o0o A Companhia de Artilharia 3514 foi formada/mobilizada no Regimento de Artilharia Ligeira Nº 3 em Évora no dia 13 de Setembro de 1971, fez o IAO na zona de Valverde/Mitra em Dezembro desse ano o0o Embarcou para Angola no dia 2 de Abril de 1972 (Domingo de Páscoa) num Boeing 707 dos Tams e regressou no dia 23 de Julho de 1974, após 842 dias na ZML de Angola, no subsector de Gago Coutinho, Província do Moxico o0o Rendemos a CCAÇ.3370 em Luanguinga em 11 de Abril de 1972 e fomos rendidos pela CCAÇ.4246 na Colina do Nengo em Junho de 1974. Estivemos adidos em 72/73 ao BCav.3862 e em 73/74 ao BArt.6320 oOo O efectivo da Companhia era formada por 1 Capitão Miliciano, 4 Alferes Mil, 2 1º Sargentos do QP, 15 Furriéis Mil, 44 1º Cabos, 106 Soldados, num total de 172 Homens, entre os quais 125 Continentais, 43 Cabo-Verdianos e 4 Açorianos» oOo

sábado, 25 de setembro de 2010

Rectificação ao "post" anterior

Caros Camaradas e Amigos:
Após uma posterior revisão do "post" que antecede e de que fui autor, verifiquei ter cometido um lapso de que, desde já peço desculpas ao Camarada Carlos Porfírio Gonçalves que, na CArt 3514, fazia parte da equipa da "Ferrugem", como Sold.Mec Auto Rodas, pois foi ele que, na verdade, me deu a boleia desde Boleiros-Fátima, até à casa da minha irmã, junto à Repsol na Banática- Monte da Caparica, após o convívio deste ano. Em seu lugar, nomeei o Cabo Oliveira, também da "Ferrugem", como tendo-me dado essa boleia, o que não corresponde à verdade!... Fica assim reposta a verdade dos factos e reitero aos dois, em especial ao Porfírio Gonçalves, o meu pedido de desculpas e uma vez mais, manifesto o meu agradecimento. Um abraço para os dois e, (quem sabe?!...) até ao próximo convívio em Arganil.
Botelho
P.S. - Deixo aqui um antigo ditado que diz : "Errar é humano", mas eu acrescento mais: "Errar é humano, mas persistir no erro, é "burrice"!..."
Botelho

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Convívio CArt.3514, em 18/09/10, Boleiros-Fátima


Caros Amigos e Camaradas “Panteras Negras”:
À semelhança do anterior convívio, cá estou de novo para vos apresentar a todos, mas em especial aos ausentes , uma simples mas, ao mesmo tempo, completa descrição do que foi a celebração do 6º.Convívio comemorativo do 36º.Aniversário do regresso à Metrópole da CArt 3514(Panteras Negras).
A minha presença neste Convívio, neste ano, esteve em causa, devido às minhas dificuldades de saúde!...Mas, a verdade é que, apesar dos meus 73(quase 74 anos de idade) e dos mais variados óbices que se me apresentam no campo da saúde, nem assim deixaram de me empurrar para o Continente Português, deixando para trás a tranquilidade e sossego da minha terra, para me aproximar dos meus camaradas que, neste desafio jogam em casa, o que na verdade não acontece comigo pelo que, neste aspecto, estão em vantagem perante a minha situação. Mas, a razão por que estou aqui hoje, é muito diversa da que vos estou a transmitir neste momento!...
Mas ainda assim, não quero deixar de vos lembrar que para me aproximar de vós, tive que voar 3400 Km(ida e volta), para poder estar presente junto de vós!...Mas, prossigamos!...
O Convívio deste ano, como é sabido por todos, foi realizado sob a liderança do nosso Camarada António Carvalho e comemorou, como disse acima, o 36º.Aniversário da Chegada aos nossos Lares, desde o nosso regresso da RMAngola e foi o 6º.Evento Comemorativo de tal data. Para mim foi o 2º. e fiquei de tal modo “viciado” nessas comemorações que, nem as dificuldades próprias da minha saúde me impediram de estar presente de novo junto de vós.
O local escolhido para tal comemoração é também do conhecimento de todos: Fátima, o Altar do Mundo!...Num dos parques foi feita a concentração e aí, já se começaram a contactar, à medida que chegavam, os aderentes ao convívio, antigos e estreantes. A grande maioria eram repetentes nestas andanças!...Naturalmente trocaram-se os abraços e cumprimentos entusiásticos da praxe!...Mas, surgem novidades: Algumas caras novas estreantes. Não os menciono, porque sei que alguém se encarregará disso e acrescentará outros pormenores que, aqui e agora, não referirei. Após completada a concentração , como era natural e como gesto de agradecimento à Virgem Maria pela protecção que a todos nos ofereceu enquanto pernanecemos em África, foi o convívio iniciado por uma visita ao Santuário, sua residência na Cova da Iria, em plena Serra d’Aire, no limite sul da Beira Litoral.
De seguida, organizou-se uma caravana auto tendo como guia o organizador do evento que, após uma dezena de quilómetros, se tanto, introduziu no parque privativo do Complexo Turístico D.Nuno, todos os elementos da caravana. De seguida foi todo o pessoal encaminhado para um vasto “buffet”, carregado da maior variedade de aperitivos típicos da zona e que, só eles, chegavam para uma completa refeição.
Terminados que foram os aperitivos, foi o pessoal encaminhado para uma vasta sala de jantar, onde lhes foi servido um almoço, optimamente composto de uma sopa, um prato de peixe(bacalhau) seguido dum prato de carne(bifes), tudo optimamente apresentado, tudo isto acompanhado de bebidas à discrição(Vinhos branco e tinto, sumos, água, à escolha e opção de cada um). Seguidamente, foi servida uma sobremesa, capaz de matar um diabético, mas que, a mim, não fez mal algum, apesar de a ter comido toda. Arrematou tudo isto um cafezinho.
Por volta das 18H00, é-nos posta novamente a mesa, com uma refeição, composta de sopa(caldo verde) e um segundo prato com uns bifes excepcionalmente saborosos. Por volta das l9H00 é servido o bolo de aniversário com o respectivo espumante. Por volta das 20H30, estava terminado o convívio e os convivas começaram, lentamente, a dispersar
Tudo foi optimamente organizado, com um serviço modelar e irrepreensível.
Sem querer fazer comparações com anteriores convívios, de que também gostei, neste apenas faltou a animação musical que teve o anterior. Apesar disso, gostei muito deste e do ambiente mais intimista e tranquilo que permitiu uma boa comunicação e conversações com os comensais mais próximos o que não seria possível se houvesse presente na sala de refeições o ruído agressivo de uma orquestra ou conjunto musical. Foi tudo mais tranquilo e com um óptimo ambiente.
Ao Promotor do Convívio deste ano, apresento os meus parabéns pelo excelente desempenho da missão de que foi encarregado. Quero ainda manifestar-lhe o meu profundo reconhecimento e gratidão pelo apoio e atenções com que me cumulou, desde a minha chegada a Lisboa, até à minha despedida. Quero também aqui manifestar o meu agradecimento ao Oliveira mecânico e familiares a “boleia” que me facultaram, deste Fátima, até à casa da minha irmã, junto à REPSOL, na Banática.(Monte da Caparica).
Não quero alongar mais este “post” que já saiu dos limites.Termino enviando cordiais saudações aos restantes colaboradores deste blogue e familiares, assim como para todos os “Panteras Negras” e seus familiares e ainda aos eventuais visitantes em qualquer parte em que se encontrem.
Um abração para todos do camarada e amigo,
Botelho

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

A Caminho das Terras do Fim do Mundo (5)

Ali no Lufuta, naquelas paragens inóspitas da savana africana, havia uma importante preocupação diária, a que já, anteriormente, nos referimos - a segurança. A hipótese de um ataque ao acampamento não era ficção e não podia nunca ser encarada com leviandade. Erro seria admitir o contrário, mesmo sabendo que isso não acontecera com o grupo de combate que nos antecedeu da Caç3370. Pensando em tudo isto, pediu-se à TECNIL, cuja nossa principal função era dar protecção ao seu pessoal e maquinaria, para nos protegerem o acampamento e os seus "bungalows" erguendo uma barreira de areias e laterites com, mais ou menos, metro e meio de altura, circundando todo o acampamento que, assim, nos passaria a garantir uma confortável segurança no caso de acontecer um "aperto" inesperado. Apesar de parecer que estávamos mais protegidos, nunca se baixou a "guarda" e todos levavam isso a sério, como ficou comprovado certa vez e se demonstra com o episódio que de seguida passo a narrar:
" BUNGALOWS"
Cerca de um mês a mês e meio após a nossa chegada, uma secção de pessoal foi dar protecção a uma máquina bate-estacas que procedia à execução dos pilares daquela que seria a nova ponte do Lufuta na via de ligação Luso/Gago Coutinho. Como se tornava necessária presença diurna e nocturna, lá se tiveram de instalar dois dos "bungalows" que nos haveriam de acompanhar por toda a parte desde o primeiro ao último dia. Também aí, a segurança era a palavra de ordem mais importante. Com pouco tempo de Leste, estávamos todos a sofrer os primeiros efeitos do famoso cacimbo(*). Para nós os militares, o cacimbo, transformava-se num vírus benigno umas vezes outras nem tanto, mas que nos imunizava contra tudo e contra todos . Este vírus, já na época, era muito democrático, porque atacava toda a gente independentemente da sua patente, todos ficavam cacimbados(**). Uma certa tardinha, em que algo correu mal pelos lados da cozinha, se assim se podia chamar àquilo sem correr o risco de insultar os cozinheiros, em face da precariedade dos meios, aconteceu que o jantar, que deveria estar pronto por volta das 17.00 horas, só lá por volta das 20.00 é que seria dado por concluído. Ora, a secção que estava destacada na ponte acima referida, e que vulgarmente tinha a "janta" aí pelas cinco ou cinco e meia, sentiram-se esquecidos. Aí pelas 19.30, com tudo silencioso calmo e tranquilo, ouve-se o estrondo de uma granada que colocou tudo em "alerta vermelho". Todos imaginaram:
"O pessoal do destacamento está a ser atacado!".
Em breves momentos o pessoal da força "Delta One" , da qual eu também fazia parte - assim os designo por nela incluir o Maurício Ribeiro - mandou instalar segurança no acampamento e, armados até aos dentes, partiram pela berma da chana, em certos sítios, "tira pé, mete pé", fez em poucos minutos uma aproximação ao destacamento, que ainda distava aí uns bons mil metros ou mais do acampamento. Lá chegados, verificámos que estava tudo dentro da normalidade e “dentro dos conformes”, como diria o nosso amigo Odorico, promotor do cemitério de Sucupira, artista de outras telenovelas muito posteriores a este episódio.
Verificada a normalidade, a questão que permanecia, era o que realmente teria acontecido. Quando o Maurício, tal e qual como os outros - sujos, molhados, cheios de lama e porque não dizê-lo cheios de "coragem miudinha" - perguntaram ao Raul Sousa, o que se tinha passado para ele ter lançado uma granada, ele com a maior das calmas e descontracção, apanágio que sempre o acompanhou durante toda a comissão, mesmo nos momentos mais difíceis, respondeu: - Então, estamos cheios de fome, e o rancho, não veio!!!
- Oh pá, não brinques, mas a granada não é só para ser lançada em último recurso?
- Pois!...E achas que, sem tacho, sem rádio e às oito da noite, não foi mesmo em último recurso?!
Perante a resposta tão rápida, desconcertante e vista a esta distância, com plena justificação, foi gargalhada geral e tudo acabou ali mesmo.
Por agora, ficamos por aqui, mas a nossa história nas margens do Lufuta ainda não acaba com este episódio.
Em especial, a todos os camaradas que fizeram parte do 4º Grupo, e, em geral, a toda a família Panteras Negras, um grande abraço.
Até Fátima.

(*) "cacimbo" – nevoeiro denso que se forma à noitinha e de madrugada em alguns pontos de quase toda a África, acompanhada de chuva miudinha e fria, muito prejudicial para a saúde dos que a ela se expõem sem a devida protecção. Ocorre na época seca tropical(Inverno).

(**) " cacimbado" - em gíria militar era uma "doença psicológica benigna" de que quase todos os militares padeciam, aí dos dois meses de comissão em diante, cuja única consequência era a de ficarem "passados dos carretos".

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

IN MEMORIAM de Joaquim Pedro Faustino Ricardo

1º.Cabo Artª - CArt 3514
Nasceu: 29JUN50 * Faleceu a 23AGO72
Nascido no Lugar de Chanca, na freguesia de Sobral da Abelheira, no Concelho de Mafra, Joaquim Pedro Faustino Ricardo, foi 1º.Cabo de Artilharia, mobilizado pelo extinto RAL Nº3, de Évora, integrado nos efectivos da CArt 3514 que, em 02ABR72( Domingo de Páscoa) , foi transportada em avião TAM de Lisboa para a então RMA e, seguidamente, encaminhada para o Leste de Angola (sub-sector de Gago Coutinho, actual Lumbala Nguimbo, província de Moxico).
Ainda mal tínhamos aquecido o lugar aonde nos colocaram quando, após pouco mais de um mês decorrido sobre a nossa chegada à zona que nos foi atribuída, começámos logo a ser perseguidos pelo azar, tendo falecido por acidente (afogamento) o primeiro camarada nosso!... Mas este já foi lembrado em devido tempo e, por isso, não falaremos dele neste “post”.
Ainda mal tínhamos ultrapassado o primeiro contratempo quando, passado pouco mais de três meses, somos novamente visitados pelo azar (*). Estava a sede da CArt.3514 em Gago Coutinho, quando, subitamente, chega à Secretaria a infausta notícia de que, naquele dia (23AGO72), tinha falecido, em acidente de viação, que lhe originou a morte quase instantânea, o nosso Camarada 1ºCabo de Artª. Joaquim Pedro Faustino Ricardo, do 2ºGC, que estava no Destacamento do Rio Luce, situado na Estrada Gago Coutinho/Ninda. (Tinha apenas 22 anos, cumpridos há 52 dias!...)
O efeito de uma notícia destas, assim de improviso, é desastroso no ânimo das pessoas que as recebem, mas estas têem que reagir pois vão ter pela frente uma carga de trabalho que devem levar a bom termo, para correr tudo pelo melhor e como deve ser. Tinham que ser comunicadas aos órgãos respectivos da Administração de Pessoal essas ocorrências, que seriam confirmadas por uma segunda comunicação e, posteriormente, accionados os mecanismos necessários para a recolha dos bens pessoais do falecido, tratar da documentação necessária para a liquidação de vencimentos, tratar de subsídios de funeral e trasladação do mesmo para junto da família, etc., etc.!...
Mas esta história já é demais conhecida de toda a gente e, por essa razão, iremos ocupar-nos de outros temas, como por exemplo, o recordar, o reviver, não a tragédia, mas sim a pessoa a que nos queremos referir e começamos por apresentar no início: O 1º.Cabo Joaquim Pedro Faustino Ricardo, do 2º.GC/CArt 3514 e, pela nossa parte temos a dizer que conhecia o seu nome, tal como conhecia o nome de todos os componentes da Companhia, uma vez que, nos diversos registos que nela haviam, como sejam os de vencimentos e alimentação e que eram renovados mensalmente e escriturados diariamente, mas não passava disso e podemos dizer que dele só tínhamos um conhecimento digamos que “burocrático” e “administrativo”!... Tínhamos também o conhecimento de que tinha bom comportamento militar e disciplinar e que era de trato educado e acessível para com os superiores, camaradas e inferiores. “Boa Praça” ,como se costumava dizer no “calão” militar, acerca de todos aqueles que tinham comportamento semelhante.
Face ao acima exposto, pouco mais haverá a dizer e o que se disser será dirigido ao Cabo Ricardo a quem, por este meio quero dizer que, “ onde quer que estejas, a tua memória estará sempre presente, sejam em que condições forem e onde estiverem presentes qualquer um dos teus velhos Camaradas “Panteras Negras”!......Digo-te mais: “Podes ter a certeza de que enquanto viver um destes teus Camaradas, a tua memória viverá tanto quanto o último deles viver!...
Um dia, certamente, nos encontraremos!...Até lá”!...
Para toda a família “Panteras Negras”, cordiais saudações do Camarada, Botelho

domingo, 8 de agosto de 2010

Boca do dia "Rotação para BA9 - Luanda"

"Non comment" Amigo Arlindo desta não te lembravas, muito menos daquela boca do dia sobre a BA9

Carvalhito,
Aqui te envio as fotos que o "Elisio" Soares me deu para te mandar, as que o Oliveira me deu, e uma minha, do dia do meu aniversário (26/6/73), e as cartas que recebi em teu nome, após a tua partida. Novidades de cá: O Soares (furriel) e o Soares (enfermeiro) estiveram hospitalizados, por irem na Berliett do Pires que rebentou uma mina AC entre o Mukoy e o Luathe no dia ?/7/73. Ninguém se feriu muito, o "Cacimbo" levou sete pontos abaixo da vista esquerda e fêz um corte na cabeça..!! O Soares levou quatro pontos numa perna..!! Foi o "Baptismo". O Soares já deve estar no Açores, arrancou a 1- 8. Sem mais, um abraço do Pelotão e dum modo especial, deste teu amigo, Arlindo ,8.8.73
Boca do dia "Rotação para BA9 - Luanda"

domingo, 1 de agosto de 2010

A Caminho das "Terras do Fim do Mundo" (4)

Tenho a certeza que, todos nós, quando escrevemos ou fazemos um comentário sobre qualquer “post” que publicamos no blogue, procuramos relatar os acontecimentos verídicos. Todavia, esses episódios foram passados há quase 40 anos e, por isso, não se pretende com o que fica escrito, fazer uma tradução exacta dos acontecimentos reais, mas sim uma descrição com excertos dos factos mais relevantes e porque não, mais humorísticos também, que retivemos na memória, desse período marcante das nossas vidas.
Depois desta ressalva, vou tentar prosseguir com a promessa de continuar a descrição da "odisseia" que, foi a nossa ida e volta às Terras do Fim do Mundo .
Chegados ao Lufuta, depois das "tretas" burocráticas de substituição do pelotão da CCaç3370, ali sediado, ficamos entregues à nossa sina!... A nossa principal missão era a de dar protecção às máquinas da TECNIL, empresa empenhada nas várias frentes de trabalhos da construção da via de ligação Luso/Gago Coutinho/Ninda, e que, naquele local, fazia a extracção de “laterites”(*), que eram utilizadas para a consolidação e compactação das areias e servir de base ao alcatrão na via que então se construía.
O local, no aspecto paisagístico, até não era feio!... Ficava numa pequena elevação de terreno, num outeiro sobranceiro à "chana"(**) e ao rio que dava o nome ao local - Rio Lufuta. Mas era medonha a situação em que ficámos!... Meia dúzia de barracas, que se pretendiam ocultar nas últimas árvores da mata ou nas primeiras, conforme o ângulo de apreciação escolhido, sem protecção de espécie alguma.
Destacamento do Lufuta
Bem!...Existiam uns pseudo-abrigos cavados no chão, à volta do acampamento, onde caberiam duas pessoas com muito boa vontade, e que me pareceram, em primeira análise, quase que como umas covas, não com sete palmos de fundo(!!!), mas aí com três, no máximo!... Mal nos sentimos sós, começou a remoer em mim o tão propalado instinto de conservação. Algo que nos faz inventar as melhores maneiras de salvarmos a pele, quando algo nos ameaça a integridade física e psicológica.
Eu nunca tinha testado o meu e não estava nada, mesmo nada, interessado em que isso acontecesse, daí achar que os ditos abrigos, não serviam para nada!... Mas, passado algum tempo, verifiquei estar completamente enganado!...
Era frequente ouvir, nas conversas de quem já tinha ido à guerra, que os nossos "amigos do IN", sempre que os maçaricos chegavam, gostavam de lhes apalpar o pulso e conforme a sua reacção, se esta fosse brava e destemida ou mole e medrosa, assim os respeitariam ou chateariam durante todo o tempo. Eu, esperava a todo o momento por essa situação, que felizmente, para sorte da CArt 3514, nunca aconteceu!... Mas como “cautela e caldos de galinha” nunca fizeram mal a ninguém, a situação em que se vivia era, essencialmente, de alerta constante e que subia de nível durante a noite.
Tinham sido dadas ordens severas às sentinelas, pelo Comandante do 4º.Grupo, de que, em caso de verificarem qualquer anormalidade, não fosse feito fogo com a G3, porque isso só denunciaria a sua posição e, por isso, ficariam na situação fácil de um alvo a abater. Em caso de necessidade, deveriam lançar uma granada das ofensivas que serviria para alertar todo o nosso efectivo e permitiria que o pessoal saltasse para os ditos abrigos. Isto era repetido até à exaustão e era, mais ou menos, cumprido por toda a gente.
Uma bela noite, aí pelas 23:00 horas,( em África, anoitecia cerca das 17:00 horas e o crepúsculo do alvorecer era por volta das 04:30 horas) no Lufuta, a essa hora, os que não estavam de sentinela, já faziam meia-noite como é usual dizer-se. Pois meus amigos, e os do 4º Grupo de certeza que não esqueceram, inopinadamente, ouve-se o rebentamento de uma granada!!! Eu que ainda, nessa mesma noite, antes de adormecer tinha dito ao Alferes Maurício Ribeiro, nosso Comandante de Grupo, que a partir deste momento não mais tratarei pelo posto hierárquico dessa época, mas sim por Maurício, porque foi assim que sempre o tratei, dada a nossa grande amizade e o facto da tropa ter acabado no momento do desembarque, mas dizia-lhe eu: - Um dia destes os "gajos" vem aí fazer um festival!...
Adormeci com isto no pensamento, pelo que quando ouvi o estrondo do rebentamento, saltei como uma mola e, de arma em punho, fui parar ao abrigo que me era destinado e que ficava por trás da barraca. Não sei se cheguei primeiro se depois do Maurício, mas que cheguei depressa isso cheguei tal era o "cagaço" miudinho que me percorria a "espinha" e com a real convicção de que quem tem "o dito cujo" tem medo!... Bem!...Esperámos uns breves minutos e como nada mais se registasse (além do silêncio da mata, cheio de pequenos barulhos próprios da fauna das savanas africanas e que com o hábito, já não é barulho mas melodia), verificámos que não havia nada e que tudo fora um falso alarme!... Qualquer animal que se tinha aproximado e feito barulho, provocando aquela reacção à sentinela, que devia estar com tanta "coragem" como qualquer um de nós. Eu pelo menos estou a confessar a minha, daquele momento. Sempre soube lidar com os meus medos, mas não tinha nem nunca tive pretensões de ser herói. Agora estava lá para defender caro a minha pele e a do nosso pessoal. O facto de não querer ser herói nunca fez de mim cobarde.
Antes de mandar desmobilizar o pessoal, fomos ver como tinha sido a sua reacção e como este se tinham comportado e abrigado!!!...
Aí, então verifiquei, que os tais abrigos de que falei atrás tinham a sua função e eram efectivamente "bem dimensionados", isto porque nas tais "covas" couberam, em algumas delas, quatro elementos e podem crer que não haveria bala, se o acto tivesse sido real, que lhes tocasse!... Bem, isto apesar de ser uma narração, se for feita, toda de uma vez é maçadora e enfadonha, e por isso e por agora, fico-me por aqui, na certeza de que voltarei para contar mais um ou dois "episódios" que se passaram no Lufuta, local que, apesar de tudo, teve o seu encanto!!!
Na esplanada do Lufuta; Raul Sousa, Nauricio e Monteiro
Um abraço a todos os elementos, que como eu, fazem parte da família "Panteras Negras". Vemo-nos em Fátima .
(*)”laterites” – rocha das regiões tropicais, formada essencialmente por hidróxidos de ferro e alumínio, em regra com concreções pisolíticas (em forma de ervilhas).
(**)”chana” – Grande planície alagadiça, do tipo “lezíria”, alagada ou seca, conforme a estação do ano(molhada ,com a subida de nível dos rios, na época chuvosa e seca na estação “seca”).

sexta-feira, 30 de julho de 2010

36º Aniversário - 5º Convivio


Camaradas coube-me a missão de organizar esta nossa festa de convívio, que eu gostaria muito de ter feito em Torres Novas, mas com Fátima  aqui tão perto, optei por fazer o Ponto de Encontro neste local de grande simbolismo, naquela época depois da nossa partida para África, era hábito as famílias, mesmo as menos crentes, fazerem as suas promessas, peregrinações e pedidos, em nome de todos nós e em minha casa também não enjeitaram, guardando ainda hoje religiosamente uma pequenina medalha com a imagem da santisssima, enviada pela minha mãe, adquirida e benzida no santuário.
 Comemorámos este ano o 36º aniversário, a 23 de Julho data da  nossa chegada a Portugal depois de 842 dias de comissão nas Terras do Fim do Mundo em Angola, é bom não esquecer, pois há por ai muita boa gente com memória curta.
um abraço
Carvalho

domingo, 25 de julho de 2010

Memórias do Nengo (3)

Caros Camaradas e Amigos "Panteras Negras":
Após cerca de um mês de ausência deste local de confraternização e renovação de laços de camaradagem, deu-me uma vontade irreprimível de voltar ao vosso convívio para renovar esta salutar convivência , através deste meio que, à falta de melhor, serve perfeitamente para o fim em vista. Para além disso, serve também este contacto para recordarmos e revivermos em conjunto, certas pessoas e factos ocorridos já há umas bem preenchidas três décadas que bem próximas estão de serem quatro!... Tanto é assim que, às vezes ponho-me a pensar nisso e digo cá para mim:- "Parece impossível já ter passado tanto tempo sobre estes acontecimentos!..." Pois é assim mesmo, uma vez que tenho a sensação de que não se passaram há tanto tempo quanto o que, de facto, já se passou!...É um facto sabido por toda a gente que o tempo se esgota com tal velocidade, semelhante àquela com que se escoa por entre os nossos dedos, um punhado de areia seca que apanhamos num areal!...E quanto mais quisermos segurar e agarrar a areia, mais depressa ela se escapa da nossa mão!... Mas isto está a descambar para a filosofia e não é essa a minha intenção!...
Recordar!...Viver!... É essa sim, a minha idéia inicial e é isso o que, de facto, me proponho fazer.
E então, comecemos: Este meu "post" pretende localizar-nos num lugar concreto e definido como é aquele que a fotografia que anexo documenta expressamente: Local: Sede da CArt 3514, no Nengo, especificamente, à porta de acesso à Secretaria, meu local habitual de trabalho naquela época. A data, francamente, não sei precisá-la em concreto, mas poderei dizer sem errar que deve estar abrangida entre os anos 72/74, uma vez que a areia no chão não está nada compactada, as plantas do jardim ou são muito novas ou já estão em segunda cultura, a caixa do correio ainda não está colocada ao lado da porta e mais ainda, a cor das peles dos figurantes ainda não estão muito "queimadas" e todos estes sinais apontam ,quase que de certeza, para o ano de 72, nos primeiros dias da chegada do Comando ao Nengo!... Mas se houver qualquer outro elemento da CArt que tenha opinião diversa da minha não tenho qualquer objecção a fazer e aceitarei, de boa vontade, uma outra opinião, pois não tenho pretensões de dogmatismo sobre seja que assunto for!... Continuando com o tema da foto, o meu acompanhante é de todos sobejamente conhecido, mas, por causa das dúvidas e porque às vezes, nunca se sabe!...(Bem!...Estou a brincar!...) Quem não se lembra do meu "braço direito", do meu "Escriba", do nosso Carrusca!Se bem que, é claro, está bastante diferente do actual, pois este tem menos cabelo e mais barriga!...O daquele tempo, o que aí está, tem mais aspecto de "esparguete!...Bem!...Espero que ele não fique "danado" comigo por esta "brincadeira", pois isto não passa disso mesmo!...
Parece que estou a entusiasmar-me com a escrita e quase a exceder os limites que se impõem e a correr o risco de me tornar excessivamente pesado e maçador o que não é, de facto, a minha intenção.
Por isso encerro este meu arrazoado, enviando cordiais saudações para os colaboradores deste Blogue e familiares, todos os "Panteras Negras" e familiares e ainda aos eventuais visitantes, onde quer que se encontrem.
Finalmente, um até breve com um abraço para todos do Camarada e Amigo, Botelho

terça-feira, 20 de julho de 2010

A Malta vai "Ressuscitando"

Joaquim da Cruz Pimenta
1ºCabo, Mec. de Armamento.
Há dias falei para Olhão, com o Manuel José Oliveira (Mec.) para saber o telefone do Venâncio do Carmo, para surpresa minha acabei a falar com o Milo que andava ajudando o Oliveira numa obra em sua casa, palavra puxa palavra acabei por saber noticias do Pimenta. No dia seguinte um telefonema, do outro lado o inconfundível algarvio de Estói, que já era para ter participado no ano passado, mas um problema nas pernas, a que foi operado recentemente com sucesso, impediu a sua presença, este ano com as coisas a correrem melhor, está motivado para nos fazer companhia em Setembro. Envia um grande abraço a todos os antigos camaradas e a promessa de tudo fazer para não faltar.   
Adeus até ao meu regresso

sábado, 17 de julho de 2010

Terra do Cacimbo 19/7/73

Há dias cometi um lapso num comentário a um "post" do Botelho sobre a data e local da foto que  ilustrava o artigo. Depois duma pesquisa, deduzo que a razão das malas de porão novas naquela data, Fevereiro ou Março de 73, eram o pronúncio de uma mudança, tantas vezes anunciada num dia e adiada no outro, estória que esteve em cena  mais de seis meses, até chegarmos á conclusão que nunca tinha passado duma miragem no deserto, mas isso já lá vai há muito tempo, é dor passada, perdoada mas não esquecida. Vasculhando a minha correspondência da época, Março de 73, encontrei uma alusão ás ditas malas, mas também uma ilusão em relação á rotação, que passo a citar "Fui  hoje a Gago Coutinho comprar uma mala forrada a chapa, mas são muito fraquinhas, e já não consegui o tamanho grande, tive de trazer o médio pois a malta da companhia, andaram para esgotar a loja do Sr. Aníbal, por causa da rotação lá para Maio, se calhar ainda saímos primeiro que o Albino Félix (PAD.2285), vamos a ver se isto não se atrasa pois já marquei as férias  para a 2ª semana de Julho com o Carrilho".
Encontrei também esta carta em anexo, recebida em minha casa quando estava de férias, enviada pelo Elisio Soares, com umas fotos do aniversário do Arlindo de Sousa, e algumas noticias maliciosas do quotidiano na Colina do Nengo, que retratam o pensamento generalizado sobre um tema sempre dúbio e mal contado até aos dias de hoje.
Adeus até ao meu regresso

segunda-feira, 12 de julho de 2010

O éPe..!!

Lembram-se desta..!
João Medeiros
Estava eu num dos meus dias de não fazer nada, que foram muitos, fui assistir a uma das primeiras aulas para adultos para os que não sabiam ler ou se sabiam não tinham a escolaridade obrigatória. Os professores eram o António Soares (Furriel) e o Pinheiro (1º Cabo).
Ensinavam eles naquele dia o mais elementar, o Alfabeto, que foi soletrado pelo Soares e ficaria à conta do Pinheiro a repetição.
Ensinava o Soares da maneira mais simples eu explico: Dizia o Soares A e eles (alunos) repetiam A, B eles B ………………………………, F eles F …………… ,J eles J, L eles L, M eles M,  N eles N, O eles O, P eles P, e assim sucessivamente, quando o Soares acaba, diz então o Pinheiro. Oh Furriel isso hoje já não se diz assim, o Soares não era de muitos palavrões e tinha uma paciência de santo disse, então diz lá como é.
Eu debruçado do lado de fora do refeitório, fiquei atento a ver o que é que saía dali. Então diz o Pinheiro, repitam comigo: A eles A, B eles B, assim sucessivamente até começar as novidades, éFe eles éFe, G eles G ……………., I eles I, Jota eles Jota, Kapa eles Kapa, éLe eles éLe, éMe eles éMe, éNe eles éNe, O eles O, éPe onde devia ser P.
Neste momento percebemos que alguma coisa estava mal, sem sabermos o que era, levanta o Soares os braços como seu costume, Eh Pá pára aí repete isso outra vez, e o Pinheiro olhou para ele com o seu sorriso importante e repetiu como a provar que o Soares não percebia nada de português. O Soares como era e é, chamou por ele à parte e esteve a explicar ao Pinheiro como se devia soletrar o Alfabeto para iniciados corrigindo-lhe o erro do éPe.
Entretanto os supostos analfabetos aperceberam-se do que se tinha passado e arranjaram uma alcunha ao nosso Amigo Pinheiro que passou a ser chamado entre dentes como éPe. Tinha de ser entre dentes porque ele não era de pôr água a pintos.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

A caminho das “Terras do Fim do Mundo”(3)

Caros camaradas e amigos:
Calma!... Não vai sair nenhum discurso político!... É só a continuação da "odisseia" que me propus narrar e para a qual, com o passar do tempo, verifico não ter jeito, temeridade, nem inspiração. Mas com a vossa paciência e alguma ousadia da minha parte, talvez consiga, pois de vez em quando dá-me a saudade e a nostalgia daquela época e tento voltar ao tema que é nada mais nada menos do que - A Caminho das Terras do Fim do Mundo.
Da última vez, tínhamos ficado no Luvuei, uma terra isolada no meio do nada.
Não só naquele dia, mas ao longo de toda a nossa permanência nas Terras do Fim do Mundo, fiquei com a certeza de que, se fosse possível balizar a zona do Inferno, da Guerra e da sua filha primogénita, a Morte, essas barreiras teriam de ficar entre o Luvuei e o Lutembo. E isto porque foi nessa zona que uma Companhia de Comandos, teve o seu maior número de baixas, foi nessa zona que, numa operação de lançamento de Comandos heli-transportados, o helí-canhão, pilotado por um capitão foi abatido, tendo o capitão, segundo julgo, perecido no acidente. Foi também nessa zona que, ao longo dos vinte e sete meses que estivemos para Sul, se verificaram os maiores "berbicachos" provocados pelo IN, como dizíamos naquela época.
Mas voltando à nossa caminhada rumo ao nosso destino – LUANGUINGA!...
Antes de partirmos do Luvuei, apesar de maçarico que era, em conversa com os "furriéis mais velhinhos", indaguei de como seria a zona e do que iríamos encontrar até ao nosso destino. Aí, levei o "baile" mais selecto que um "velhinho" poderá dar a um "mike".
Normalmente nestas conversas era da “praxe” cada um fazer render a sua valentia, caracterizando sempre a sua zona como a de maior perigo. Se lá estou e estou vivo sou um valente, digno de admiração. Mas não, ali passou-se precisamente o contrário!... Os meus "distintos" amigos, que tão bem me receberam, disseram-me que aquela zona, embora não fosse nenhum paraíso terrestre, não era má de todo. Por ali nunca tinham tido problemas de maior e tudo estava a decorrer sem problemas!... Era uma questão de deixar passar o tempo. Mas... Há sempre um “mas”!... Aqui há dias, disseram-me eles, ali junto à “Casa Branca"…(local que assim se chamava por ali ter existido uma casa com essa cor, cujas ruínas eram ainda bem visíveis. Nunca soube, nem procurei saber o porquê desta dita casa naquele local tão inóspito, na margem da picada)
Esclarecendo o “mas” a que me referi acima, aquele tinha a ver com uma "pequena mina", (na mensagem que queriam passar), que no local citado, tinha rebentado, num dos últimos MVL semanais naquele itinerário (Luso/Gago Coutinho), mas que fora motivo de preocupação!... Eram coisas que, de vez em quando, aconteciam e até não tinha causado estragos de maior...
As coisas ditas assim desta maneira, deram-me um certo alívio, sossegaram e tranquilizaram o meu medo e nervoso miudinho. O pior, foi quando lá chegámos!!! Dado que a viatura em que eu seguia não era das primeiras, vi que a metade da coluna que seguia à minha frente margeava a picada à qual regressava mais à frente. Curioso esperei para lá chegar e ver o que se passava!... A tal mina pequenita, tinha pura e simplesmente aberto uma cratera a toda a largura da picada!!!
Aí, os ditos cujos, que também podem ser frutos da planta solanácea, cujos frutos vermelhos tem aplicações culinárias e que em linguagem militar tem vários epítetos, caíram-me ao chão!.... Se aquela tinha sido das pequeninas e inofensivas, o que seria quando fosse uma a sério e daquelas que eu tinha já visto em Tancos, no meu curso de minas e armadilhas!...
Dali até Luanguinga, emudeci e decerto que era visível o meu "bom humor", dado o que me ia na cabeça e do qual não podia fugir.
Todavia, não há tempestade sem bonança. Depois de um dia extenuante quer moral quer fisicamente, quando nos preparávamos para dormir a primeira noite em plenas Terras do Fim do Mundo, eu, que continuava meditabundo e sem sono, ouvi a seguinte conversa entre dois furriéis, amigos de infortúnio ou talvez não!!!...
Dizia o primeiro, que tinha sido pai pouco antes de sairmos do "puto"(*), com uma voz cheia de pesar e saudade, como era natural depois de ver o buraco onde caímos:
- Dava tudo o que tenho, para poder estar agora junto da minha mulher e do meu filho/a!...
Rapidamente, responde-lhe o camarada do lado:
- Aproveita e dá-me um cigarro, que os meus já acabaram há muito.
Provavelmente que os dois intervenientes, já não se lembram disto, mas eu nunca mais esqueci aquela piada de fim de dia, do dia em que dobramos o nosso cabo "Bojador", que me fez rir e me ajudou a adormecer lá pela noite fora.
Por agora, como isto já se torna muito longo e fastidioso, vou aproveitar para sair de cena, não esquecendo de enviar saudações e um abraço a todos os camaradas e amigos(as) que já fazem parte da família "Panteras Negras".
Em Fátima encontramo-nos...
(*) "puto" - Portugal em linguagem indígena.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Memórias do Nengo (2)

Lendo eu memórias do Nengo e olhando a fotografia do Botelho e a seguir lendo o comentário do Carvalho não concordo com algumas coisas. Vou ver se vos coloco no tempo.
A foto do Botelho foi tirada no Quimbo dos mecânicos, e o camarada ao lado não me lembro o nome dele.
Quanto ao comentário do Carvalho, não está correcto apesar da sua perspicácia aos pormenores.
Junto uma fotografia do meu espólio para verem que todos os pormenores de uma são iguais aos da outra, ( ferro de engomar, as mesmas malas, a roupa dependurada, posição da cama ) só que os actores são outros, eu e o Gonçalves mecânico, em 17/02/1973.
Quanto a outros dois pormenores, as botas limpinhas e espelhadas, o Botelho sempre foi assim, o bigode quando nos viemos embora o Botelho não tinha bigode, mas estes pormenores ninguém melhor do que ele para tirar as dúvidas.
1 de Julho de 2010
João  Medeiros

terça-feira, 29 de junho de 2010

Memórias do Nengo (Leste de Angola)

Na imagem Pedro do PAD.2285 e Octávio Botelho no Kimbo dos metralhas (mecãnicos) em Fevereiro de 73
 
Para não faltar à minha palavra e à promessa que fiz de, mensalmente, estar presente neste Blogue, dando como que uma “prova de vida”, que, felizmente e apesar da saúde não ser das melhores, muitos há, por este mundo que estão em muito piores condições que eu e, a continuar como à presente data, poderei, salvo caso de extrema força maior, garantir a minha presença no nosso convívio, no mês de Setembro próximo, em Fátima.
Como disse acima, a saúde vai rotineiramente suportável e se assim continuar, terei razões para dar graças a Deus por isso. Mas a razão principal que me leva a contactar convosco por este meio, é a de transmitir uma qualquer imagem evocativa dos tempos passados nas remotas e tão distantes plagas do Leste de Angola, que vós, mais do que eu, palmilhastes com bastante suor, sacrifício e ,quem sabe, com algumas lágrimas de saudade à mistura!... Sim, não é vergonha confessá-lo e poder-se-á dizer que quem diz que tal lhe não aconteceu, mente descaradamente!...
Mas, como não estou aqui para recordar episódios verdadeiros, mas tristes, vou voltar-me para o motivo que me levou a elaborar este texto de fraca literatura e, desculpem-me, farei o possível por levá-lo a bom termo e satisfatóriamente.
Assim, depois de ir vasculhar as minhas já velhas fotos, com uns 36 anos de idade(como o tempo passa!...) Parece-me que foi há muito pouco tempo, mas é um facto incontestável, que está muito próxima a 4ª.década sobre a ocorrência das imagens que lá tenho documentadas.
Escolhi uma, ao acaso e ela aqui vai!...É uma foto inédita no Album do nosso Blogue e, por essa mesma razão, foi ela a eleita para servir de ilustração a este “post”. A foto em causa, de que não sei ao certo a data, poderá ser localizada no ano de 1974, feita na camarata dos Furriéis, no Destacamento Séde da Cart 3514, situado na Colina do Nengo e, quer-me parecer que muito próximo do fim da nossa Comissão, pois já se vêem no cenário da mesma os diversos tipos de malas usados no regresso dos contingentes a Lisboa. Dos figurantes na imagem, o primeiro, a contar da esquerda, não me recordo do nome dele, mas suponho que o Camarada Carvalho saiba o nome dele e talvez a sua Unidade. e, se assim for, poderá fazer-me o favorde legendar a foto. O segundo, sou eu próprio, ostentando uma “hipótese” de bigode, único que tive na minha vida. Como eu digo quase sempre, estas imagens despertam-me saudades do tempo em que tinha saúde a rodos e em que, não falando na ausência e privação da convivência dos meus familiares(mulher, filha e sogro, pois este fazia parte do meu agregado familiar), assim como nos riscos que também corria naquele ambiente, não tinha problemas de maior. Saudades também do convívio, camaradagem a amizade que, como de uma família se tratasse, se vivia e sentia na CArt 3514 e que, igualmente, se verificava em todas as Companhias de que fiz parte e que foram três, no período de 1964 a 1974
Acho que este “post” já está a fugir aos limites e estou a ver que tenho que lhe pôr termo. E assim, dou por finda a tarefa que me propuz enviando cordiais saudações aos colaboradores deste Blogue, a todos os Camaradas “Panteras Negras” da CArt 3514 e seus familiares, assim como a todos os eventuais vistantes do mesmo, onde quer que estejam.
Para todos um abraço do Camarada e Amigo, Botelho

segunda-feira, 28 de junho de 2010

"O Beja"

Eu, António Carocinho "o Beja", por vezes tenho o prazer de passar algum tempo a reviver estes momentos passados. Na foto do Pic Nick consegui identificar o nosso colega Lagarto (Bento Filipe Rodrigues Lagarto - o Ficalho) que está em pé de costas entre o numero 2 e o numero 3 da fotografia.
Cumprimentos a todos os meus CAMARADAS! Até Setembro em Fátima! António Carocinho, O Beja (condutor)

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Oh Medeiros, Oh S. Miguel

Oh Medeiros
Oh S. Miguel
Sou eu
Não conseguindo estar presente na ultima confraternização que se realizou no dia 16 de Maio de 2009 em Vila Franca de Xira, venho por este meio dar-vos o meu abraço de desejo de muita saúde para todos vós para que para o ano estejamos todos reunidos em Fátima na data já confirmada 18 de Setembro de 2010.
Não sendo eu inimigo das novas tecnologias também não faço muito uso delas em termos pessoais, por isso estou a escrever para o nosso blogue que só a alguns dias me propus a ler, e me deu alegria em algumas passagens e nostalgia e pesar noutras.
O que eu podia dizer a lembrar os bons e maus momentos que passei convosco está tudo escrito naquilo que li, dando-me uma alegria imensa verificar como vocês escrevem muito bem, o que me põe intimidado com a caneta na mão (para o rascunho).
Vou ver como me comporto a escrever, pois vou contar momentos que alguns de vocês se devem lembrar, não tecendo comentários ao que já foi escrito pois tudo gostei de ler.
Bem Haja a todos vós pelos escritos e fotografias.   
                                                                   
    Ponta Delgada 24 Junho de 2010
  João Medeiros

terça-feira, 22 de junho de 2010

Faleceu Fernando Vicência Carreira



Faleceu no passado mês de Maio, Fernando Vicência Carreira, antigo camarada de armas, do 1º pelotão, barista na messe do Nengo, natural de Famalicão da Nazaré, residente no Canadá á muitos anos, onde ficou sepultado. Á sua Família e Amigos os nossos sinceros sentimentos, uma palavra de conforto e solidariedade neste momento de grande dor e angústia. Os amigos não morrem, ausentam-se, a sua memória  continuará sempre presente. 

sexta-feira, 18 de junho de 2010

“A Grande Via do Leste”,

No inicio dos anos setenta foi aprovada a construção da “Grande Via do Leste”, envolvente da ZMLeste, ligando Malange, Andulo, Silva Porto, Chitembo, Serpa Pinto, Cuito Cuanavale, Mavinga, Neriquinha, Gago Coutinho, Luso, Dala, Henrique de Carvalho, Veríssimo Sarmento e Portugália, numa extensão de 1 800 km. A par deste itinerário delinearam se três penetrantes principais.
Na Lunda, foi traçada uma delas passando por Henrique de Carvalho, Muriege, Nova Chaves e Cassai, à volta de 300 km, fazendo a aproximação a Teixeira de Sousa, onde esta penetrante se encontraria com outras duas grandes vias que eram o rio Cassai e o Caminho de Ferro de Benguela.
 No Moxico, o itinerário Silva Porto, Cangamba, Sessa, Gago Coutinho (700 km), iria rasgar todo o Distrito e seria complementado para o“saliente do Cazombo” por dois itinerários. No Cuando Cubango seria construída a “Via do Cubango”, por Serpa Pinto, Caiundo, Cuangar, Dirico, Mucusso (outros 700 km); a “Via do Cuito”, por Longa, Baixo Longa e Dirico (470 km) e a “Via do Cuando”, por Neriquinha, Rivungo e Luiana (260 km).
Eram 4 000 km previstos de estradas asfaltadas, representando um investimento à época de cerca de 4 milhões de contos. Além deste conjunto o Comando da Zona, com o emprego da Engenharia Militar, procedia à abertura de duas estradas com interesse táctico: Alto Chicapa Cangumbe (120 km) e Umpulo Mumbué (140 km) que acompanhavam a orla anterior da Zona de Guerrilha no Distrito do Bié. Em 1973 estavam a trabalhar no Leste e nestas estradas cinco firmas empreiteiras com a capacidade para a construção total, anual, de 700 km de estradas asfaltadas. Tinham sido concluídas as estradas asfaltadas: Dala Luso, Lucusse Gago Coutinho Ninda e Silva Porto Serpa Pinto.
Uma malha de pistas de aviação, consolidadas, servia a ZMLeste, desde o saliente do Cazombo, Gago Coutinho,  Mavinga e mesmo Luiana, no canto SE do território.
in  Revista Militar

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Pátria "Madrasta"

Soldados Portugueses sepultados em Gago Coutinho, Angola

Leonel Lourenço dos Santos, Sold. Cond, nº 471/61, natural de Marteleira - Lourinhã, mobilizado pelo BC10 no BCAÇ.262/CCaç.268 para RMA, faleceu por afogamento na ZML em 10/08/63, sepultado em G.Coutinho no Talhão Militar, campa nº2.

João António Duro, Sold. At, nº 020677/65, natural de Aguieiras - Mirandela, mobilizado pelo RAC no BART.1864/CArt.1453 para RMA, faleceu em acidente na ZML em 07/03/66, sepultado em G.Coutinho no Talhão Militar, campa nº8A.

Manuel Amaral Costa, 1º Cabo At. Inf, nº 016063/65, natural de Calhetas – Ribeira Grande, Açores, mobilizado pelo BII 18 na CCaç.1521 para RMA, morto em combate na ZML em 11/11/66, sepultado em G.Coutinho no Talhão Militar, campa nº??

João Ferreira Ganhadeiro, Sold. At, nº 069953/65, natural de Povoação – S. Miguel, Açores, mobilizado pelo BII 18 na CCaç.1521 para RMA, morto em combate na ZML em 11/11/66, sepultado em G.Coutinho no Talhão Militar, campa nº??

Manuel José Ferreira, 1º Cabo At. Inf, nº 504/65, natural de Chavões-Tabuaço, mobilizado pelo RAC no BART.1864/CArt.1453 para RMA, morto em combate na ZML em 17/11/66, sepultado em G.Coutinho no Talhão Militar, campa nº??.

Jacinto Vaz Leda, Sold. Cir, nº 2184/64, natural de Tourém-Montalegre, mobilizado pelo RAC no BART.1864/CArt.1453 para RMA, morto em combate na ZML em 17/11/66, sepultado em G.Coutinho no Talhão Militar, campa nº??.

Francisco José Garcia, Sold. Cond, nº 137527/65, natural de Lagoaça - Freixo de Espada à Cinta, mobilizado pelo RAP2 na CArt.792 para RMA, morto em combate na ZML em 17/01/67, sepultado em G.Coutinho no Talhão Militar, campa nº9.

António A.S. Ferreira Cunha, Sold. At, nº 559/65, natural de Celorico de Basto, mobilizado pelo RAC no BART.1864/CArt.1453 para RMA, morto em combate na ZML em 21/01/67, sepultado em G.Coutinho no Talhão Militar, campa nº12.

Joaquim Ferreira Lima, Sold. Ap. Mort, nº 020454/64, natural de Monteiras, Castro Daire, mobilizado pelo RI 5 no Pel.Mort.1034, CArt.1454 para RMA, morto em combate na ZML em 23/01/67, sepultado em G.Coutinho no Talhão Militar, campa nº10.

Aníbal Esteves Macedo, 1º Cabo Ap. Mort, nº 52962/65, natural do Campo, Valongo, mobilizado pelo RI 5 no Pel.Mort.1034/CArt.1454 para RMA, morto em combate na ZML em 23/01/67, sepultado em G.Coutinho no Talhão Militar, campa nº11.

Clementino do Rosário António, 1º Cabo At, nº012336/67, natural de Ladeirinha-Figueiredo, Sertã,  mobilizado pelo RI2 no BCAÇ.1920/CCaç1720 para RMA, morto em combate na ZML em 28/06/68, sepultado em G.Coutinho no Talhão Militar, campa nº 13-2

Foram Jovens como nós que fizeram a viagem da sua vida, uma viagem épica, sem regresso prometido, arrancados abruptamente ao seio das famílias, jovens que na idade dos sonhos, deram o seu melhor, em defesa da Pátria, que com honra e sangue um dia, juraram defender. A gratidão e o apreço devido, por aqueles que todos os dias, exaltavam o dever patriótico na defesa da coesão nacional, foi o desrespeito pelas famílias, a ofensa e a injustiça de deixar ao abandono em terras de além, os melhores filhos, a quem a nação nada deu, mas em sua causa, com valentia e generosidade, sacrificaram a própria vida.
Ao Estado delegaram a responsabilidade de nos levar e trazer vivos..!! Vergonhosamente os mortos, ficavam ao encargo das famílias, não bastava o desgosto, como ainda o pesado fardo que eram obrigados a suportar, depositando uma razoável quantia em dinheiro, para custear a sua transladação, e muitas sentiram na carne a dor e angustia de não poderem resgatar o Pai, o Irmão ou o Filho, como estes heróis, sepultados na antiga vila de Gago Coutinho, na década de 60, desprezados e abandonados, decerto oriundos de agregados sem voz, carenciados e desprotegidos, que não mereciam ser deserdados da terra mãe, que os viu nascer.
Digo desprezados, pois não me lembro, porque nunca houve no 10 de Junho, em dia de finados ou em outra qualquer data de referência, uma simples romagem em sua memória, um qualquer acto de homenagem, exaltação ou louvor de gratidão para com estes camaradas, nunca tivemos conhecimento, nem da autoridade civil, nem da militar, da existência do Talhão Militar no cemitério local, soubemos á pouco tempo e não compreendemos, os silêncios e a ocultação deste facto, ao longo de vinte e oito meses de permanência em Lumbala Nguimbo (antiga vila Gago Coutinho).
Adeus até ao meu regresso

segunda-feira, 7 de junho de 2010

A Malta vai "Ressuscitando"

David Gomes Monteiro do 1º Pelotão na Adega de Chã das Caldeiras na Ilha do Fogo em C.Verde
Quando iniciamos esta pesquisa na procura de antigos camaradas, a quem tínhamos perdido o rasto há muitos anos, nunca imaginámos chegar tão longe, apesar de todos os constrangimentos, mas o conhecimento de algumas localidades de residência, complementados com a boa vontade e disponibilidade das juntas de Freguesia, as listas telefónicas e também a net, foram meios essenciais para localizar uma dúzia de panteras, por estas bandas. Faltavam agora, os companheiros de Cabo Verde, empreitada bem mais complicada, cabendo ao César Correia a localização do Adriano Mendes Teixeira, que migrou para Portugal e onde está estabelecido á muitos anos, havia que tentar chegar mais além, algumas buscas em sites sobre C.Verde, sempre na mira de encontrar, um nome familiar de alguém conhecido, e foi o que sucedeu quando um dia vasculhando um artigo na BBC/ÁFRICA com o titulo “Cabo Verde: Vinho renasce na Adega de Chã das Caldeiras na ilha do Fogo”, de onde eram naturais um grupo de antigos camaradas, uma leitura mais aprofundada, encontro a seguinte frase: “É por entre tonéis de vinho e licores, que o responsável da adega, David Gomes Monteiro, explica à BBC de onde surgiu esta ideia.”
Era possível haver duas pessoas com o mesmo nome, pensei eu, rolando a página encontro uma foto que não me deixou duvidas, tais as parecenças existentes ao cabo de 37 anos, apesar da diferença de idades o David não mudou muito, mostrei a foto ao Araújo Rodrigues e ao Vítor Melo, mas as dúvidas não se dissiparam, para acabar com a suspeição enviei um mail para os serviços comerciais da Adega, na volta o que eu já esperava, a confirmação, este nosso amigo que pertenceu ao 1º grupo, é natural da ilha do Fogo, onde reside e trabalha, é responsável pela feitura do vinho como enólogo na Adega de Chã das Caldeiras.
Ao Rossandro Monteiro Filho, um agradecimento pela disponibilidade, ao David Gomes Monteiro, um abraço em nome de todos os antigos camaradas da Cart3514.
inf. BBC-África.com

terça-feira, 1 de junho de 2010

Uns Chefes Porreiros

De César Correia
No último convívio realizado em Vila Franca de Xira. o nosso camarada e amigo, Fernando Carrusca, responsável pelo sucesso do evento, chamou-me para o acompanhar a uma mesa, apontando para os presentes, disse-me, César olha para esta rapaziada..! Cap. Crisóstomo dos Santos,  Maurício Ribeiro, Rodrigues, Costa e Silva, o nosso 1º Botelho,  Monteiro e Raul de Sousa, é uma mesa especial ou não, é uma maravilha..!
O testemunho que aqui vou deixar, passou-me logo pela memória, sorri de satisfação, mas achei que havia mais camaradas que também tinham sido especiais e era uma injustiça não os nomear, mas era a sua ideia e respeitei-a com o meu silencio.
Na sala estavam também presentes o Parreira,  Diogo,  Silva, Carvalho, Marques,  Duarte e o Barros, lembrei-me também do saudoso António Carrilho, dos ausentes, Brás, Soares, Medeiros, Pereirinha, Arlindo Sousa, e do Ramalhosa, este ultimo um militarão, que nunca nos deixava esquecer a nossa segurança e o que andávamos a fazer; raramente dava baldas, e hoje agradecemos-lhe por isso!... Queria eu na altura dizer a todos vós, eu e todos nós outros em geral, lhe devemos muito, devemos-lhe uma palavra de apreço, considerando que foram todos, chefes e camaradas á altura, cada qual com a sua maneira de estar, de ser, de agir, todos diferentes mas no essencial todos iguais, «como é natural» mas quando as coisas não corriam bem, havia sempre na hora H o amigo, o conselheiro, com a sua palavra, a sua opinião,  mas também algumas  vezes a inevitável repreensão e alguns quartos de sentinela á benfica...!
Todo nosso empenho e camaradagem foi muito útil, voltamos mais crescidos, homens mais maduros, mais tolerantes e respeitadores, mais capazes de encarar as dificuldades da vida, eu por mim falo, e esta opinião deve ser geral,  aprendi muito com todos VÓS!..
Daí a nossa tardia mas merecida homenagem, e o nosso muito obrigado, foram todos uns chefes porreiros.
Até Setembro Camaradas;
um abraço para todos,
César Correia

sábado, 29 de maio de 2010

Estórias d´Angola

Nas férias de 73 acompanhei o Luis, de G. Coutinho no leste de Angola até Lisboa, numa viagem que jamais esquecerei, tantas foram as peripécias ao longo do percurso, a começar no voo semi-clandestino a bordo do Nordatlas até ao Luso via Cazombo, a viagem de comboio, em primeira classe com bilhete de segunda até Nova Lisboa, depois no QG em Luanda, com a cabeleira pelos ombros, foi recambiado para o barbeiro pelo Cap. na secretaria do comando, situações já aqui narradas.
No dia da partida para Lisboa, fomos jantar á ilha, ou á restinga, de boleia no carro do Lehnan com uns Amigos de Évora, era sábado havia muito movimento no final do repasto, atrasados e em cima da hora de embarque, partimos em alta velocidade a caminho do aeroporto, no largo da Maianga entrámos em despiste, provocando um acidente com um motociclista, ficaram a contas com a policia e a nós valeu a boa vontade de um taxista, que conduziu uma dezena de metros por cima do passeio, para sair daquela embrulhada, evitando que ficasse-mos em terra naquela noite.
 Com Lisboa aos nossos pés e para acabar em beleza, uma embalagem de água-de-colónia, “surripiada” no wc, entornou debaixo do nosso banco, quando abandonávamos o avião, a hospedeira com ar de gozo, perguntou se tínhamos tomado banho com lavanda. A viagem não tinha deixado muitas saudades, julgava eu que na volta, as coisas corressem normalmente, mas estava redondamente enganado. Depois de quatro semanas no aconchego da família e amigos, chega o maldito dia, de mais um “adeus até ao meu regresso” , apanhei o comboio depois de almoço, encontrei-me ao fim da tarde com o Luis no Marquês de Pombal, para levantar-mos “o passe de regresso” na agência de viagens, e logo ali as coisas não começaram bem, chateou-me a corneta, para meter na minha mala um embrulho em papel de merceeiro que trazia debaixo do braço, era leve mas volumoso, acabei por ceder, o gajo viajava sempre á Lisboa, com aquela pequena mala de fim de semana, onde mal cabiam três mudas de roupa e eu num contraste total, com aquele malão XXL, bem á moda da província.
Fizemos o check in por volta das 23 horas em Lisboa e aterrámos em Luanda no dia seguinte ás 8 e tal da manhã, não era hábito fiscalizarem os passageiros á chegada, muito menos os militares, mas por qualquer motivo aconteceu, de entre alguma bagagem seleccionada pelo alfandegário, constava a minha para ser revistada, aproximei-me do tapete rolante, abri a mala e uma funcionária aduaneira, meteu as mãos delicadamente por baixo da roupa levantou um pouco, e deu-se o acidente, o embrulho abriu-se e começou a cair para o chão, langerie em fibra sintética, muito fina e escorregadia, de variadas cores, modelos e tamanhos, uma panóplia de roupa interior feminina, a senhora ficou muito atrapalhada e vermelha, olhando para mim, a pedir desculpa e eu no meio da gargalhada geral, dos assobios da plateia, e da confusão gerada, perplexo e envergonhado, viro-me para trás e aponto para o Luis e suplico á senhora, essa embalagem não é minha é daquele meu amigo acolá de jeans e pólo azul, o “sacana” vira a cara ao lado, assobiando, cigarro na mão, caminhando como se nada fosse com ele..!! Ajudei a senhora a refazer o embrulho, peguei na carga e saí porta fora lixado e fd com a cena, encontro o Luis “na maior” á procura dum táxi, arreganhava o beiço de orelha a orelha, mandei-lhe o embrulho para cima, e o gajo volta-se para mim naquela pose cheia de estilo, que só ele era capaz de compor e diz, mantém-te calmo e manso, senão, não ganhas nada com o negócio…!! (A roupa tinha sido comprada na botique C da feira do relógio em Lisboa na manhã da partida para Luanda)
Adeus até ao meu regresso

quarta-feira, 26 de maio de 2010

A Malta vai "Ressuscitando"

Graciano Fernando Simões 3º Gr.
Nos meus contactos com o Victor Melo há muito que sabia da residência e do local de emprego deste camarada antigo 1º cabo do 3º pelotão, mas só agora conseguimos o seu contacto, é condutor profissional numa empresa de camionagem em Aveiro, mora no concelho, nunca participou nos convívios por razões  pessoais pois tinha conhecimento dos eventos através do Melo e  do Santiago Duarte, falei com ele do nosso encontro de Setembro em Fátima, de todos os camaradas que habitualmente comparecem, prometeu que estaria presente para  rever a rapaziada, falei do local da concentração, mas como homem do volante disse conhecer o caminho aos olhos fechados, tantas as vezes que acompanhou e transportou peregrinos  para Fátima, envia um abraço a todos os camaradas com uma mensagem de muita saúde e amizade.
Adeus até ao meu regresso 

sábado, 22 de maio de 2010

Leste de Angola 1972

Leste de Angola 1972
Pois é assim mesmo!...Aqui estou mais uma vez a apresentar mais uma ligeira crónica de algum evento sucedido há uns já longos e distantes 38 anos, em plena zona tropical, no Leste de Angola, mais precisamente, na antigamente designada vila Gago Coutinho, actualmente chamada Lumbala Nguimbo como é sabido de toda a gente. Por essa razão não venho com este meu arrazoado trazer qualquer notícia ou novidade sobre algum acontecimento actual ali ocorrido recentemente, mas sim, recordar acontecimentos passados há já uns bons anos, deixando para outros esses acontecimentos relevantes que são bastante importantes, pois revelam que aqueles lugares, que há anos abandonámos, não ficaram estagnados no tempo e na história e se mantêm vivos e manifestam essa vida e evolução, através de oportunas notícias que nos chegam trazidas por alguém que nos está próximo e se interessa vivamente por esses assuntos e que, por seu intermédio, nos chegam bastante regularmente e nos contagia com o interesse que manifesta por eles.
Mas, voltando ao que tenho no meu intento, estou aqui de novo para reviver episódios antigos e, por isso, como disse acima, situemo-nos na velha Gago Coutinho, pois será ali que irei reviver o passado. A data é imprecisa, mas posso dizer que se situa algures, na segunda metade do ano de 1972, depois de termos saído do Luanguinga, entre os meses de Maio e Setembro daquele ano. É uma época inesquecível, pois nos trouxe dois acontecimentos nefastos para a família “Panteras Negras” e que deixaram marcas indeléveis: Os lamentáveis acidentes que roubaram as vidas aos nossos dois camaradas Ernesto Gomes (07MAI72) e Joaquim Ricardo (23AGO72), num tão curto espaço com pouco mais de três meses de intervalo e ainda com a agravante de ter ocorrido o primeiro, a menos de dois meses do início da comissão. Com todos estes anos de distância, ainda digo comigo mesmo que foi arrasante e muito desmoralizador para toda a Cart 3514. Foi triste, desmoralizador, lamentável mas, a verdade, é que a vida continuou para os restantes “Panteras Negras” e, felizmente e com a ajuda de Deus, não houve mais ocorrências similares a lamentar.
Mas, apesar de tudo o que sucedeu, enquanto estivemos na vila, aproveitávamos para distrair e dar uns passeios pela localidade, visitando as aldeias (quimbos) nativas, apreciando o seu exotismo e o folclore envolvente de tais locais que embora pareçam ser todos idênticos, não o são na realidade e diferem uns dos outros em muitos aspectos, pois estes variam, em muito, de tribo para tribo em pormenores tão pequenos, mas que se distinguem uns dos outros quando atentamente observados. Tanto é assim que um perito em arte indígena é capaz de identificar a origem de qualquer artefacto dessa arte, pela simples observação dos motivos decorativos que os adornam.
Para dar um pouco de carácter a este “post”, aponho esta imagem em que estou envolvido num cenário tipicamente “bunda”, rodeado da vegetação semi-desértica da região, vendo-se ao fundo uma cubata de colmo, com um “quiosque” mobilado com uma espreguiçadeira de repouso, para dormir a “sesta”, à sombra, pois ali, o calor era e é muito e, para dizer a verdade, a minha imagem naquele ambiente, “destoa” bastante e não é muito condizente. Mas, agora, contra isso, nada a fazer e fica assim mesmo que, para memória, está muito bem!...
Este está já um pouco longo e vou ter que terminar, enviando cordiais saudações aos restantes colaboradores e familiares, a todos os elementos da Cart.3514 e respectivos familiares e ainda para os eventuais visitantes deste Blogue, onde quer que se encontrem.
Para todos um abraço do camarada e Amigo,
Botelho

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Efeitos do Cacimbo

Elisio Soares, Cardoso da Silva nas congas, Simplicio Caetano á viola e o "cv" Augusto Silva, no destacamento do Mussuma
Estávamos acampados na pedreira do Nengo e na periferia tinha-se instalado uma pequena aldeia comunitária de trabalhadores indígenas e suas famílias, que laboravam na extracção de inertes, na estação de britagem e na preparação de betuminosos (alcatrão) da Tecnil
Muitos deles recorriam da ajuda sanitária prestada no âmbito da psico, pela tropa ás populações, no tratamento a maleitas diversas e cuidados de saúde, medicamentando dores de cabeça, paludismos, diarreias, constipações e primeiros socorros, envolvendo muitas vezes a necessidade de pequenas cirurgias para suturar ferimentos.
Naquela época a farda de trabalho dos locais era muito rudimentar, uns calções, uma camisa e pouco mais, descalços, cabeça ao léu, mãos desnudadas num trabalho que requeria equipamento de protecção adequado á agressividade dos elementos a manusear.
Todas as manhãs se formava uma fila á porta da tenda e o “cacimbado” que muitas das vezes não tinha medicamentos ou comprimidos adequados a determinadas enfermidades, socorria-se do “melhoral”, não fazia bem nem mal, como ele dizia, havia alturas em que os stocks entravam em rotura, e o “doctor” que também já sofria dos efeitos do cacimbo e do pó da latrite, colava com adesivo meio comprimido na testa do paciente e aconselhava solenemente, se perderes este não levas mais nenhum, mas se piorares volta cá amanhã, foi algumas vezes admoestado por causa destes devaneios e do seu estado de alma, mas era recorrente neste tipo de terapia de vanguarda, pois havia muitos que todos os dias acampavam por ali com uma dorzita qualquer, que na maioria das vezes se resolvia com um simples prato de sopa.
Na imagem o António Dias da Rosa da ilha do Fogo e o Elisio Soares
Uma tarde chegou uma noticia ao acampamento que um grande chefe da ZML acompanhado de pequenos chefes locais, visitaria na manhã seguinte o estaleiro da Tecnil o musseque local e as obras da estrada rodoviária, e o “cacimbado” ficou nervoso por causa das novas técnicas terapêuticas que vinha implementando, teve de lançar á pressa, um boato entre a comunidade indígena, que o medicamento aplicado expirara o prazo de validade, pelo que todos deviam substitui-lo o mais rápido possível, a mensagem de “boca em boca”, chegou a toda a gente num ápice, pelo que todos se apresentaram, para o substituírem por outro placebo, tomado via oral, não fosse o diabo tecê-las, (confissão prestada pelo próprio).
Pior aconteceu depois com o pessoal que trabalhava na pedreira, reduzindo á força da marreta a volumetria dos blocos de rocha, não havia dia nenhum que o “cacimbado” não costurasse um pé, uma canela, ou uma coxa com um corte, infligido por uma lasca de pedra ou um bocado de aço do martelo, estava –se a passar da corneta com a situação, até ao dia que inventou uma solução, apresentada ao encarregado da pedreira, para atenuar os acidentes, ideia brilhante e simples, o pessoal começou a recorrer á casca duma árvore para fazer umas caneleiras, para proteger a perna do pé até á coxa, parecia uma equipa de hóquei, mas resultou em pleno, os incidentes daquele tipo foram reduzidos quase a zero, com os marteleiros a serem proibidos de trabalhar sem protecção nos membros inferiores.
Adeus até ao meu regresso

segunda-feira, 17 de maio de 2010

A Malta vai "Ressuscitando"

Fernando Cabral Ramos, 2º Gr
Este nosso camarada de armas, identificado pelo César Correia o ano passado, mas por contingências da sua vida particular, ainda não teve oportunidade de estar presente em nenhum dos encontros de convívio da companhia, mas na conversa que tivemos prometeu não faltar em Setembro, já está reformado, reside em Lisboa, e enviou a todos os camaradas um grande abraço. 
Adeus até ao meu regresso

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Picnick no Nengo

Na imagem 0- Bélinha, 1-Saramago, 2-Gilberto, 3-Arlindo da Moeda, 4-??, 5-Álvaro de Pina, 6-??, 7-António Carrilho, 8-Manuel Parreira e 9-Fernando Carrusca, estão mais quatro presentes que não consigo reconhecer. (O camarada de costas entre o o 2 e o 3 é o Bento Filipe Lagarto segundo a informação do Beja no comentário afixado em baixo)
    
Há dias ao rever o álbum do Manuel Parreira encontrei esta foto de um picnick, algures no rio Nengo junto á ponte, á sombra dos eucaliptos, não tenho a certeza, apenas o facto de estarmos em Maio e haver o hábito de juntarmos um grupo de amigos, arranjarmos um bom farnel, partirmos em romaria  para o campo, a apanhar a espiga na tarde da quinta-feira de Ascenção.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Os Nossos Cozinheiros

A equipa da cozinha com o Rui Marques dos Santos, Serafim Gonçalves (atirador), Alfredo Pinheiro Paiva, António Escaleira e o António Joaquim Sequeira no destacamento do Mussuma , imagem rara, juntá-los todos na confecção de uma refeição.  

Não foi difícil a adaptação á alimentação, confeccionar para trinta homens, um pequeno almoço e duas refeições diárias, numa cozinha de campanha no meio do mato não era fácil, com meios deficientes e algumas vezes com água racionada, uma dezena de utensílios entre tachos e panelas e uma mesa de apoio, preservar a higiene dos alimentos era complicado, o pó estava sempre presente, apesar do chão ser regado várias vezes na hora da confecção, os insectos e o calor dificultavam o asseio, tudo era impeditivo no começo, mas o tempo ajuda a moldar os preconceitos e nós não fugimos á regra, tudo entrou numa rotina normal, a dispensa funcionava numa tenda de lona onde no pico do calor, atingia os trinta graus com facilidade, detiorando hortaliças e legumes, a carne e o peixe assim que chegavam eram logo arranjados e temperadas para evitar a decomposição, que era um dos maiores problemas, sempre que havia desleixo ou esquecimento.

Cozinha de campanha no destacamento do Lufuta
Os nossos cozinheiros, na hora da chegada com pouca prática, mas muita vontade, evoluíram rapidamente, aperfeiçoando o sabor das sopas, o tempero dos guisados e do frango no churrasco, ao fim de alguns meses, já nos aconchegavam o estômago com alguns petiscos de eleição, quem não se lembra daqueles belos grelhados de palanca e das omoletas ao pequeno almoço, ou as especialidade do Vicêncio Carreira, "aviador" na messe.

Saramago, Aguiar, António Sequeira e Serafim Gonçalves
O 1º Cabo António Escaleira confeccionou quase sempre na cozinha do comando, o Paiva o Santos e o Sequeira faziam a rotação nos acampamentos, mas pelo que tenho analisado (foto acima) havia muitos candidatos, com jeito para cozinhar e também para dar ao dente. Honra seja feita aos nossos camaradas cozinheiros, não me recordo de rejeitar alguma vez uma refeição, reclamei algumas vezes pela falta de qualidade dos produtos, e da repetição do "pirão com peixe" ao jantar, principalmente na época das chuvas, altura em que raramente encontrávamos uma peça de caça, tanto ao longo das picadas como das chanas.

As costeletas de Gunga no churrasco eram uma delicia

Adeus até ao meu regresso