o0o A Companhia de Artilharia 3514 voou para Angola no dia 2 de Abril de 1972 (Domingo de Páscoa) num Boeing 707 dos Tams e regressou no dia 23 de Julho de 1974, após 842 dias na ZML de Angola, no subsector de Gago Coutinho, Provincia do Moxico o0o Rendemos a CCAÇ.3370 em Luanguinga em 11 de Abril de 1972 e fomos rendidos pela CCAÇ.4246 na Colina do Nengo em Junho de 1974. Estivemos adidos ao BCav3862 e depois ao BArt6320 oOo O Efectivo da Companhia era composto por 172 Homens «125 Continentais, 43 Cabo-Verdianos e 4 Açorianos» oOo

domingo, 31 de agosto de 2008

Reconstrúidas pontes no Leste

Moxico
Reabilitadas mais de vinte pontes nos Bundas em seis anos.
Vinte e sete pontes metálicas e de madeiras foram construídas e reabilitadas desde 2002 até a presente data, no município dos Bundas, província do Moxico, revelou hoje, sábado, em Lumbala Nguimbo, o seu administrador, Augusto Júlio Kuando. Em declarações à Angop, o responsável explicou que as pontes estão montadas sobre os rios Lunguevungo, Luconha, Luzi, Luvei, Luoze, Lulue, Lumai, Luyo, Kavuyana, Lutembo, Lufuta e Luanguinga, localizados no troço rodoviário que liga a comuna de Lucusse à vila de Lumbala Nguimbo. Apontou que foram igualmente repostas as pontes sobre os rios Ninda, Nguimbo, Mussuma, Nengo, Luce, Luati, Ninda, Cassanga e Chiume, no troço rodoviário que dá acesso às comunas de Ninda e Chiume (Bundas). O administrador municipal indicou que neste momento estão em curso os trabalhos para restituição das pontes sobre os rios Lucula, Mulai, Luanduli, Sessa e Chipumba, no sentido de atingir a sede comunal de Sessa. Sem precisar o montante financeiro empregue na empreitada, o responsável fez saber que a paz no país favorece na recuperação das principais vias de acesso, permitindo assim a livre circulação de pessoas e bens em prol do desenvolvimento da circunscrição. As pontes foram construídas e reabilitadas pelo Instituto Nacional de Estrada de Angola (INEA) em colaboração com a companhia de engenharia das Forças Armadas Angolanas (FAA) e do Programa Alimentar Mundial (PAM).
Notícia AngolaPress

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Pescaria Artesanal

Recordação de 1972 na parada do Destacamento-Base do Nengo ainda em fase de acabamento com alguns «Metralhas» após uma pescaria artesanal, mas fora da lei, com granadas lá em baixo perto da ponte do rio Nengo, entre eles o saudoso Carrilho, Carvalho, Carocinho com um «saguim» ao ombro, e o camarada Resende do 2º pelotão; em baixo Bento Lagarto, Venâncio do Carmo, Gonçalves e Pires.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

FÓRUM IGNARA#GUERRA COLONIAL

Reportagem: «Ninguém fica para trás»
Posted: 26 Aug 2008 08:49 AM CDT
"Ninguém fica para trás"O Resgate de onze militares portugueses que há 35 anos morreram em combate em GuidageReportagem SIC/Visão - Missão Guiné-Bissau; Para ler aqui:http://ultramar.terraweb.biz/Noticia_JAnteroFerreira_NinguemFicaparaTras_Visao_SIC.htm

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

SOBA CAPÚLE

Após conclusão das obras do Nengo eis que surge um convite para que a nossa equipa fosse para Gago Coutinho construir uma Peixaria, mesmo defronte ao estabelecimento comercial do Senhor Aníbal, destinatário daquele novo investimento.
Analisado o projecto, hoje simples de o construir mas, à data, sem quaisquer conhecimentos técnico/científicos, valendo sómente o empirismo amador do "Bidonville" sobretudo do aquartelamento do Nengo, pedi ao Furriel Parreira, particular amigo, este sim com conhecimentos aprofundados sobre a matéria, para me dar algumas noções básicas daquela construção, desde logo pela sua implantação. De bom grado acedeu ao meu pedido e, do exterior das barreiras de protecção do aquartelamento, ensaiámos, várias vezes a sua implantação, esquadrias, folgas para as argamassas, rebôcos, limpos, etc.
Portador de todas estas noções básicas, lá reuni com a equipa de obras, com o César Correia como principal conselheiro, identificámos outras necessidades para o sucesso da mesma, concluindo que seria vantajoso a "requisição" aos Metralhas do companheiro Mil, especialista em rebôcos e acabamentos, que se juntou a nós e lá partimos cheios de entusiasmo para Gago Coutinho.
Aqui chegados tínhamos à nossa espera uma equipa de nativos, constituída por 2 mestres e cerca de 8 serventes que, sob a nossa coordenação, iriam connosco partilhar a construção da dita Peixaria.
Para que fosse rapidamente construída, a nossa equipa - de militares - pernoitou, durante alguns meses - três, salvo erro - em quartos da habitação própria do Sr. Aníbal, construção tipo colonial circundada por varandas, ficando o signatário separado destes, num espaço reservado e bem cuidado, no seu estabelecimento comercial, ao atravessar da rua.
A edificação foi tomando corpo dia após dia, com muitas faltas ao serviço dos serventes nativos, sem contudo haver grandes questões técnicas por resolver, diga-se, ressalvando-se uma anomalia grave, entretanto detectada e ordenada a sua correcção imediata pelo Administrador do Concelho de Gago Coutinho, pelo facto de termos utilizado ferro de 6 mm numa viga (imagine-se a segurança ? quando era suposto ser de 10 mm), que foi ultrapassada de imediato e que de facto veio pôr à prova os parcos e deficientes conhecimentos que, sobre a matéria, o encarregado da obra tinha - eu próprio, claro - mas que, a partir daí, outras situações jamais aconteceram, muito à custa de uma amizade feita com um construtor continental que ao lado supervisionava outra construção. Dava-me umas dicas quando necessárias, a "troco" de uns maços de tabaco da marca Coimbra - a 2$50 cada um - salpicados aqui e ali com umas garrafas de Martini, suponho que também a 2$50 cada uma.
E assim lá conseguimos chegar ao fim da obra para satisfação nossa e regalo do seu proprietário que muito enalteceu a sua qualidade, rapidez e o aspecto visual da mesma, face ao colorido garrido que a mesma ostentava; branco e azul com duas faixas no rodapé de vermelho e verde, cores muito ao gosto dos negros em geral.
Durante esse espaço de tempo que mediou a dita construção, conhecemos muita gente da Vila de Gago Coutinho, de entre ela, destaque para a esbelta filha do Governador - demasiado bonita para o meio e para as nossas cabeças- ...
Éramos entretanto sistemáticamente convidados pela população local para, aos fins de semana, participarmos nos seus batuques, cheios de música, colorido, animação, muito concorridos, com muita bebida nas gargantas e exorcismos próprios das suas crenças e etnias.
Da mesma forma mantivémos uma relação próxima e amiga com todos os nativos que trabalhavam connosco na obra. Isto originou que, inevitávelmente, aprendêssemos muitos dos vocábulos do dialecto que lá se falava, além de canções que aprendemos, cantando-as com eles nas suas farras. Uma delas, por ser muito simples, bonita e cheia de polifonia, chamava-se, Sóle, Sóle Lumetá que, invariavelmente, era cantada nas mais diversas circunstâncias, mesmo à entrada de um qualquer kimbo...
No fim daquela missão em Gago Coutinho, quase que dominávamos o dialecto, a tal ponto que falávamo-lo com grande à-vontade, sempre que a ocasião se proporcionava, muitas vezes mesmo na obra com os pedreiros e serventes oriundos da zona.
Certo dia um dos pedreiros, negro - o Sr. Humberto - pessoa de certa idade, calmo, muito educado, bom trabalhador e bom executante, saltou da sua "kinga" (bicicleta) cumprimentou-me de manhã com o seu habitual sorriso, "moio, gungungo?" (bom dia, estás bom?) acrescentando de seguida mais ou menos isto ; de hoje em diante vou passar a chamar-lhe Soba Capúle!
Fiquei atónito sem perceber o significado daquelas palavras, até que ele me respondeu: Sabe meu Furriel, em tempos havia aqui um Soba em Gago Coutinho que era muito estimado pelo seu povo. Deixou muitas saudades. Era muito alegre e amigo das pessoas. Você é parecido com ele e por isso recebe o seu nome.
Ora essa Sr. Humberto ! Não mereço tão honrosa distinção, respondi eu. De qualquer forma agradeci, meio envergonhado de tal sortilégio, não defraudando assim a mensagem que aquele homem quis passar.
Como se não bastasse e por espanto meu, no dia seguinte, o Sr. Humberto e alguns outros trabalhadores ao chegarem à obra, já me cumprimentaram como Soba Capúle e trouxeram um barrete, umas divisas e uma machadinha. Esta tinha como objectivo substituir a espingarda; as divisas, côr de pastel, eram constituídas por duas fitas caídas do ombro uns 10 cms, uma vermelha outra amarela; o barrete, com formato de cone, fazia parte também dessa indumentária.
Fiquei sensibilizado com tal atitude e então passei a usar em Gago Coutinho esse tipo de "fardamento", claro está, longe das vistas dos "chicos militares" do Batalhão existente na Vila.
Ainda hoje conservo, no meu baú de recordações estas insígnias, resquícios do que foi em tempos, um Soba tradicional de Gago Coutinho.
Tudo isto veio a "talhe de foice" pelo artigo emanado da Angola Press, trazido ontem ao nosso Blogue pelo Carvalho, sobre a reposição da Monarquia em Gago Coutinho.
Será que esse tal Soba Capúle pertencia à etnia ou dinastia dos MBundas? Se foi, então como seu "descendente", honrei o seu nome e o seu povo.
Com um abraço

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Restaurada a Monarquia em G.Coutinho

Lumbala Nguinbo, 18 Agosto de 2008
Investido rei dos Bundas em Lumbala Nguimbo
O Rei da etnia Mbunda, Mwene Mbandu III, foi investido, este domingo, ao trono, na sede municipal dos Bundas em Lumbala Nguimbo, em cerimónia presidida pelo príncipe zambiano, Justino Frederico Katwiya.
O Rei com 58 anos de idade, licenciado em línguas e técnico superior de jornalismo, formado na República da Zâmbia, Mwene Mbandu III é herdeiro de seus ancestrais da linhagem do rei Katavola-ka-Ngambo da região dos Bundas.
O reinado ora restaurado foi interrompido na sequência do aprisionamento e deportação do seu monarca, Mwene Mbunda, para lugar incerto, pelas forças políticas portuguesas, em 1974.
Durante o reinado Bunda, que coincidiu com a vigência do período da dominação colonial, 1914 a 1974, Mwene Kazungo Xande foi sempre o rei de todos os sobas da tribo Mbunda.
Hierarquicamente Mwene Kazungo Xande era reconhecido e respeitado como chefe supremo e herdeiro da coroa Mbunda, tendo sob sua jurisdição vinte e três sobas, localizados nos municípios dos Bundas e na Zâmbia.
Segundo o administrador municipal dos Bundas, Julho Augusto Kuando, a coroação do rei Mbandu III é resultado de um profundo trabalho com espírito de equipa de pessoas com rica idoneidade que descobriram o local onde estava o reino desalojado e desvirtuado pelo poder da ocupação estrangeira.
O administrador municipal justificou que antes era impossível realizar este acto, devido ao conflito armado e que foi consumado agora com a conquista da paz no país.
O administrador elogiou o governo angolano, tendo acrescentado que depois da conquista da paz este tem sabido valorizar o papel das autoridades tradicionais, bem como reconhecer a cultura do seu povo de “Cabinda ao Cunene” e “do mar ao leste”.
Ao recordar que a autoridade tradicional é uma figura de estima e respeito do povo de uma determinada área de jurisdição, disse que ela é igualmente o elo de ligação entre o governo, sociedade e vice-versa. Agradeceu, por outro lado, os esforços do Governo Central e Provincial na busca de soluções para a melhoria e aumento das condições sociais, económicas e culturais das populações do município dos Bundas. Assistiram à cerimónia de coroação e tomada de posse do Rei Mbandu III o Vice -Ministro da Administração Território, Garciano Domingos, o Governador da Província do Moxico, João Ernesto dos Santos “Liberdade”, Embaixador Angolano acreditado na Zâmbia, Pedro Neto, autoridades tradicionais, entidades religiosas e convidados.
Notícia AngolaPress

domingo, 17 de agosto de 2008

Romance, Realidade ou Ficção?

Episódios do romance «Os CUS DE JUDAS » do Escritor Lobo Antunes publicado pela editora Don Quixote em 1979 sobre a sua vivência nas Terras do Fim do Mundo, no sub-sector de Gago Coutinho, nas comunas de Ninda e Chiúme integrado na Cart.3313 do Batalhão de Artilharia 3835 como Militar e Médico, entre Dezembro de 1970 e Janeiro de 1972, rodando depois para Malange onde findou a sua comissão de serviço em Angola.


Outro vodka? É verdade que não acabei o meu mas neste passo da minha narrativa perturbo-me invariavelmente, que quer, foi á seis anos e perturbo-me ainda: descíamos do Luso para as Terras do Fim do Mundo, em coluna, por picadas de areia, Locusse, Luanguinga, as companhias independentes que protegiam a construção da estrada, o deserto uniforme e feio do Leste, quimbos cercados de arame farpado em torno dos pré-fabricados dos quartéis, o silêncio de cemitério dos refeitórios, casernas de zinco a apodrecer devagar, descíamos para as Terras do Fim do Mundo, a dois mil quilómetros de Luanda, Janeiro acabava, chovia, sentado na cabine da camioneta, ao lado do condutor, e de boné nos olhos, o vibrar de um cigarro infinito na mão iniciei a dolorosa aprendizagem da agonia....pág 43

Gago Coutinho, a quatrocentos quilómetros ao sul do Luso e junto à fronteira com a Zâmbia, era um mamilo de terra vermelha poeirenta entre duas chanas podres, um quartel, quimbos chefiados por sobas que o Governo Português obrigava a fantasias carnavalescas de estrelas e fitas ridículas, o posto da PIDE, a administração, o café do Mete Lenha e a aldeia dos leprosos;...pág 45

Gago Coutinho era também o café do Mete Lenha, branco sopinha de massa cujo esforço para falar o torcia de caretas,.....pág 47

Impedidos de pescar e de caçar, sem lavras, prisioneiros do arame farpado e das esmolas de peixe seco da administração, espiados pela PIDE tiranizados pelos cipaios, os luchazes fugiam para a mata, onde o MPLA, inimigo invísivel, se escondia, obrigando-nos a uma guerra de fantasmas.... pág 48


Ninda. Os eucaliptos de Ninda nas demasiadamente grandes noites do Leste, formigantes de insectos, o ruido de maxilares sem saliva das folhas secas lá em cima, tão sem saliva como as nossas bocas tensas no escuro: o ataque começou do lado da pista de aviação, no extremo oposto à sanzala, luzes móveis acendiam-se e apagavam-se na chana num morse de sinais. A Lua enorme aclarava de vi és os pré-fabricados das casernas, os postos de sentinela protegidos por sacos de areia e toros de madeira, o rectângulo de zinco do paiol; à porta do posto de socorros, estremunhado e nu, vi os soldados correrem de arma em punho na direcção do arame, e depois as vozes os gritos, os esguichos vermelhos que saíam das espingardas a disparar, e tudo aquilo, a tensão, a falta de comida decente.... O gigantesco, inacreditável absurdo da guerra, me fazia sentir na atmosfera irreal, flutuante e insólita,... pág 61

O Chiúme era o último dos Cus de Judas do Leste, o mais distante da sede do Batalhão e o mais isolado, perigoso e miserável: os soldados dormiam em tendas cónicas na areia, partilhando com os ratos a penumbra nauseabunda que a lona segregava como um fruto podre, os sargentos apinhavam-se na casa em ruína de um antigo comércio, quando antes da guerra os caçadores de crocodilos por ali passavam a caminho do rio, e eu dividia com o capitão um quarto do edifício da chefia do posto, através de cujo tecto esburacado os morcegos vinham redopiar sobre as nossas camas em espirais cambaleantes de guarda-chuvas rasgados,..... pág 83

...Lembrei-me do sorriso da minha mãe, que tão poucas vezes vi sorrir depois, e do ramo de trepadeira que todas as noites batia contra a janela, chamando-nos para misteriosas proezas de Peter Pan. E agora, encostado ao arame, sozinho, a fim de que me não vissem as lágrimas, encostado ao arame do Chiúme e assistindo ao descer do morro até à chana, e para lá da chana, à mata de morrer do Leste, à mata magra e pálida do Leste,..... pág 88

- Bonjour, mon lieutenant - Tinham arribado dias antes ao Chiúme, uma companhia inteira de negros katangueses de lenço vermelho ao pescoço, comandados por um alferes de meia-idade que se apresentou como primo de Tchombé, exprimindo-se num francês de disco Linguaphone - j´ai trés bien connu Mobutu, mon lieutenant - avisou-me ele a puxar escarro de desprezo das grutas de Altamira dos pulmões - il était caporal comptable à l´armée belge - reunidos e armados pela Pide, constítuiam uma horda indisciplinada e petulante a que a emissora da Zâmbia chamava « os assassinos a soldo dos colonialistas portugueses »; não faziam prisioneiros e regressavam da mata aos berros, com os bolsos cheios de quantas orelhas lograssem apanhar; apoderavam-se das mulheres da sanzala perante o desespero resignado do soba, cada vez mais perdido na contemplação da chana,..... pág 93

Como no Chiúme, entende, no Natal de 71, primeiro Natal de guerra após quase um ano na mata, em que acordei de manhã e pensei. É dia de Natal hoje, olhei para fora e nada mudara no quartel, as mesmas tendas, as mesmas viaturas em círculo junto ao arame, o mesmo edifício abandonado que uma granada de bazooka destruíra, os mesmos homens lentos a tropeçar na areia ou acocorados nos degraus desfeitos da messe de sargentos, coçando em silêncio a flôr-do-congo dos cotovelos como mendigos nas escadas de uma igreja. É dia de Natal hoje, vi o céu de trovoada do lado do rio kuando e a eterna segunda-feira do costume no cansaço dos gestos, o calor escorria-me das costas em grossos pingos pegajosos..... pág 136

Dias antes havia partido de coluna uma companhia de pára-quedistas, que apoiados por helicópteros sul-africanos, chegados do Quito-Quanaval para uma operação excessiva e inútil na terra dos Luchases, e todas as noites os pilotos, enormes, loiros, arrogantes, se embebedavam com estrépido quebrando copos e garrafas e desafinando canções em afrikander, ..... pág 137

A impertinência brutal dos sul-africanos, que nos julgavam um pouco uma espécie de mulatos toleráveis.... Os politicos de Lisboa surgiam-me como fantoches criminosos ou imbecis defendendo interesses que não eram os meus..... Sabiam bem que eles e os filhos deles não combatiam, sabiam bem de onde vinham quem na mata apodrecia, tinha morto e visto morrer para que o pesadelo se prolongasse muitos anos, os fuzileiros haviam desfilado uma noite pelo Quartel-General do Luso entoando insultos, todas as tardes ouvíamos a emissão do MPLA às escondidas, ..... Demasiados estropiados coxeavam ao fim da tarde por Lisboa, nas imediações do anexo do Hospital Militar, e cada coto era um grito de revolta contra o incrível absurdo das balas..... pág 138

Mais tarde conhecemos a hostilidade dos brancos de Angola, dos fazendeiros e dos industriais de Angola reclusos nas suas vivendas gigantescas repletas de antiguidades falsas..... Se vocês cá não estivessem limpávamos isto de pretos num instante. Cabrões, pensava eu.... pág 139

As Terras do Fim do Mundo eram a extrema solidão e a extrema miséria, governadas por chefes de posto alcoólicos e cúpidos a tiritarem de paludismo nas suas casas vazias, reinando sobre um povo conformado, sentado à porta das cubatas numa indiferença vegetal.... E, no entanto, havia a quase imaterial beleza dos eucaliptos de Ninda ou de Sessa, aprisionando nos seus ramos uma densa noite perpétua, a raivosa majestade da floresta do Chalala a resistir ás bombas,.... pág148

O Leste? Ainda lá estou de certo modo, sentado ao lado do condutor numa das viaturas da coluna, a pular pelas picadas de areia a caminho de Malange, Ninda, Mucoio, Luate, Luce, Nengo, rios que a chuva engrossava sob as pontes de pau, aldeias de leprosos, a terra vermelha de Gago Coutinho que se prende à pele e aos cabelos..... Os agentes da PIDE no café do Mete-Lenha, lançando soslaios foscos de ódio para negros que bebiam nas mesas próximas as cervejas tímidas do medo. Quem veio aqui não consegue voltar o mesmo, .... Quando se amputou a coxa gangrenada ao guerrilheiro do MPLA apanhado no Mussuma os soldados tiraram retrato com ela num orgulho de troféu, a guerra tornou-nos bichos, percebe, bichos cruéis e estúpidos ensinados a matar..... pág 152

Nós não éramos cães raivosos quando chegámos aqui, disse eu ao Tenente que rodopiava de indignação furiosa, não éramos cães raivosos antes das cartas censuradas, dos ataques, das emboscadas, das minas, da falta de comida, de tabaco, de refrigerantes, de fósforos, de água, de caixões, antes de uma berliet valer mais do que um homem e antes de um homem valer apenas uma notícia de três linhas no jornal. Faleceu em combate na província de Angola, .... pág 153

Aos sábados de manhã, os velhos reuniam-se ao centro da sanzala em torno de uma cabaça de tabaco e soltavam, pelo nariz e pela boca, fumos castanhos e serenos como as locomotivas antigas, com ódio pelo ocupante escrito em grandes letras vermelhas na sua indiferença vegetal. Eram os velhos do Nengo, do Luce, do Luate, os velhos de Sessa e do Mussuma, os velhos de Luanguinga e do Lucusse, os velhos de Nerriquinha, os velhos do Chalala, os velhos e orgulhosos luchazes, senhores das Terras do Fim do Mundo, vindos há muitos séculos da Etiópia em migrações sucessivas, que tinham espulso os hotentotes, os Kamessekeles, os povos que habitavam aquele país de areia e noites frias.... Velhos livres tornados reles escravos do arame pelos canhangulos dos milícias, pelos rostos triangulares e furiosos dos pides, pelo rancor do Estado Colonial que os tratava como a uma raça ignóbil, e que cuspiam no chão escuro a saliva fumegante do tabaco, em escarros pesados de desprezo...... O Comandante encolhia os ombros no seu gabinete blindado, escravo ele também do arame e dos orgulhosos e desumanos donos da guerra que em Luanda, cravando pontos coloridos nos seus mapas, um a um nos matavam.... pág182

Frases soltas extraídas do Romance « OS CUS DE JUDAS »

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

De Luanda a Gago Coutinho (2)

D`este viver aqui neste papel descripto

É este o título dum livro do Escritor António Lobo Antunes, Alferes Médico que esteve destacado em Ninda no Leste de Angola, de Dezembro 1970 a Janeiro 1972 incorporado na Cart.3313 sob o comando do Capitão Melo Antunes e integrado operacionalmente no Bart.3835 com CCS. do Batalhão sediada em Gago Coutinho. Escreveu cartas á sua amada com o que lhe ia na alma, tal como todos nós o fizemos. As filhas Joana e Maria João organizaram a correspondência, do pai para a mãe, nessa época e transcreveram-na em livro, editado pela Dom Quixote. No dia 27 de Janeiro de 71, Lobo Antunes escrevia assim:
“Minha namorada querida
Aqui cheguei, finalmente, a Gago Coutinho, depois de uma viagem apocalíptica, como nunca pensei ter de fazer em qualquer época da minha vida: partimos às 3 horas da manhã dia 22, em autocarros tipo Claras, de Luanda para Nova Lisboa, através de um cenário maravilhoso, mas que à 23ª hora começou a cansar-me. Chegámos de madrugada a Nova Lisboa, dormimos nas camionetas, e às 3 da tarde do dia 29 (ou 23?), depois dos 600 km de autocarro, meteram-nos no comboio para o Luso: 2 dias de viagem em vagões de 4ª classe – essa famosa invenção dos ingleses para os habitantes do 3º mundo, e que a companhia dos caminhos-de-ferro de Benguela inglêsmente adoptou - em grandes molhos de pernas e de braços, de armas e de cabeças. Essas carruagens possuem apenas 3 únicos bancos longitudinais: dois ao correr das janelas e o último, duplo, ao centro, como uma risca ao meio. Como faltavam vagões , assistiu-se então a um espectáculo indescritível: de todo o lado surgiram membros que pareciam não pertencer a nenhum corpo. Cheguei a coçar a minha cabeça com uma mão alheia. Aí dormia, ou fingia dormir, e comia as conservas que inundavam o chão de latas e de molhos, e que me estragaram completamente as vísceras. Deportados judeus para um campo de concentração nazi. E depois veio o inferno, ou inferno maior, o sétimo inferno inversamente comparável ao 7º céu de Maomé: agarraram em nós e meteram-nos em camionetas de carga para os 500 km minados que separam o Luso de Gago Coutinho: dois bate-minas à frente (duas berlietts carregadas de sacos de areia) e depois uma extensa fila de carros, onde seguíamos de arma apontada numa tensão de ataque iminente. Felizmente não houve minas nem emboscadas, mas aconteceu uma coisa horrível: a camioneta em que eu seguia, a última (por sorteio) partiu a direcção, a uma velocidade considerável, e esmagou-se numa vala. Eram 21: três braços partidos, e pernas, várias outras lesões sortidas, e eu com seis pontos no lábio e 3 na língua: ainda não a sinto. Caímos todos uns por cima dos outros, e pensei que tivesse sofrido mais do que isso porque o corpo dava-me a sensação de se encontrar multiplamente rachado. Mas tudo passou, continuo a resistir, e amo-te. Isto é o fim do mundo: pântanos e areia. A pior zona de guerra de Angola: 126 baixas no batalhão que rendemos, embora apenas com dois mortos, mas com amputações várias. Minas por todo o lado."
in D`este viver aqui neste papel descripto.
Comentários para quê..!!

Nota: O Bart.3835 (Força e Áudacia) rodou em Janeiro de 1972 para Malange, sendo rendido em Gago Coutinho pelo Bcav.3862 (Cavalo Branco) ao qual a Cart.3514 ficou adida operacionalmente em Abril de 1972.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

De Luanda a Gago Coutinho (1)

MAPA DA REPÚBLICA POPULAR ANGOLA - Viagem épica de 1400 kms, Luanda, Nova Lisboa (Huambo), Silva Porto (Kuito), Luso (Luena), a Gago Coutinho (Lumbalaguimbo) na fronteira leste a cerca de cinquenta kms da Zâmbia. ( Transp. autocarros da EVA, C.F.Benguela e MVL)
Itinerário sublinhado. Mapa de Angola in Terra_Web
Quadrante referenciado amarelo na Carta Geográfica de Angola
SECTOR DE GAGO COUTINHO PROVÍNCIA do MOXICO - Para que a memória não esqueça estes lugares por onde passámos e onde convivemos durante 27 meses, com angustia, receios, e muita saudade da família e dos amigos, mas onde criámos também um clima de empatia, amizade, solidariedade e camaradagem para o resto da nossa vida que jamais esqueceremos, estejam longe ou perto sejam eles presença habitual, ou não nos convívios anuais da Cart 3514, serão sempre recordados carinhosamente. Carta geográfica do sector de G. Coutinho. in Live Search Maps