o0o A Companhia de Artilharia 3514 voou para Angola no dia 2 de Abril de 1972 (Domingo de Páscoa) num Boeing 707 dos Tams e regressou no dia 23 de Julho de 1974, após 842 dias na ZML de Angola, no subsector de Gago Coutinho, Provincia do Moxico o0o Rendemos a CCAÇ.3370 em Luanguinga em 11 de Abril de 1972 e fomos rendidos pela CCAÇ.4246 na Colina do Nengo em Junho de 1974. Estivemos adidos ao BCav3862 e depois ao BArt6320 oOo O Efectivo da Companhia era composto por 172 Homens «125 Continentais, 43 Cabo-Verdianos e 4 Açorianos» oOo

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Estórias d´Angola

Retirada Estratégica
No inicio de 73 a desmatação da nova via rodoviária, chegara ás margens Luati, local pouco afamado, pela actividade operacional permanente, vale estreito, mata envolvente muito cerrada, distante de tudo e de todos, onde as comunicações rádio eram difíceis de dia e à noite totalmente nulas, sujeitando-nos a ficar por nossa conta e risco até ao nascer do sol. Escolhemos um local para fazer o acampamento na orla da mata a meia encosta, na descida para o rio, já perto da ponte de madeira existente, numa zona densa com árvores de médio porte que nos protegiam do meio ambiente e do calor o dia inteiro.
O Luati era um corredor de passagem muito referenciado, com alguns trajectos utilizados pela guerrilha na infiltração de armamento e homens, entre as bases na Zâmbia e a floresta do Muié na região de Cangombe.
Face ás circunstâncias o 1º Grupo foi reforçado na altura com uma secção do 3ºGr durante algumas semanas, algum tempo depois de mudar o poiso e assentar o pó, começámos a fazer reconhecimentos diurnos na periferia á procura de chanas, picadas e trilhos de animais, apalpar o terreno envolvente, algumas das vezes com percursos na ordem dos vinte kms.
Protecção á Tecnil numa frente de trabalho
Ambientados ao meio, retomámos os raids nocturnos atrás da caça, e numa dessas saídas o imprevisto aconteceu no caminho de regresso, o condutor não sei se o Pires ou Beja, não me recordo, desacelera a Berliett e aponta para o caminho, á sarilhos, sussurra em voz baixa, olhem bem, passaram aqui os gajos á pouco tempo, havia pegadas frescas de botas da tropa, ficamos alarmados, desligamos o motor descemos e o Araújo Rodrigues de holofote em punho tenta averiguar se o tipo de rasto era similar ao do nosso calçado, parecia que sim, mas continuávamos com muito medo, havia mais de uma dezena de pegadas a toda a largura da picada, era pessoal que caminhava á vontade e sem receios, afastámo-nos da viatura, acocorados na escuridão, esperámos em silêncio e na expectativa, sem saber o que fazer de imediato, alguns longos minutos que mais pareceram horas, ouvimos por fim uma voz ecoar na noite, “Camaradas somos do Ninda, perdemo-nos, andamos á procura da picada,” depois outra voz com um sotaque genuíno “vocês sois da catorze? Nós somos do cabalo branco, carago..!!” Se dúvidas existiam, dissiparam-se com aquela inconfundível pronúncia do norte, após este grande momento de tensão e estabelecido o contacto, estalou o arraial com abraços e risos da tremedeira, o Alferes e os Furriéis de armas em bandoleira, depois de justificações, argumentos e considerandos da ordem, só queriam saber se tínhamos cerveja para dispensar ao pessoal.                                                               
Tudo para cima da Berliett a caminho do acampamento, onde nessa noite se esfolou uma cabra do mato para dar comer aquele pessoal, que só sossegaram depois de acabar a cerveja. O Saramago que estava de serviço de sentinela com a sua secção acabou fazendo as honras do bar ao Alferes Maçarico e depois dumas cervejolas bem bebidas e umas cigarradas, emprestou-lhe a tarimba por três noites. (Uma cama com colchão nestas paragens era uma dádiva caída do céu).
O Alferes Maçarico, tinha chegado há quinze dias em rendição individual à CCS do Batalhão e colocado numa Companhia em Ninda no comando deste grupo de combate, a rapaziada já tinham um ano de leste, fartos de porrada, afectados pelo cacimbo, cansados de palmilhar mata, na fase decrescente a contarem os dias um a um à espera de rodarem para Malange.
Foram lançados manhã cedo a oeste da nascente do Mucoio, numa operação de quatro dias, ao final da tarde alcançam a margem do Luati, detectam movimentações na zona com cheiro a esturro, enviesaram o objectivo rodando para leste, caminhando na orla da mata ao longo da chana do rio até encontrarem a picada Gago Coutinho, Ninda.
Nunca pensaram caminhar tantas horas, e muito menos esbarrarem com o pessoal da catorze, naquele local e àquela hora da noite, de holofote em punho aos tiros atrás das cabras e das palancas.
Á noite no convívio do jantar, sob a luz do petromax, comentava-mos com eles em dialecto castrense, a razão pela qual tinham usado, aquela retirada estratégica, retorquiam na galhofa, baldámo-nos ou melhor, pirámo-nos, vocês vão para lá aos fogachos, espantam os turras e depois querem que a gente os agarre..!! Nos dias seguintes ao romper da aurora, tomavam uma malga de leite ao pequeno-almoço e abandonavam o destacamento para o interior da mata onde passavam o dia a petiscar rações de combate, a cozinhar pistas, a inventarem azimutes e coordenadas, para enviarem ao centro de operações.
Pratulha de reconhecimento numa chana
Regressavam antes do pôr-do-sol, largavam as mochilas e zarpavam a caminho do rio para um banho refrescante, na volta tomavam uma refeição quente do nosso rancho, depois do serão, acomodavam-se no chão das tendas, debaixo da viatura e onde calhava, para descansar e dormir.
Demos-lhes asilo e tacho, durante três noites, semanas mais tarde o Alferes Maçarico passou numa coluna pelo destacamento, para deixar umas grades de cerveja como recompensa e entregar ao saudoso Saramago, um “cartão de visita”, que depois de passar á peluda, lhe abriu a porta na maior fábrica de papel da península, como tributo, pela acção espontânea e desinteressada, como era hábito na sua maneira de ser e estar na vida.
Adeus até ao meu regresso

Sem comentários :

Enviar um comentário