar, Nunes de Matos, António Manuel Oliveira, Emilio Pires, Victor Dinis, António Duarte, Araujo Rodrigues, Parreira, Costa e Silva, Tavares, Fernando Rego, Conceição, Adriano Mendes Teixeira, Santiago Duarte.
sábado, 25 de setembro de 2010
Rectificação ao "post" anterior
Caros Camaradas e Amigos:
Após uma posterior revisão do "post" que antecede e de que fui autor, verifiquei ter cometido um lapso de que, desde já peço desculpas ao Camarada Carlos Porfírio Gonçalves que, na CArt 3514, fazia parte da equipa da "Ferrugem", como Sold.Mec Auto Rodas, pois foi ele que, na verdade, me deu a boleia desde Boleiros-Fátima, até à casa da minha irmã, junto à Repsol na Banática- Monte da Caparica, após o convívio deste ano. Em seu lugar, nomeei o Cabo Oliveira, também da "Ferrugem", como tendo-me dado essa boleia, o que não corresponde à verdade!... Fica assim reposta a verdade dos factos e reitero aos dois, em especial ao Porfírio Gonçalves, o meu pedido de desculpas e uma vez mais, manifesto o meu agradecimento. Um abraço para os dois e, (quem sabe?!...) até ao próximo convívio em Arganil.
Botelho
P.S. - Deixo aqui um antigo ditado que diz : "Errar é humano", mas eu acrescento mais: "Errar é humano, mas persistir no erro, é "burrice"!..."
Botelho
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
Convívio CArt.3514, em 18/09/10, Boleiros-Fátima
Caros Amigos e Camaradas “Panteras Negras”:
À semelhança do anterior convívio, cá estou de novo para vos apresentar a todos, mas em especial aos ausentes , uma simples mas, ao mesmo tempo, completa descrição do que foi a celebração do 6º.Convívio comemorativo do 36º.Aniversário do regresso à Metrópole da CArt 3514(Panteras Negras).
A minha presença neste Convívio, neste ano, esteve em causa, devido às minhas dificuldades de saúde!...Mas, a verdade é que, apesar dos meus 73(quase 74 anos de idade) e dos mais variados óbices que se me apresentam no campo da saúde, nem assim deixaram de me empurrar para o Continente Português, deixando para trás a tranquilidade e sossego da minha terra, para me aproximar dos meus camaradas que, neste desafio jogam em casa, o que na verdade não acontece comigo pelo que, neste aspecto, estão em vantagem perante a minha situação. Mas, a razão por que estou aqui hoje, é muito diversa da que vos estou a transmitir neste momento!...
Mas ainda assim, não quero deixar de vos lembrar que para me aproximar de vós, tive que voar 3400 Km(ida e volta), para poder estar presente junto de vós!...Mas, prossigamos!...
O Convívio deste ano, como é sabido por todos, foi realizado sob a liderança do nosso Camarada António Carvalho e comemorou, como disse acima, o 36º.Aniversário da Chegada aos nossos Lares, desde o nosso regresso da RMAngola e foi o 6º.Evento Comemorativo de tal data. Para mim foi o 2º. e fiquei de tal modo “viciado” nessas comemorações que, nem as dificuldades próprias da minha saúde me impediram de estar presente de novo junto de vós.
O local escolhido para tal comemoração é também do conhecimento de todos: Fátima, o Altar do Mundo!...Num dos parques foi feita a concentração e aí, já se começaram a contactar, à medida que chegavam, os aderentes ao convívio, antigos e estreantes. A grande maioria eram repetentes nestas andanças!...Naturalmente trocaram-se os abraços e cumprimentos entusiásticos da praxe!...Mas, surgem novidades: Algumas caras novas estreantes. Não os menciono, porque sei que alguém se encarregará disso e acrescentará outros pormenores que, aqui e agora, não referirei. Após completada a concentração , como era natural e como gesto de agradecimento à Virgem Maria pela protecção que a todos nos ofereceu enquanto pernanecemos em África, foi o convívio iniciado por uma visita ao Santuário, sua residência na Cova da Iria, em plena Serra d’Aire, no limite sul da Beira Litoral.
De seguida, organizou-se uma caravana auto tendo como guia o organizador do evento que, após uma dezena de quilómetros, se tanto, introduziu no parque privativo do Complexo Turístico D.Nuno, todos os elementos da caravana. De seguida foi todo o pessoal encaminhado para um vasto “buffet”, carregado da maior variedade de aperitivos típicos da zona e que, só eles, chegavam para uma completa refeição.
Terminados que foram os aperitivos, foi o pessoal encaminhado para uma vasta sala de jantar, onde lhes foi servido um almoço, optimamente composto de uma sopa, um prato de peixe(bacalhau) seguido dum prato de carne(bifes), tudo optimamente apresentado, tudo isto acompanhado de bebidas à discrição(Vinhos branco e tinto, sumos, água, à escolha e opção de cada um). Seguidamente, foi servida uma sobremesa, capaz de matar um diabético, mas que, a mim, não fez mal algum, apesar de a ter comido toda. Arrematou tudo isto um cafezinho.
Por volta das 18H00, é-nos posta novamente a mesa, com uma refeição, composta de sopa(caldo verde) e um segundo prato com uns bifes excepcionalmente saborosos. Por volta das l9H00 é servido o bolo de aniversário com o respectivo espumante. Por volta das 20H30, estava terminado o convívio e os convivas começaram, lentamente, a dispersar
Tudo foi optimamente organizado, com um serviço modelar e irrepreensível.
Sem querer fazer comparações com anteriores convívios, de que também gostei, neste apenas faltou a animação musical que teve o anterior. Apesar disso, gostei muito deste e do ambiente mais intimista e tranquilo que permitiu uma boa comunicação e conversações com os comensais mais próximos o que não seria possível se houvesse presente na sala de refeições o ruído agressivo de uma orquestra ou conjunto musical. Foi tudo mais tranquilo e com um óptimo ambiente.
Ao Promotor do Convívio deste ano, apresento os meus parabéns pelo excelente desempenho da missão de que foi encarregado. Quero ainda manifestar-lhe o meu profundo reconhecimento e gratidão pelo apoio e atenções com que me cumulou, desde a minha chegada a Lisboa, até à minha despedida. Quero também aqui manifestar o meu agradecimento ao Oliveira mecânico e familiares a “boleia” que me facultaram, deste Fátima, até à casa da minha irmã, junto à REPSOL, na Banática.(Monte da Caparica).
Não quero alongar mais este “post” que já saiu dos limites.Termino enviando cordiais saudações aos restantes colaboradores deste blogue e familiares, assim como para todos os “Panteras Negras” e seus familiares e ainda aos eventuais visitantes em qualquer parte em que se encontrem.
Um abração para todos do camarada e amigo,
Botelho
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
A Caminho das Terras do Fim do Mundo (5)
Ali no Lufuta, naquelas paragens inóspitas da savana africana, havia uma importante preocupação diária, a que já, anteriormente, nos referimos - a segurança. A hipótese de um ataque ao acampamento não era ficção e não podia nunca ser encarada com leviandade. Erro seria admitir o contrário, mesmo sabendo que isso não acontecera com o grupo de combate que nos antecedeu da Caç3370. Pensando em tudo isto, pediu-se à TECNIL, cuja nossa principal função era dar protecção ao seu pessoal e maquinaria, para nos protegerem o acampamento e os seus "bungalows" erguendo uma barreira de areias e laterites com, mais ou menos, metro e meio de altura, circundando todo o acampamento que, assim, nos passaria a garantir uma confortável segurança no caso de acontecer um "aperto" inesperado. Apesar de parecer que estávamos mais protegidos, nunca se baixou a "guarda" e todos levavam isso a sério, como ficou comprovado certa vez e se demonstra com o episódio que de seguida passo a narrar:

" BUNGALOWS"
Cerca de um mês a mês e meio após a nossa chegada, uma secção de pessoal foi dar protecção a uma máquina bate-estacas que procedia à execução dos pilares daquela que seria a nova ponte do Lufuta na via de ligação Luso/Gago Coutinho. Como se tornava necessária presença diurna e nocturna, lá se tiveram de instalar dois dos "bungalows" que nos haveriam de acompanhar por toda a parte desde o primeiro ao último dia. Também aí, a segurança era a palavra de ordem mais importante. Com pouco tempo de Leste, estávamos todos a sofrer os primeiros efeitos do famoso cacimbo(*). Para nós os militares, o cacimbo, transformava-se num vírus benigno umas vezes outras nem tanto, mas que nos imunizava contra tudo e contra todos . Este vírus, já na época, era muito democrático, porque atacava toda a gente independentemente da sua patente, todos ficavam cacimbados(**). Uma certa tardinha, em que algo correu mal pelos lados da cozinha, se assim se podia chamar àquilo sem correr o risco de insultar os cozinheiros, em face da precariedade dos meios, aconteceu que o jantar, que deveria estar pronto por volta das 17.00 horas, só lá por volta das 20.00 é que seria dado por concluído. Ora, a secção que estava destacada na ponte acima referida, e que vulgarmente tinha a "janta" aí pelas cinco ou cinco e meia, sentiram-se esquecidos. Aí pelas 19.30, com tudo silencioso calmo e tranquilo, ouve-se o estrondo de uma granada que colocou tudo em "alerta vermelho". Todos imaginaram:
"O pessoal do destacamento está a ser atacado!".
Em breves momentos o pessoal da força "Delta One" , da qual eu também fazia parte - assim os designo por nela incluir o Maurício Ribeiro - mandou instalar segurança no acampamento e, armados até aos dentes, partiram pela berma da chana, em certos sítios, "tira pé, mete pé", fez em poucos minutos uma aproximação ao destacamento, que ainda distava aí uns bons mil metros ou mais do acampamento. Lá chegados, verificámos que estava tudo dentro da normalidade e “dentro dos conformes”, como diria o nosso amigo Odorico, promotor do cemitério de Sucupira, artista de outras telenovelas muito posteriores a este episódio.
Verificada a normalidade, a questão que permanecia, era o que realmente teria acontecido. Quando o Maurício, tal e qual como os outros - sujos, molhados, cheios de lama e porque não dizê-lo cheios de "coragem miudinha" - perguntaram ao Raul Sousa, o que se tinha passado para ele ter lançado uma granada, ele com a maior das calmas e descontracção, apanágio que sempre o acompanhou durante toda a comissão, mesmo nos momentos mais difíceis, respondeu: - Então, estamos cheios de fome, e o rancho, não veio!!!
- Oh pá, não brinques, mas a granada não é só para ser lançada em último recurso?
- Pois!...E achas que, sem tacho, sem rádio e às oito da noite, não foi mesmo em último recurso?!
Perante a resposta tão rápida, desconcertante e vista a esta distância, com plena justificação, foi gargalhada geral e tudo acabou ali mesmo.
Por agora, ficamos por aqui, mas a nossa história nas margens do Lufuta ainda não acaba com este episódio.
Em especial, a todos os camaradas que fizeram parte do 4º Grupo, e, em geral, a toda a família Panteras Negras, um grande abraço.
Até Fátima.
(*) "cacimbo" – nevoeiro denso que se forma à noitinha e de madrugada em alguns pontos de quase toda a África, acompanhada de chuva miudinha e fria, muito prejudicial para a saúde dos que a ela se expõem sem a devida protecção. Ocorre na época seca tropical(Inverno).
(**) " cacimbado" - em gíria militar era uma "doença psicológica benigna" de que quase todos os militares padeciam, aí dos dois meses de comissão em diante, cuja única consequência era a de ficarem "passados dos carretos".
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
IN MEMORIAM de Joaquim Pedro Faustino Ricardo
Nasceu: 29JUN50 * Faleceu a 23AGO72
Nascido no Lugar de Chanca, na freguesia de Sobral da Abelheira, no Concelho de Mafra, Joaquim Pedro Faustino Ricardo, foi 1º.Cabo de Artilharia, mobilizado pelo extinto RAL Nº3, de Évora, integrado nos efectivos da CArt 3514 que, em 02ABR72( Domingo de Páscoa) , foi transportada em avião TAM de Lisboa para a então RMA e, seguidamente, encaminhada para o Leste de Angola (sub-sector de Gago Coutinho, actual Lumbala Nguimbo, província de Moxico).
Ainda mal tínhamos aquecido o lugar aonde nos colocaram quando, após pouco mais de um mês decorrido sobre a nossa chegada à zona que nos foi atribuída, começámos logo a ser perseguidos pelo azar, tendo falecido por acidente (afogamento) o primeiro camarada nosso!... Mas este já foi lembrado em devido tempo e, por isso, não falaremos dele neste “post”.
Ainda mal tínhamos ultrapassado o primeiro contratempo quando, passado pouco mais de três meses, somos novamente visitados pelo azar (*). Estava a sede da CArt.3514 em Gago Coutinho, quando, subitamente, chega à Secretaria a infausta notícia de que, naquele dia (23AGO72), tinha falecido, em acidente de viação, que lhe originou a morte quase instantânea, o nosso Camarada 1ºCabo de Artª. Joaquim Pedro Faustino Ricardo, do 2ºGC, que estava no Destacamento do Rio Luce, situado na Estrada Gago Coutinho/Ninda. (Tinha apenas 22 anos, cumpridos há 52 dias!...)
O efeito de uma notícia destas, assim de improviso, é desastroso no ânimo das pessoas que as recebem, mas estas têem que reagir pois vão ter pela frente uma carga de trabalho que devem levar a bom termo, para correr tudo pelo melhor e como deve ser. Tinham que ser comunicadas aos órgãos respectivos da Administração de Pessoal essas ocorrências, que seriam confirmadas por uma segunda comunicação e, posteriormente, accionados os mecanismos necessários para a recolha dos bens pessoais do falecido, tratar da documentação necessária para a liquidação de vencimentos, tratar de subsídios de funeral e trasladação do mesmo para junto da família, etc., etc.!...
Mas esta história já é demais conhecida de toda a gente e, por essa razão, iremos ocupar-nos de outros temas, como por exemplo, o recordar, o reviver, não a tragédia, mas sim a pessoa a que nos queremos referir e começamos por apresentar no início: O 1º.Cabo Joaquim Pedro Faustino Ricardo, do 2º.GC/CArt 3514 e, pela nossa parte temos a dizer que conhecia o seu nome, tal como conhecia o nome de todos os componentes da Companhia, uma vez que, nos diversos registos que nela haviam, como sejam os de vencimentos e alimentação e que eram renovados mensalmente e escriturados diariamente, mas não passava disso e podemos dizer que dele só tínhamos um conhecimento digamos que “burocrático” e “administrativo”!... Tínhamos também o conhecimento de que tinha bom comportamento militar e disciplinar e que era de trato educado e acessível para com os superiores, camaradas e inferiores. “Boa Praça” ,como se costumava dizer no “calão” militar, acerca de todos aqueles que tinham comportamento semelhante.
Face ao acima exposto, pouco mais haverá a dizer e o que se disser será dirigido ao Cabo Ricardo a quem, por este meio quero dizer que, “ onde quer que estejas, a tua memória estará sempre presente, sejam em que condições forem e onde estiverem presentes qualquer um dos teus velhos Camaradas “Panteras Negras”!......Digo-te mais: “Podes ter a certeza de que enquanto viver um destes teus Camaradas, a tua memória viverá tanto quanto o último deles viver!...
Um dia, certamente, nos encontraremos!...Até lá”!...
Para toda a família “Panteras Negras”, cordiais saudações do Camarada, Botelho
domingo, 8 de agosto de 2010
Boca do dia "Rotação para BA9 - Luanda"
"Non comment" Amigo Arlindo desta não te lembravas, muito menos daquela boca do dia sobre a BA9
Carvalhito,
Carvalhito,
Aqui te envio as fotos que o "Elisio" Soares me deu para te mandar, as que o Oliveira me deu, e uma minha, do dia do meu aniversário (26/6/73), e as cartas que recebi em teu nome, após a tua partida. Novidades de cá: O Soares (furriel) e o Soares (enfermeiro) estiveram hospitalizados, por irem na Berliett do Pires que rebentou uma mina AC entre o Mukoy e o Luathe no dia ?/7/73. Ninguém se feriu muito, o "Cacimbo" levou sete pontos abaixo da vista esquerda e fêz um corte na cabeça..!! O Soares levou quatro pontos numa perna..!! Foi o "Baptismo". O Soares já deve estar no Açores, arrancou a 1- 8. Sem mais, um abraço do Pelotão e dum modo especial, deste teu amigo, Arlindo ,8.8.73
Boca do dia "Rotação para BA9 - Luanda"
domingo, 1 de agosto de 2010
A Caminho das "Terras do Fim do Mundo" (4)
Tenho a certeza que, todos nós, quando escrevemos ou fazemos um comentário sobre qualquer “post” que publicamos no blogue, procuramos relatar os acontecimentos verídicos. Todavia, esses episódios foram passados há quase 40 anos e, por isso, não se pretende com o que fica escrito, fazer uma tradução exacta dos acontecimentos reais, mas sim uma descrição com excertos dos factos mais relevantes e porque não, mais humorísticos também, que retivemos na memória, desse período marcante das nossas vidas.
Depois desta ressalva, vou tentar prosseguir com a promessa de continuar a descrição da "odisseia" que, foi a nossa ida e volta às Terras do Fim do Mundo .
Chegados ao Lufuta, depois das "tretas" burocráticas de substituição do pelotão da CCaç3370, ali sediado, ficamos entregues à nossa sina!... A nossa principal missão era a de dar protecção às máquinas da TECNIL, empresa empenhada nas várias frentes de trabalhos da construção da via de ligação Luso/Gago Coutinho/Ninda, e que, naquele local, fazia a extracção de “laterites”(*), que eram utilizadas para a consolidação e compactação das areias e servir de base ao alcatrão na via que então se construía.
O local, no aspecto paisagístico, até não era feio!... Ficava numa pequena elevação de terreno, num outeiro sobranceiro à "chana"(**) e ao rio que dava o nome ao local - Rio Lufuta. Mas era medonha a situação em que ficámos!... Meia dúzia de barracas, que se pretendiam ocultar nas últimas árvores da mata ou nas primeiras, conforme o ângulo de apreciação escolhido, sem protecção de espécie alguma.
Depois desta ressalva, vou tentar prosseguir com a promessa de continuar a descrição da "odisseia" que, foi a nossa ida e volta às Terras do Fim do Mundo .
Chegados ao Lufuta, depois das "tretas" burocráticas de substituição do pelotão da CCaç3370, ali sediado, ficamos entregues à nossa sina!... A nossa principal missão era a de dar protecção às máquinas da TECNIL, empresa empenhada nas várias frentes de trabalhos da construção da via de ligação Luso/Gago Coutinho/Ninda, e que, naquele local, fazia a extracção de “laterites”(*), que eram utilizadas para a consolidação e compactação das areias e servir de base ao alcatrão na via que então se construía.
O local, no aspecto paisagístico, até não era feio!... Ficava numa pequena elevação de terreno, num outeiro sobranceiro à "chana"(**) e ao rio que dava o nome ao local - Rio Lufuta. Mas era medonha a situação em que ficámos!... Meia dúzia de barracas, que se pretendiam ocultar nas últimas árvores da mata ou nas primeiras, conforme o ângulo de apreciação escolhido, sem protecção de espécie alguma.
Destacamento do Lufuta
Bem!...Existiam uns pseudo-abrigos cavados no chão, à volta do acampamento, onde caberiam duas pessoas com muito boa vontade, e que me pareceram, em primeira análise, quase que como umas covas, não com sete palmos de fundo(!!!), mas aí com três, no máximo!... Mal nos sentimos sós, começou a remoer em mim o tão propalado instinto de conservação. Algo que nos faz inventar as melhores maneiras de salvarmos a pele, quando algo nos ameaça a integridade física e psicológica.
Eu nunca tinha testado o meu e não estava nada, mesmo nada, interessado em que isso acontecesse, daí achar que os ditos abrigos, não serviam para nada!... Mas, passado algum tempo, verifiquei estar completamente enganado!...
Eu nunca tinha testado o meu e não estava nada, mesmo nada, interessado em que isso acontecesse, daí achar que os ditos abrigos, não serviam para nada!... Mas, passado algum tempo, verifiquei estar completamente enganado!...
Era frequente ouvir, nas conversas de quem já tinha ido à guerra, que os nossos "amigos do IN", sempre que os maçaricos chegavam, gostavam de lhes apalpar o pulso e conforme a sua reacção, se esta fosse brava e destemida ou mole e medrosa, assim os respeitariam ou chateariam durante todo o tempo. Eu, esperava a todo o momento por essa situação, que felizmente, para sorte da CArt 3514, nunca aconteceu!... Mas como “cautela e caldos de galinha” nunca fizeram mal a ninguém, a situação em que se vivia era, essencialmente, de alerta constante e que subia de nível durante a noite.
Tinham sido dadas ordens severas às sentinelas, pelo Comandante do 4º.Grupo, de que, em caso de verificarem qualquer anormalidade, não fosse feito fogo com a G3, porque isso só denunciaria a sua posição e, por isso, ficariam na situação fácil de um alvo a abater. Em caso de necessidade, deveriam lançar uma granada das ofensivas que serviria para alertar todo o nosso efectivo e permitiria que o pessoal saltasse para os ditos abrigos. Isto era repetido até à exaustão e era, mais ou menos, cumprido por toda a gente.
Uma bela noite, aí pelas 23:00 horas,( em África, anoitecia cerca das 17:00 horas e o crepúsculo do alvorecer era por volta das 04:30 horas) no Lufuta, a essa hora, os que não estavam de sentinela, já faziam meia-noite como é usual dizer-se. Pois meus amigos, e os do 4º Grupo de certeza que não esqueceram, inopinadamente, ouve-se o rebentamento de uma granada!!! Eu que ainda, nessa mesma noite, antes de adormecer tinha dito ao Alferes Maurício Ribeiro, nosso Comandante de Grupo, que a partir deste momento não mais tratarei pelo posto hierárquico dessa época, mas sim por Maurício, porque foi assim que sempre o tratei, dada a nossa grande amizade e o facto da tropa ter acabado no momento do desembarque, mas dizia-lhe eu: - Um dia destes os "gajos" vem aí fazer um festival!...
Adormeci com isto no pensamento, pelo que quando ouvi o estrondo do rebentamento, saltei como uma mola e, de arma em punho, fui parar ao abrigo que me era destinado e que ficava por trás da barraca. Não sei se cheguei primeiro se depois do Maurício, mas que cheguei depressa isso cheguei tal era o "cagaço" miudinho que me percorria a "espinha" e com a real convicção de que quem tem "o dito cujo" tem medo!... Bem!...Esperámos uns breves minutos e como nada mais se registasse (além do silêncio da mata, cheio de pequenos barulhos próprios da fauna das savanas africanas e que com o hábito, já não é barulho mas melodia), verificámos que não havia nada e que tudo fora um falso alarme!... Qualquer animal que se tinha aproximado e feito barulho, provocando aquela reacção à sentinela, que devia estar com tanta "coragem" como qualquer um de nós. Eu pelo menos estou a confessar a minha, daquele momento. Sempre soube lidar com os meus medos, mas não tinha nem nunca tive pretensões de ser herói. Agora estava lá para defender caro a minha pele e a do nosso pessoal. O facto de não querer ser herói nunca fez de mim cobarde.
Antes de mandar desmobilizar o pessoal, fomos ver como tinha sido a sua reacção e como este se tinham comportado e abrigado!!!...
Aí, então verifiquei, que os tais abrigos de que falei atrás tinham a sua função e eram efectivamente "bem dimensionados", isto porque nas tais "covas" couberam, em algumas delas, quatro elementos e podem crer que não haveria bala, se o acto tivesse sido real, que lhes tocasse!... Bem, isto apesar de ser uma narração, se for feita, toda de uma vez é maçadora e enfadonha, e por isso e por agora, fico-me por aqui, na certeza de que voltarei para contar mais um ou dois "episódios" que se passaram no Lufuta, local que, apesar de tudo, teve o seu encanto!!!
Um abraço a todos os elementos, que como eu, fazem parte da família "Panteras Negras". Vemo-nos em Fátima .
Tinham sido dadas ordens severas às sentinelas, pelo Comandante do 4º.Grupo, de que, em caso de verificarem qualquer anormalidade, não fosse feito fogo com a G3, porque isso só denunciaria a sua posição e, por isso, ficariam na situação fácil de um alvo a abater. Em caso de necessidade, deveriam lançar uma granada das ofensivas que serviria para alertar todo o nosso efectivo e permitiria que o pessoal saltasse para os ditos abrigos. Isto era repetido até à exaustão e era, mais ou menos, cumprido por toda a gente.
Uma bela noite, aí pelas 23:00 horas,( em África, anoitecia cerca das 17:00 horas e o crepúsculo do alvorecer era por volta das 04:30 horas) no Lufuta, a essa hora, os que não estavam de sentinela, já faziam meia-noite como é usual dizer-se. Pois meus amigos, e os do 4º Grupo de certeza que não esqueceram, inopinadamente, ouve-se o rebentamento de uma granada!!! Eu que ainda, nessa mesma noite, antes de adormecer tinha dito ao Alferes Maurício Ribeiro, nosso Comandante de Grupo, que a partir deste momento não mais tratarei pelo posto hierárquico dessa época, mas sim por Maurício, porque foi assim que sempre o tratei, dada a nossa grande amizade e o facto da tropa ter acabado no momento do desembarque, mas dizia-lhe eu: - Um dia destes os "gajos" vem aí fazer um festival!...
Adormeci com isto no pensamento, pelo que quando ouvi o estrondo do rebentamento, saltei como uma mola e, de arma em punho, fui parar ao abrigo que me era destinado e que ficava por trás da barraca. Não sei se cheguei primeiro se depois do Maurício, mas que cheguei depressa isso cheguei tal era o "cagaço" miudinho que me percorria a "espinha" e com a real convicção de que quem tem "o dito cujo" tem medo!... Bem!...Esperámos uns breves minutos e como nada mais se registasse (além do silêncio da mata, cheio de pequenos barulhos próprios da fauna das savanas africanas e que com o hábito, já não é barulho mas melodia), verificámos que não havia nada e que tudo fora um falso alarme!... Qualquer animal que se tinha aproximado e feito barulho, provocando aquela reacção à sentinela, que devia estar com tanta "coragem" como qualquer um de nós. Eu pelo menos estou a confessar a minha, daquele momento. Sempre soube lidar com os meus medos, mas não tinha nem nunca tive pretensões de ser herói. Agora estava lá para defender caro a minha pele e a do nosso pessoal. O facto de não querer ser herói nunca fez de mim cobarde.
Antes de mandar desmobilizar o pessoal, fomos ver como tinha sido a sua reacção e como este se tinham comportado e abrigado!!!...
Aí, então verifiquei, que os tais abrigos de que falei atrás tinham a sua função e eram efectivamente "bem dimensionados", isto porque nas tais "covas" couberam, em algumas delas, quatro elementos e podem crer que não haveria bala, se o acto tivesse sido real, que lhes tocasse!... Bem, isto apesar de ser uma narração, se for feita, toda de uma vez é maçadora e enfadonha, e por isso e por agora, fico-me por aqui, na certeza de que voltarei para contar mais um ou dois "episódios" que se passaram no Lufuta, local que, apesar de tudo, teve o seu encanto!!!
![]() |
| Na esplanada do Lufuta; Raul Sousa, Nauricio e Monteiro |
(*)”laterites” – rocha das regiões tropicais, formada essencialmente por hidróxidos de ferro e alumínio, em regra com concreções pisolíticas (em forma de ervilhas).
(**)”chana” – Grande planície alagadiça, do tipo “lezíria”, alagada ou seca, conforme a estação do ano(molhada ,com a subida de nível dos rios, na época chuvosa e seca na estação “seca”).
(**)”chana” – Grande planície alagadiça, do tipo “lezíria”, alagada ou seca, conforme a estação do ano(molhada ,com a subida de nível dos rios, na época chuvosa e seca na estação “seca”).
sexta-feira, 30 de julho de 2010
36º Aniversário - 5º Convivio
Camaradas coube-me a missão de organizar esta nossa festa de convívio, que eu gostaria muito de ter feito em Torres Novas, mas com Fátima aqui tão perto, optei por fazer o Ponto de Encontro neste local de grande simbolismo, naquela época depois da nossa partida para África, era hábito as famílias, mesmo as menos crentes, fazerem as suas promessas, peregrinações e pedidos, em nome de todos nós e em minha casa também não enjeitaram, guardando ainda hoje religiosamente uma pequenina medalha com a imagem da santisssima, enviada pela minha mãe, adquirida e benzida no santuário.
Comemorámos este ano o 36º aniversário, a 23 de Julho data da nossa chegada a Portugal depois de 842 dias de comissão nas Terras do Fim do Mundo em Angola, é bom não esquecer, pois há por ai muita boa gente com memória curta.
um abraço
Carvalho
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