o0o A Companhia de Artilharia 3514 voou para Angola no dia 2 de Abril de 1972 (Domingo de Páscoa) num Boeing 707 dos Tams e regressou no dia 23 de Julho de 1974, após 842 dias na ZML de Angola, no subsector de Gago Coutinho, Provincia do Moxico o0o Rendemos a CCAÇ.3370 em Luanguinga em 11 de Abril de 1972 e fomos rendidos pela CCAÇ.4246 na Colina do Nengo em Junho de 1974. Estivemos adidos ao BCav3862 e depois ao BArt6320 oOo O Efectivo da Companhia era composto por 172 Homens «125 Continentais, 43 Cabo-Verdianos e 4 Açorianos» oOo

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

SALVÉ - 31/12/2010

A data do aniversário de um amigo, é sempre especial principalmente quando este é um velho e íntimo AMIGO, sendo quase um membro da família...Esquecer o dia de aniversário de um colega, de um "amigalhaço", de um parente é falta considerada grave, e em alguns casos as famosas desculpas do tipo: " eu pensava que era no próximo mês..." não colam. Elas deixam a situação pior ainda. Se, por outro lado, os parentes, são pessoas claramente definidas, a figura do AMIGO precisa de ser avaliada com maior cautela. Não são tantos aqueles que preenchem tal qualificação, porque é difícil ter amigos verdadeiros, alguns quando surgem são mais chegados que os nossos próprios irmãos.Todos nós já tivemos experiências marcantes com amigos que na hora "H", nos ajudaram, nos aconselharam, nos acolheram ou simplesmente estavam lá para ouvir a mesma história pela décima vez. Todos os outros amigos, que me perdoem, mas o tal AMIGO de quem vos estou a falar, chama-se Octávio Barbosa Botelho, decano da família "Panteras Negras", colaborador deste blogue, a quem nesta data, envio um forte e sentido abraço com votos de muita saúde e de muitos anos de vida.
Parabéns Botelho"A todos os restantes amigos e colaboradores, bem como a toda a família "Panteras Negras" votos de um ANO NOVO, com saúde, paz e amor e, já agora, porque não mais uns trocados para ajudar a encarar o ano com verdadeiro optimismo."

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

A Caminho das Terras do Fim do Mundo (6)

Lufuta, novamente o Lufuta!... E porquê? Porque foi aqui que nos adaptámos rapidamente a África, à beleza do seu entardecer, onde começámos o nosso abraço mais profundo com a terra africana, negra,... roxa... e branca, onde até as laterites extraídas da terra tinham uma cor avermelhada de sangue!... Foi por aqui que, como os restantes camaradas, do Lutembo, do Lubango e de Luanguinga, nos confrontámos com um céu, que de dia ou de noite não compreendíamos, mas admirávamos em segredo. Enfim, um horizonte ilimitado que faz guardar recordações desta região no íntimo de quem por lá passou um dia. Estávamos a iniciar a chamada época do cacimbo, meteorológico e psicológico, e íamos aprender que ele corresponde no calendário ao verão do "puto", por ser o tempo em que ia haver menos calor. Só que em Angola ninguém pensava no frio que fazia durante a noite.
Apesar desta idiossincrasia, não esquecíamos nunca o factor que nos fazia ali permanecer, éramos um grupo de combate, e a nossa missão era estar de olhos bem abertos para não sermos colhidos de surpresa e, sem consequências de qualquer espécie, já tínhamos apanhado os nossos "cagaços"!... Daí, era de “bom tom” estarmos bem com todos e com o "Patrão lá do Alto", para onde, menos materialistas do que hoje, ao primeiro sinal de alarme, recorríamos, embora de arma na mão, à sua protecção Divina. Parecer-vos-á uma dicotomia incompreensível, mas era verdadeira e acontecia nos bons e maus momentos. Seguindo este espírito, já a manhã daquele dia sete de Maio de mil novecentos e setenta e dois ia muito alta, quando recebemos a visita do capelão militar que iria celebrar uma missa ali, no Lufuta. Ali se concentrou o pessoal que escoltava o Capelão, vindo de Luanguinga, a quem se tinha juntado à passagem o pessoal do Lubango e de onde confluíram também os destacados no Lutembo. Tratava-se de uma missa celebrada por um militar e para militares. Combinou-se que, na hora do ritual da consagração, na falta de clarins que abrilhantassem a cerimónia, eu e o meu camarada Raul Sousa, subíssemos as barreiras de protecção e lançássemos cada um a sua granada ofensiva M/62(1). Todo o pessoal tomou conhecimento, ou melhor, pensou-se que todos teriam tomado. No entanto, como todo o pessoal não chegou exactamente no mesmo momento, houve ali qualquer falha de comunicação inesperada. Muitos de vós certamente estarão lembrados, pelo menos, do caricato do sucedido!... Chegado ao momento combinado, à indicação dada pelo celebrante e corroborada pelo Maurício Ribeiro, com a maior das calmas, tiramos as cavilhas às granadas e do cimo da barreira, atirámo-las para um fosso ali existente. Foram dois estrondos sucessivos de granada...Quando nos voltámos para regressar ao local onde era suposto continuar a cerimónia, só vimos o pessoal em grande correria á procura de armas uns atrás dos outros. O celebrante, olhou para nós, mas perante a debandada geral, abandonou o altar improvisado e “ala que se faz tarde”. Nós os "guerrilheiros" causadores desta aflição, ficamos imóveis, atónitos e com um misto de vontade de rir, mas ao mesmo tempo de medo, do que poderia ter acontecido no meio daquela "guerra". A missa, depois de serenados os ânimos, continuou... mas o espírito religioso e o grupo coral, vindo de Luanguinga se não me falha a memória dirigido pelo nosso amigo e camarada António Soares, acabou com os estrondos. Mas meus caros amigos, eu só não participei na debandada geral à procura de um abrigo, porque tinha sido um dos autores da "tramóia", caso contrário, quem tem o dito cujo no fundo das costa tem medo...Nesse dia, ao final da tarde, tivemos o primeiro desgosto da nossa comissão!... Chegava a infausta notícia de que o nosso Camarada Ernesto Gomes, de saudosa memória, havia perecido por afogamento, no rio Lutembo!... Daí também, a data de 07/05/1972, permanecer indelével no “baú das recordações”!... Como isto está já demasiado longo e, talvez, correndo o risco de me tornar fastidioso, resta-me encerrar o capítulo LUFUTA, por onde só voltei a passar no regresso, no final da comissão.
Em especial, a todos os camaradas que fizeram parte do 4º grupo e, em geral, a toda a família “Panteras Negras”, um grande abraço.
(1) - É uma arma de arremesso destinada ao combate próximo. Actua por efeito moral (grande estrondo) e por acção de sopro

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Faleceu MANUEL DA COSTA CARREIRA

Natal, é sempre sinal de festa de renascimento e de esperança... Todavia, a vida prega as suas partidas!... Neste Natal, embora exista tudo aquilo em nossas casas, ele vai ser mais triste para todos os camaradas que, como eu, fizeram outrora parte da CART3514 e hoje da família " Panteras Negras".
 Faleceu prematuramente o Manuel da Costa Carreira, nosso camarada de armas do 4º. Pelotão. O Manel Carreira era natural de Cortes, onde nasceu em 1950 e residia em Várzea, Arrabal, Leiria. Colhido de surpresa com esta triste e infausta novidade, transmitida pelo nosso comum camarada António Carvalho, só posso afirmar o que todos sabem. Foi sempre um excelente camarada, um óptimo AMIGO, com quem privei durante o tempo que passámos em Évora e os vinte e sete meses em Angola. Encontrámo-nos, como muitos de vós, este ano em Fátima e despedimo-nos com um forte abraço e com "um até para o ano". Aos seus Familíares e Amigos, os nossos sinceros sentimentos, a nossa solidariedade e queremos dizer-vos que estamos convosco neste momento de grande dor e angústia. É mais um AMIGO que parte primeiro e desaparece na curva da estrada desta vida terrena.
ATÉ AMANHÃ CAMARADA...

Noticias de Lumbala Nguimbo

Alunos terminam 1º ciclo com bom aproveitamento escolar
Oitenta e um alunos, dos 191 matriculados na escola do ensino secundário do 1º ciclo, no município dos Bundas, encerraram hoje o ano lectivo/2010, como os primeiros finalistas da reforma educativa. A reforma educativa no ensino secundário foi introduzida em 2008 e vai até a 7ª classe. Durante o ano lectivo foram matriculados 14.986 alunos em dois subsistemas de ensino (primário e secundário do I ciclo), tendo havido a aprovação de 14.143 educandos. As aulas foram asseguradas por 132 professores. O director da escola, Bernardino André Catongo, reconheceu o empenho dos professores e alunos, tendo em conta o bom aproveitamento alcançado nesta época escolar. Disse que o desenvolvimento da educação passa necessáriamente por vários factores e mudanças, tendo apontado o homem e meios materiais como condições fundamentais para se atingir a qualidade de ensino que se pretende no país. Como perspectivas para o próximo ano, Bernardino Catongo solicitou a construção de uma escola secundária do 1º ciclo e outra de 2º ciclo, com 12 salas cada, bem como o aumento de número de professores, sem precisar a cifra.
AngolaPress

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Boas-Festas

Boas-Festas
Nesta quadra que se aproxima, não quero deixar de formular, para toda a família “Panteras Negras” restantes colaboradores , respectivos familiares e bem assim a todos os visitantes deste Blogue, onde quer que se encontrem, os meus sinceros votos de um Santo Natal, com muita saúde, paz, alegria, amor, fraternidade e solidariedade cristã , recomendada pelo Aniversariante que, o próximo dia 25 do corrente, celebra o seu 2010º aniversário. Para todos um abraço do camarada e Amigo, Botelho

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Um "Subterrâneo" Meu

E esta...?
João Medeiros
Estava a nossa Companhia sediada no Nengo, quando o Batalhão 3862 foi rendido pelo Batalhão 6320, formamos uma coluna (com a devida autorização do nosso Capitão) e fomos receber os maçaricos. Foi uma grande festa em Gago Coutinho para aqueles que lá estavam e para os que chegaram e contactaram com os amigos das suas terras, tal como eu, porque no 6320 vinha uma data de "Açorianos". Foram umas horas bem passadas de contar aventuras e ouvir novidades. Quando os contactos acabaram e voltamos á realidade viemos para o Nengo e chegados lá, os que não tinham ido, quiseram saber as novidades e estávamos a conversar uns com os outros, quando o Soares e o Cardoso da Silva que estavam sempre com o caniço na água, lá iam fazendo as suas perguntas a uns e a outros, para se rirem com as histórias que iam ouvindo. Pergunta o Cardoso da Silva que tinha ido a Gago Coutinho na coluna. Oh (não me lembro o nome apesar de saber quem é) estavas todo entretido lá na conversa com um maçarico, nunca mais largavas o gajo, o (………) olhou para ele e não disse nada, por que não podia manda-lo para longe, virou as costas para se ir embora,  pergunta-lhe o Soares então (……..) isto é segredo. Oh (……..) queria era mostrar a sua alegria por ter encontrado um amigo, e diz, Oh Furriel tu não imaginas o que é que eu senti, no meio daquela maçaricada toda, eu olhava para uns e olhava para outros e não via ninguém conhecido, de repente olho para o lado e o que é que eu vejo, um "SUBTERRÂNEO" meu, que alegria carago. Olhou uns momentos para o Cardoso da Silva e para o Soares á espera de uma reacção, mas nenhum soube o que dizer daquela alegria singela, de ver um CONTERRÂNEO (subterrâneo) naquele fim do mundo. >

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Estórias de Évora (2)

O Soldado Revés
Alguns se lembrarão ainda das peripécias deste camarada, operador de transmissões do 1º Pelotão que formou companhia connosco, mas não chegou a embarcar para África, por motivos disciplinares, mas que deixou muitas estórias e alguma “saudade” pela sua irreverência e audácia.Tínhamos iniciado a semana de campo nos primeiros dias de Dezembro de 1971, ali para os lados de Valverde, na Herdade Estatal da Mitra, manhãs muito frias com geada e ar gélido. Os Soldados acamparam a três, em tendas de três panos, muito rudimentares, com pouco ou nenhum conforto e mal agasalhados. Os cabos milicianos ficavam em tendas cónicas, em grupos de oito, dormíamos no chão em colchões de espuma. As madrugadas eram muito agrestes e o Revés a tiritar de frio entrava na tenda dos graduados e onde apanhasse um buraco enrolava-se na manta e ferrava o galho, ao toque de alvorada pirava-se embrulhado no cobertor, só quase no final é que demos pelo intruso, uma noite depois do jantar, fui com o Carrilho e o Medeiros a Valverde beber uns copos com uma rapaziada do Pólo Universitário, na volta quando chegamos, verificamos que havia gente a mais e colchões a menos, depois da lengalenga, ai que eu morro de frio e por ai fora, o Medeiros comiserou-se e o Revés lá se "aconchegou" aquela e as restantes noites do IAO. Adeus até ao meu regresso 
Évora 1971 - Matos, Serafim Gonçalves e ??? no IAO  na Herdade da Mitra

domingo, 12 de dezembro de 2010

Lumbala Nguimbo

Reconstrução nacional
9-11-2010 - Infra-estruturas socioeconómicas - Será inaugurado um jardim infantil no município que em Dezembro ganhará igualmente um centro multiuso para a juventude, residência protocolar e sistemas de captação e abastecimento de água (nas comunas de Luvei e Lutembo).O programa aponta ainda a inauguração de sinais da Rádio Nacional de Angola (RNA) e da Televisão Pública de Angola (TPA), na Vila de Lumbala-Nguimbo, a 357 quilómetros do Luena.

POLITICA
11-09-2010 – O governador provincial do Moxico, João Ernesto dos Santos “Liberdade”, considerou hoje o primeiro Presidente de Angola, António Agostinho Neto, um homem rico em ideias patrióticas, que continuam vivas na memória dos angolanos. O governante fez estas declarações numa palestra alusiva ao 17 de Setembro, Dia do Herói Nacional, realizada na sede municipal dos Bundas (Lumbala-Nguimbo), a 357 quilómetros do Luena. João Ernesto “Liberdade” realçou que apesar de desaparecer fisicamente as ideias e convicções de Agostinho Neto permanecem vivas. Afirmou que o “exemplo do herói nacional, sua irrepreensível conduta de militante de dimensão histórica iluminará a paz alcançada em 2002, salvaguardando a independência nacional e o desenvolvimento do país. Explicou que Agostinho Neto muito cedo se revelou como patriota e nacionalista consequente, médico de elevada sensibilidade, célebre pensador e poeta de dimensão internacional. António Agostinho Neto nasceu a 17 de Setembro de 1922, na aldeia de Kaxicane, município de Icolo, provincia do Bengo, e morreu a 10 de Setembro de 1979, em Moscovo, vítima de doença.
AngolaPress

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Feliz Aniversário

Venho por este meio e em meu nome, neste dia 03DEZ10, desejar ao Camarada António José Rosado Carvalho, da ex- CArt 3514 ”Panteras Negras”, um dia muito feliz, com muita saúde, paz, tranquilidade e amor, na companhia da sua esposa e filha e, porque não, na de alguns dos seus mais próximos amigos que, porventura, tenham mais possibilidades de acompanhá-lo nesta comemoração que, faço votos, se repita por muitos e felizes anos. Aproveito a oportunidade para enviar cordiais saudações a toda a família “Panteras Negras”, aos restantes colaboradores, assim como aos eventuais visitantes deste Blogue. Um especial abraço de Parabéns para o aniversariante, do Camarada e Amigo, Botelho

SALVÉ 3 DE DEZEMBRO DE 2010

 Hoje, dia 3 de Dezembro do ano da Graça de 2010, o nosso grande amigo e Webmaster deste Blogue, António Carvalho, vai deixar de ser um cidadão de cinquenta e tal anos para ser, doravante, mais um caminhante que perdeu o medo de se perder, ou seja um sexagenário. Sinal do tempo. O tempo voa e não perdoa o que por vezes, se torna doloroso mas, por outro lado, não deixa de ser sublime pela mais valia da experiência de vida que a idade com ela transporta. Alguém, cujo nome de momento não recordo, disse que a idade deverá ser contada, não em anos, mas em amigos que tenhamos adquirido pela vida fora. Partindo desta premissa maior e, pelo que de ti conheço, se for contabilizada a tua idade em amigos, é fácil concluir que és muito mais velho, do que realmente aparentas. Mas isto é "filosofice" barata e não importará aqui e agora. Na sublimidade do dia que hoje celebras, venho intrometer-me, para rogar que Ele, o nosso "Patrão lá do Alto", em torno de ti, semeie todas as pérolas necessárias para que a tua vida seja sempre reflectida, pelo brilho da paz , do amor familiar e, em suma, pela felicidade. Que a alegria deste dia do teu aniversário perdure por todos os outros dias da tua existência , sempre na companhia daqueles que mais amas. Parabéns Carvalho - Um grande abraço. P.S.- Aproveitando o ensejo envio, em especial, aos colaboradores deste Blogue e, em geral, a toda a família “Panteras Negras”, um grande abraço e votos de Felizes festas Natalícias.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Recordações D´Outrora

Fotos dos Álbuns de: Serafim Gonçalves, Bernardino Careca, Manuel Parreira e Araújo Rodrigues
Colina do Nengo 1973 - Dois T6 sobrevoando o kimbo dos "Metralhas"
Sempre que alguma aeronave militar ou civil sobrevoava a Colina do Nengo, a rapaziada vinha sempre para a parada fazer uma saudação, e os pilotos dos T6 destacados em Gago Coutinho retribuíam quase sempre com um voo picado e depois uma rapada a baixa altitude sobre o destacamento, deixando o pessoal com os cabelos em pé...!
Lutembo 1972 - Alves Ribeiro, Paiva, Gonçalves
Tínhamos chegado ao leste há pouco tempo, nota-se pelo estilo dos maçaricos e dos camuflados, destes camaradas do 3º pelotão que ficaram destacados na comuna do Lutembo, no meio o nosso cozinheiro Alfredo Pinheiro Paiva o "cambuta" da companhia,que nunca mais deu sinal de vida.
GEs - Familia tradicional dos Bundas
Soldados indígenas integrados nos Grupos Especiais com os seus familiares trajados a rigor com toda a bijutaria e adornos próprios em dia de festa na Sede do Batalhão em Gago Coutinho. Viviam em pequenas casas  de construção ao longo do arame farpado, por trás do quartel  numa primeira linha de contenção. Não era fácil captar esta imagem, só a troco de favores ou dinheiro. 
Nengo 1972 - Pereirinha, Diogo, Parreira, Soares, Zé Abreu, Cardoso da Silva,  Costa e Silva 
Todos os aniversários eram aproveitados para convívio e divertimento, e como o vinho "induca" e o fado "instrói" acabávamos sempre tentando esquecer e afogar o que nos ia na alma, bebendo e cantando.
 Algures num destacamento - Gonçalves, Matos, Aguiar, Esteves, Lopes, Veiga e Parreira 
Nos destacamentos havia diariamente uma secção de serviço na limpeza, a lavar loiça, ir á lenha, buscar água e ajudar na confecção das refeições, aqui a descascarem batatas como ilustra a imagem.
Praia fluvial do Nengo - David Monteiro, Carrusca e Pinto na companhia de outros camaradas
Nos destacamentos raramente tomavamos banho de chuveiro, pois o transporte da água era moroso e dava trabalho, ao final da tarde ia-mos ao rio tratar do corpo, relaxar, dar um mergulho e refrescar. 
Luati 1973 - Correia e Conceição
Quando o calor apertava a solução era abastecer o cantil de água fresca, no rio mais próximo, depois uma pequena pastilha á  base de cloro "Hipoclorito de Sódio" para desinfectar de microrganismos e bactérias, veiculadas na corrente hidrica, potenciais causadores de doenças, e estava pronta para consumir, aliás bebemos muitas vezes água apenas filtrada no tempo do cacimbo.
Gago Coutinho 1972 - Em baixo: Cardoso da Silva, Barraca, Careca, Aguiar, Guarino e  Milo.  Em cima: Carvalho, Zé Abreu, Castro, Guerra, Costa e Silva e António Duarte.
Aos domingos havia duas maneiras de dar uma escapadela até Gago Coutinho, ir assistir á missa e ao "santo sacrifício da saída" ou então ter algum jeito para jogar à bola, doutra forma estava condenado a ficar no destacamento, mas acabaram todos por se converterem com o tempo, tanto os cépticos como os não praticantes e até os coxos aprenderam a correr atrás da bola.
Nengo 1973 - Em baixo: Careca, Pereirinha e Vieira.  No meio: Medeiros, Parreirinha, Joaquim Caeiro Santana, Parreira, Bélinha, Venâncio do Carmo e Lagarto.. Em cima: Martins e Galvão
Como sempre depois de mais uma reunião de trabalho, havia sempre lugar a um retrato para enviar á família, que ajudava desanuviar e a encurtar distâncias.
Adeus até ao meu regresso

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Lumbala Nguimbo - Práticas de Feitiçaria

Matam criança e roubam coração...!
Uma criança de 12 anos foi assassinada e o seu coração arrancado por métodos que indiciam prática de feitiçaria em Lumbala Nguimbo, na provincia do Moxico.
A acusação foi divulgada ontem pelo bispo de Luena, Moxico, D. Tirso Blanco, no jornal on-line da Igreja Católica Angolana.
A barbaridade foi denunciada pelo sacerdote no decurso de uma visita pastoral à comuna de Lumbala Nguimbo, onde terá ocorrido o assassínio da criança, a quem foi retirado o coração para práticas de feitiçaria.
"Era uma criança que estava de passagem naquela localidade, e possivelmente aproveitaram-se dela para tráfico de órgãos humanos. Podia ter sido qualquer outra pessoa", adiantou o prelado ao jornal ‘O Apostolado’.
Em Angola, são recorrentes os crimes por prática de feitiçaria.
noticia Correio da Manhã 

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Memórias do Leste de Angola

Botelho na Secretaria do Comando
Decorrido cerca de um mês a partir da última ocasião em que aqui estive, aqui estou eu de novo, a fim de relembrar alguns episódios da nossa passagem pelas terras do Leste de Angola. O tema é sempre o mesmo e, na verdade , para mim, há muito poucas possibilidades de variação no teor dos meus “posts” que, de certo, correrão o risco de se tornarem maçadores, por repetitivos, mas vou insistindo e ao mesmo tempo pedindo que, se tal acontecer, tenham um pouco de paciência comigo e dêem um desconto à minha insistência em marcar presença. Sim!...Marcar presença e dar sinal de que ainda aqui estou, apesar das minhas “maleitas”, que são variadas e bastante maçadoras, a dar sinais de vida.
Mas, pondo de parte esta introdução, que não quero muito longa, vou entrar, de imediato, na evocação de algumas ocorrências passadas durante a nossa permanência na ZML/RMA, nomeadamente, a quando da construção do Destacamento do Nengo, esteve a CArt 3514 sedeada em Gago Coutinho, nas instalações do BCAV” Cavalo Branco”.
Para ajudar a essa evocação, socorri-me da imagem que ilustra este “post” e na qual estou eu representado. Encontro-me no meu posto de trabalho e no cumprimento da minha missão, sentado atrás da secretária, no arquivo da Companhia, onde tratava e dirigia muitos assuntos, tanto oficiais como particulares de todos vós sem excepção.
Nesta missão, era auxiliado pelos Chefes dos serviços respectivos, como fossem o da Alimentação, o do Serviço de Saúde, o do Serviço de Material, o da Intendência e o das Trms. De todos estes Chefes, os que dependiam mais de mim, pois trabalhávamos em sintonia e colaboração eram os Chefe do serviço de Alimentação e o da Intendência.
Ao meu exclusivo cargo, ficava a Administração (Ordenados, Vencimentos e Pré) e toda a correspondência trocada com as Chefias dos Serviços respectivos, tanto do Sector do Luso como da RMA.
Tratava também de assuntos particulares dos militares, prestando-lhes apoio dentro das possibilidades. Em todos estes assuntos tinha um excepcional apoio e precioso auxiliar no meu “braço direito”, o meu competente Escriturário António Carrusca, que, quando o serviço apertava mais, sempre conseguia arranjar uns “ajudantes” extras, para o desenrasca e, até eu, muitas vezes o ajudei!...
Naquele mesmo local em que está colocada aquela secretária, recebi” boas” e “más” novas e, as mais marcantes, por incrível que pareça, são as “ más”. Lembro-me, como se fosse hoje, daquele fatídico dia 23AGO72, em que, num acidente de viação, faleceu um dos nossos camaradas. Não vou citar-lhe o nome, por desnecessário, por ser sabido de toda a gente e, além do mais, ter sido já lembrado na altura apropriada, neste mesmo “blogue” e por mim.
Apesar disso tudo, é-nos muito grato evocar este e outros acontecimentos e que, sem qualquer outro motivo, que não o da saudade e nostalgia, nos levam e recordar tais acidentes históricos e que não são produto de qualquer “ficção de cordel”.
Este já está a ficar longo e como não quero tornar-me aborrecido e maçador, vou terminar, enviando cordiais saudações aos colaboradores deste blogue, a todos os restantes elementos da família “Panteras Negras” e familiares e para todos os nossos “visitantes”, onde quer que se encontrem.
Para todos, um abraço e um “até breve” do Camarada e Amigo.
Botelho

domingo, 21 de novembro de 2010

Varano da Savana

"O Caióia gritou oh sinhô Beja, oia oia um Sengue"
Uma manhã regressávamos de Gago Coutinho pela picada velha na chana do Mussuma, quando  alguém reparou num lagartão que fugia no meio do capim, abrigando-se numa pequena toca com a cauda de fora, quando lhe pegamos no rabo e o puxamos para fora o animal parecia morto sem reacção alguma, metemos-lo dentro dum saco de serapilheira e levamos para o destacamento do Nengo, onde despertou muita curiosidade, os cães não se chegavam, e o animal depois de solto refugiou-se na  placa central do destacamento, onde nessa alturas as flores e os arbustos muito viçosos e frescos lhe deram guarida durante uns meses.
Serafim Gonçalves
Só de noite se atrevia a sair do esconderijo, procurando restos de comida no chão do refeitório, e por fim começou a trepar para as mesas virando panelas e tachos, á procura de pitéus, chegando mesmo a provocar alguns medos aos sentinelas, do posto adjacente ao paiol, com o barulho da loiça a cair no chão da cozinha ás tantas da madrugada. Quando o apanhávamos para uma secção fotográfica ou mostrar a alguém, bastava pegar-lhe na cauda e o animal entrava em estado letárgico, não sei se por mânha ou  por stress, ficava inerte, chegou a desaparecer por alguns dias mas voltava sempre, até que um dia foi de vez
Manuel Parreira
Varano da Savana vive junto a linhas de água,  pode atingir 2 metros de comprimento, sendo  assim, dos maiores sáurios africanos. Estes répteis têm o corpo robusto e patas possantes com fortes garras e a cauda preênsil, comprida e achatada lateralmente. A pele tem cor esverdeada, com manchas amarelas distribuídas num padrão mais ou menos regular, têm a língua bifurcada, que serve, conjuntamente com o órgão de "Jacobson," para a obtenção de informações olfactivas sobre o meio envolvente. Estes répteis diurnos são geralmente vistos a aquecerem-se ao sol, sobre rochas ou ramos; durante a noite procuram abrigo em tocas. Pilham frequentemente os ninhos de tartarugas e de jacaré, para se alimentarem dos ovos, comem de tudo inclusive cadáveres putrefactos. São aquáticos, que nadam e mergulham com facilidade, podendo submergir durante mais de 20 minutos. Em caso de ameaça refugiam-se dentro de água ou atacam com violência usando a cauda; como postura de intimidação arqueiam o dorso, emitem uma espécie de assobio e abanam a cauda lateralmente.
inf. wikipédia

sábado, 6 de novembro de 2010

Hoje há Correio

NORDATLAS na sua passagem semanal por Gago Coutunho
Nengo 12 de Novembro 1973
(Extractos) - Nunca tinha-mos passado tantos dias sem correio, nada durante doze intermináveis dias, tinha ido de madrugada á vila numa coluna, para buscar, acompanhar e fazer protecção ao pessoal da Tecnil, rotina que todos os dias cumpríamos de segunda a sexta, cheguei ao nascer do sol e como sempre fazia deitei-me novamente, eram ai 9 horas acordei com o barulho e os gritos da rapaziada a festejarem a passagem do NORDATLAS aqui por cima do destacamento na sua rota normal, Luso, Gago Coutinho, N´Riquinha, aeronave que normalmente passava todas as semanas, mas que tinha feito gazeta na passada semana.
Há correio gritava a malta, que dia após dia iam vendo goradas as perspectivas da chegada de noticias, como nos iam prometendo todos os dias, o avião vem amanhã e ele não vinha, até que hoje reapareceu nos céus terminando com a censura geral. 
NORDATLAS sobrevoando a Colina do Nengo

Noticias de Lumbala Nguimbo

logotipo
Angola Telecom lança sistema digitalizado em cinco municípios do Moxico, Luau, Cameia, Bundas e Kamanongue estão desde Setembro último a beneficiar do sistema de telecomunicações “ ADSL ”  da operadora pública Angola Telecom. Ao falar hoje à Angop, o director provincial da Angola Telecom no Moxico, Manuel Gaspar Tomé, explicou que o sistema denominado “ADSL digitalizado”  irá brevemente atingir as circunscrições do Alto Zambeze e Luchazes, bem como a comuna de Cangumbe.
O responsável explicou que o sistema visa melhorar as telecomunicações na rede de telefonia fixa e a expansão do sinal de Internet nas referidas sedes municipais.

AngolaPress 

domingo, 24 de outubro de 2010

Relembrando o passado - (Grafanil-Sala de Espera do "Inferno")

Capela do Embondeiro no Grafanil
Ora cá estou eu outra vez de volta às andanças literárias (fracas) e, desta vez, para relembrar o que era o local, situado nos arredores de Luanda, para onde eram “despejados” como que para “aclimatação” quase todos, se não todos, aqueles a quem tinha cabido o azar de terem sido nomeados para “comissão de reforço à guarnição normal” da RMA.
À primeira, pelo nome que lhe fora dado, dava a impressão de parecer um local bucólico e campestre, com paisagens verdejantes e convidativas para se darem uns agradáveis passeios, aproveitando-se para respirar o ar puro e revigorante! Mas ao chegar-se a tal lugar, à primeira vista, apresentava um aspecto semi-solene, com um portão atravessado por uma barreira, comandada por um “operador” alojado numa cabina situada à esquerda da entrada, com uma passadeira protegida da faixa de rodagem por um varandim metálico que servia para o acesso dos peões, que deixavam na cabina pendurados num grande placard os respectivos BI, levando em troca um cartão para circulação no interior do Campo, preso às lapelas dos casacos ou qualquer outra parte, bem visível, do vestuário. De seguida, entrava-se numa grande avenida, com enormes armazéns de cada lado, cada um deles com os Depósitos de Material inerentes a uma guerra: Material de Guerra(Armamento), Material Auto, Material de Intendência e, junto a estes, as Oficinas de reparações de todos os Materiais e ainda as Secretarias e Armazéns respectivos.
Seguidamente, do lado esquerdo, encontrava-se a célebre Capela do Grafanil, endossada a uma árvore gigante, com o nome de embondeiro ou baobá, representada na foto que ilustra este “post”. A Capela era dedicada a Nª.Srª.de Fátima, cuja imagem se pode nitidamente ver no altar da referida Capela. Em frente do altar, uma ampla área rectangular, ocupada com uma bancada rústica que, aos domingos e dias 13 de cada mês, se preenchia de devotos. Do lado direito e um pouco afastado da Capela, encontrava-se uma excelente esplanada de Cinema, com “écran” para “CinemaScope”, um palco em cimento e uma plateia com bancos confortáveis, mas rústicos, pois não tinham cobertura para se protegerem das chuvas e, claro, os projectores “dernier cri” como material mais delicado, estava instalados numa cabina fechada. Havia ainda um Bar bem fornecido.
Avançava-se um pouco mais e encontrava-se a área destinada a acampamento dos militares recém-chegados, que constavam de casernas de cimento semi-alpendre, com camas de betão, onde se colocavam colchões de espuma para servirem de cama(isto para praças, pois aos sargentos davam umas barracas de madeira tipo JC, onde se fazia o serviço de Secretaria, numa parte e alojamento noutra. Os oficiais e o Comandante iam para Luanda procurar outras acomodações mais compatíveis com o seu “statu”.
Pois, meus caros camaradas, o que vou dizer agora não é, para vós, nenhuma novidade, mas apenas para dar a conhecer a outras pessoas que desconhecem estes factos: O melhor da “festa” era à noite!...Enquanto era dia, a vida desenrolava-se normalmente e sem contratempos de maior!... Sim!...Como ia dizendo, à noite, é que eram elas!...: Eram todos atacados por esquadrilhas, “nuvens” de mosquitos em tal quantidade que não se conseguia dormir e só se ouviam as “palmadas” que os indefesos militares descarregavam neles próprios ao se sentirem “picados” por aqueles atacantes nocturnos esfomeados de sangue "fresco" e, de manhã, ao olharem uns para os outros, diziam: “Olha lá! Deves estar atacado de sarampo ou varicela! ” Respondiam-lhes. Não estou! Estamos!
Resta-me acrescentar que a passagem pelo CM do Grafanil, era feita essencialmemte para dotar as Companhias ou Unidades dos materiais necessários ao cumprimento da missão que vinham cumprir. Como os militares chegavam só com o fardamento, sem armas individuais e equipamentos estes eram levantados nos Depósitos respectivos, sendo-lhes então entregues, juntamente com outros materiais complementares.
Com esta pequena história, apenas pretendi relembrar esta experiência que, para vós, “Panteras Negras” da CArt 3514, foi única e sem repetição mas, que para mim, não foi assim, pois passei três vezes por esse “Inferno”!....
Acho que vou ter de terminar este “palavreado”, pois o “post” está a ficar um bocado longo e não quero tornar-me importuno a ninguém. Assim, e terminando, envio cordiais saudações para os restantes camaradas colaboradores, para todos os elementos da família Panteras Negras e familiares e para todos os eventuais visitantes deste blogue, onde quer que se encontrem.
Para todos um abraço do camarada e Amigo,
Botelho

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Estórias d´Angola

Retirada Estratégica
No inicio de 73 a desmatação da nova via rodoviária, chegara ás margens Luati, local pouco afamado, pela actividade operacional permanente, vale estreito, mata envolvente muito cerrada, distante de tudo e de todos, onde as comunicações rádio eram difíceis de dia e à noite totalmente nulas, sujeitando-nos a ficar por nossa conta e risco até ao nascer do sol. Escolhemos um local para fazer o acampamento na orla da mata a meia encosta, na descida para o rio, já perto da ponte de madeira existente, numa zona densa com árvores de médio porte que nos protegiam do meio ambiente e do calor o dia inteiro.
O Luati era um corredor de passagem muito referenciado, com alguns trajectos utilizados pela guerrilha na infiltração de armamento e homens, entre as bases na Zâmbia e a floresta do Muié na região de Cangombe.
Face ás circunstâncias o 1º Grupo foi reforçado na altura com uma secção do 3ºGr durante algumas semanas, algum tempo depois de mudar o poiso e assentar o pó, começámos a fazer reconhecimentos diurnos na periferia á procura de chanas, picadas e trilhos de animais, apalpar o terreno envolvente, algumas das vezes com percursos na ordem dos vinte kms.
Protecção á Tecnil numa frente de trabalho
Ambientados ao meio, retomámos os raids nocturnos atrás da caça, e numa dessas saídas o imprevisto aconteceu no caminho de regresso, o condutor não sei se o Pires ou Beja, não me recordo, desacelera a Berliett e aponta para o caminho, á sarilhos, sussurra em voz baixa, olhem bem, passaram aqui os gajos á pouco tempo, havia pegadas frescas de botas da tropa, ficamos alarmados, desligamos o motor descemos e o Araújo Rodrigues de holofote em punho tenta averiguar se o tipo de rasto era similar ao do nosso calçado, parecia que sim, mas continuávamos com muito medo, havia mais de uma dezena de pegadas a toda a largura da picada, era pessoal que caminhava á vontade e sem receios, afastámo-nos da viatura, acocorados na escuridão, esperámos em silêncio e na expectativa, sem saber o que fazer de imediato, alguns longos minutos que mais pareceram horas, ouvimos por fim uma voz ecoar na noite, “Camaradas somos do Ninda, perdemo-nos, andamos á procura da picada,” depois outra voz com um sotaque genuíno “vocês sois da catorze? Nós somos do cabalo branco, carago..!!” Se dúvidas existiam, dissiparam-se com aquela inconfundível pronúncia do norte, após este grande momento de tensão e estabelecido o contacto, estalou o arraial com abraços e risos da tremedeira, o Alferes e os Furriéis de armas em bandoleira, depois de justificações, argumentos e considerandos da ordem, só queriam saber se tínhamos cerveja para dispensar ao pessoal.                                                               
Tudo para cima da Berliett a caminho do acampamento, onde nessa noite se esfolou uma cabra do mato para dar comer aquele pessoal, que só sossegaram depois de acabar a cerveja. O Saramago que estava de serviço de sentinela com a sua secção acabou fazendo as honras do bar ao Alferes Maçarico e depois dumas cervejolas bem bebidas e umas cigarradas, emprestou-lhe a tarimba por três noites. (Uma cama com colchão nestas paragens era uma dádiva caída do céu).
O Alferes Maçarico, tinha chegado há quinze dias em rendição individual à CCS do Batalhão e colocado numa Companhia em Ninda no comando deste grupo de combate, a rapaziada já tinham um ano de leste, fartos de porrada, afectados pelo cacimbo, cansados de palmilhar mata, na fase decrescente a contarem os dias um a um à espera de rodarem para Malange.
Foram lançados manhã cedo a oeste da nascente do Mucoio, numa operação de quatro dias, ao final da tarde alcançam a margem do Luati, detectam movimentações na zona com cheiro a esturro, enviesaram o objectivo rodando para leste, caminhando na orla da mata ao longo da chana do rio até encontrarem a picada Gago Coutinho, Ninda.
Nunca pensaram caminhar tantas horas, e muito menos esbarrarem com o pessoal da catorze, naquele local e àquela hora da noite, de holofote em punho aos tiros atrás das cabras e das palancas.
Á noite no convívio do jantar, sob a luz do petromax, comentava-mos com eles em dialecto castrense, a razão pela qual tinham usado, aquela retirada estratégica, retorquiam na galhofa, baldámo-nos ou melhor, pirámo-nos, vocês vão para lá aos fogachos, espantam os turras e depois querem que a gente os agarre..!! Nos dias seguintes ao romper da aurora, tomavam uma malga de leite ao pequeno-almoço e abandonavam o destacamento para o interior da mata onde passavam o dia a petiscar rações de combate, a cozinhar pistas, a inventarem azimutes e coordenadas, para enviarem ao centro de operações.
Pratulha de reconhecimento numa chana
Regressavam antes do pôr-do-sol, largavam as mochilas e zarpavam a caminho do rio para um banho refrescante, na volta tomavam uma refeição quente do nosso rancho, depois do serão, acomodavam-se no chão das tendas, debaixo da viatura e onde calhava, para descansar e dormir.
Demos-lhes asilo e tacho, durante três noites, semanas mais tarde o Alferes Maçarico passou numa coluna pelo destacamento, para deixar umas grades de cerveja como recompensa e entregar ao saudoso Saramago, um “cartão de visita”, que depois de passar á peluda, lhe abriu a porta na maior fábrica de papel da península, como tributo, pela acção espontânea e desinteressada, como era hábito na sua maneira de ser e estar na vida.
Adeus até ao meu regresso

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Noticias de Lumbala Nguimbo


 Bundas - Um bebé de duas semanas morreu hoje, carbonizado em consequência de um incêndio, no bairro Kaxito, na Vila de Lumbala-Nguimbo (Moxico), por negligência dos pais. Os progenitores da criança sofreram queimaduras graves e foram transferidos para o Hospital Provincial do Moxico, onde recebem cuidados médicos. A mãe do bebé, Matins Chipipa, reconhece a culpa e diz que o incêndio foi provocado por sua negligência por querer entornar gasolina de um recipiente para outro, daí a combustão. Testemunhas informaram à Angop que a possibilidade de extinguir o fogo e salvar o bebé foi pouca, dada a intensidade das chamas, tendo em conta o material com que foi construída a casa (adobes e tecto coberto de capim). A falta de Serviço de Bombeiros na sede municipal dos Bundas para acudir casos de género é uma necessidade levantada pelas autoridades locais. Lumbala-Nguimbo é a sede municipal dos Bundas, situada a 356 quilómetros a sul da cidade do Luena. Tem uma população estimada em 53 mil e 484 habitantes distribuídos em seis comunas, nomedamente, Luvuei, Lutembo, Mussuma, Ninda, Sessa e Chiume.
AngolaPress 

Fátima 2010 (3)

Mensagens  recebidas e lidas no convívio:
"
Um grande abraço para SI.
Infelizmente este ano não poderei estar presente no nosso convívio, transmita um grande abraço a TODO PESSOAL e muita saúde para todos.
Rui Crisóstomo dos Santos
"
Estimados amigos, antes de mais agradeço muito este convite e acuso muito a recepção desta estimada carta que recebi com bastante satisfação, que me deu uma grande alegria e a oportunidade de puder comunicar com todos vós depois de longos anos sem notícias. Mas este ano não é possível, não sei se vou de férias, mas nessa data não vai dar, de qualquer forma muito obrigado pela atenção. A finalizar quero enviar um grande abraço para todos os nossos colegas, até uma próxima oportunidade, sempre ao dispor.
João Pinto da Fonseca
Bourget - France
"
Amigos e Companheiros
É com desagrado que informo que por motivos imprevistos não poderei estar presente no nosso encontro do próximo dia 18. Espero que tudo corra bem, com espírito de camaradagem como vivemos há 36 anos. Agradeço a todos o empenho, a dedicação e o trabalho de me terem convidado. Com a promessa de nos encontrarmos numa próxima oportunidade envio um forte e sentido abraço para todos os Artilheiros presentes e ausentes, com votos de que vos aconteça tudo de bom. Não há ninguém que ocupe, o lugar de um Pantera, mas mesmo com menos um, haverá sempre primavera.
Vosso amigo e companheiro
Fernando Pereira de Oliveira
"
Outras mensagens recebidas por SMS e Tel. de alguns camaradas que por motivos vários, não puderam estar presentes fisicamente, mas que não se esqueceram de manifestar de alguma forma, com palavras de amizade e muita saúde, óptima confraternização e um grande abraço a todos os presentes:
Bernardino Candeias Careca, Daniel Venâncio do Carmo, César Soares de Castro, António Dias de Freitas, Gilberto Nunes, Hélder Ramos dos Santos, Joaquim da Cruz Pimenta, António Elísio Soares.
"
Em nome desta amizade.
Camaradas, Família e Amigos.
Em nome dessa amizade, que tão bem  preservamos até aos dias de hoje, amizade construída á muito tempo nas dificuldades, na entreajuda e na solidariedade que soubemos consolidar ao longo do tempo no seio da nossa Companhia.
Em nome dessa amizade, quero aqui saudar a vossa presença, assim como de todos os familiares e amigos, neste encontro comemorativo do 36º aniversário da nossa chegada a Lisboa, na noite de 23 de Julho de 1974, após 27 longos meses no leste Angola, e relembrar com exactidão, “os 842 dias de sacrifício passados num local hostil, onde cumprimos a nossa comissão, muitas vezes em missões arriscadas, mas também em aventuras insensatas, aprendemos a lei do “desenrasca”, sofremos os traumas da guerra, as insónias do medo, sentimos a impaciência dos dias, o desespero da distância os efeitos do cacimbo, palmilhamos picadas, vivemos momentos de incerteza, vimos sofrer e morrer, perdemos os amigos  Ernesto e Ricardo, mas nós bafejados pela sorte e pelo divino, devemos dar graças a Deus por estarmos hoje aqui, confraternizando e comemorando a glória de termos regressado com saúde e algum juízo..!!
Com o passar dos anos, começámos a sentir a vontade premente de saber o que era feito deste e daquele companheiro, daquela rapaziada ao nosso lado no retrato, demos volta ao sótão a revisitar o passado, revivemos sózinhos momentos e memórias que não podíamos partilhar, recordações que só a gente sente, que só a gente compreende. Ao apelo do Parreira e do Medeiros, respondemos com uma reunião na Mealhada na companhia do António Duarte do Pereirinha e julgo que também o nosso antigo Comandante, Rui Crisóstomo dos Santos, foi o inicio deste ciclo de encontros, com o primeiro no ano de 94 em Vale da Mó-Anadia com apenas duas dezenas de participantes, entre companheiros e familiares.
Depois começou a sério, com a chegada de muitos de vós, que nunca quebraram a rede de contactos, foi uma bola de neve, com a entrada todos os anos de mais participantes, encontrados através duma dica dum companheiro, através dos TLPs, das juntas de Freguesia, na Internet e também da vontade infinita de ressuscitar muitos daqueles que o tempo rompeu os elos de comunicação com o universo da cart3514.
Foi com imensa satisfação e prazer que envolvi alguns de vós nesta campanha, e hoje não vamos deixar passar a oportunidade de dar as boas vindas, saudar e aplaudir os companheiros que pela primeira vez abraçaram este convívio, Luís Manuel Francisco Alves, Augusto José Libãneo, António Santos Oliveira, Luís Fernando Pereira Rego, José Alves Pereira Ribeiro, Luís Ferreira da Silva, Graciano Fernando Simões, os Cabo-Verdianos, Adriano Mendes Teixeira e o João António Fontes, Joaquim das Neves Tavares, José Jesus da Cruz, e por último o José da Cunha Ramalhosa, o ”Homem dos Cinco Continentes,” que viajou de tão longe, fazendo um sacrifício enorme de New Jersey nos EUA até Fátima em nome desta nobre causa que aqui nos trouxe “AMIZADE”.
"
Antes de acabar queria deixar uma pequena mensagem enviada a todos nós pela família dum nosso saudoso amigo, após o seu falecimento e que alguns já conhecem pois está no nosso Blog. É um pequeno trecho que muito me sensibiliza, sempre que o leio.
«Amizades que o tempo não destrói»
em http://cart3514.blogspot.com/2009/05/amizades-que-o-tempo-nao-destroi.html
"
Para terminar queria lembrar e homenagear todos os camaradas “panteras negras” que partiram na frente, mas que nunca deixarão estar presentes nestes momentos e na nossa memória colectiva. Obrigado pela atenção.
Bem ajam

domingo, 10 de outubro de 2010

Fátima 2010 (2)

Dos Açores com Amizade
Para os Camaradas da Cart.3514 presentes no convivio do passado dia 18 de Setembro 
Gostaria hoje de estar aqui para convosco celebrar com paixão e muita alegria o nosso 36º aniversário, revendo amigos, abraçando os que pela primeira vez se apresentam nestes Encontros e recordar momentos de grande prazer e comunhão que todos viveram.
Gostaria hoje de estar aqui para, neste grandioso e mítico altar de peregrinação de povos e civilizações, berço de religiosidade cristã, agradecer à Virgem de Fátima a graça que nos concedeu, pela protecção das nossas vidas e das nossas familias, do flagelo e sevícias duma guerra colonial imposta por tiranos, contra a legítima emancipação de povos, tais como nós, vergonhosamente explorados e oprimidos.
Gostaria hoje de estar aqui para, uma vez mais, manifestar o meu apreço e gratidão pelos camaradas Duarte, Gonçalves, Carrusca, Carvalho e suas familias, por serem eles o símbolo do serviço, da disponibilidade e do verdadeiro espirito de grupo, não se poupando a esforços para, de forma entusiástica, congregarem, através da organização destes Encontros, colegas e acompanhantes, a manterem sempre vivas a chama da amizade e fraternidade, denominador que de forma transversal a todos nos uniu naquela que foi a nossa façanha Africana, que pretendemos divulgá-la e transportá-la para as gerações futuras.
Gostaria hoje de estar aqui para vos recordar que manter essa chama e reescrevê-la para memória  futura, também é possivel fazê-lo através do nosso Blogue, das mensagens, da revisitação dos testemunhos de cada qual, dos comentários, das fotos, ou seja, através de uma participação activa que muitos de nós poderia, seguramente, aceitar  envolvendo-se assim num compromisso de cidadania em prol da consciência cívica.
Não é fácil manter aquele tipo de Blogue pelo “círculo vicioso” de informação - alguma reciclada - a que todos estamos sujeitos, relatando factos verídicos sim, ainda que circunscritos ao periodo de tempo em que fômos envolvidos na guerra. Daí a necessidade de cada qual contribuir com a sua estória, por mais simples que seja, para continuarmos a ter conteúdos  e substância para a sua divulgação, registo e manutenção.
Só o esforço titânico, até heroico do seu fundador e responsável, o Carvalho, e colaboração de meia dúzia de camaradas, tem sido possivel tê-lo bem vivo e presente nos nossos monitores informáticos, dando-nos noticia do reencontro de colegas, expurgando relatos e surpreendendo-nos, aqui e ali, por factos nunca dantes contados.
Gostaria hoje de estar aqui para em uníssono elevarmos o nosso espirito ao Divino e recordarmos todos os nossos camaradas falecidos, para que o seu descanso em paz, continue a alimentar a tranquilidade, a esperança e a coragem das suas familias.
Gostaria hoje de estar aqui para vos dizer  bem alto que, do coração, vos AMO a todos.
Finalmente, HOJE gostaria de estar aqui para num grito de guerra, convosco, mais uma vez e sempre gritar; VIVA A LIBERDADE!...
Um abraço fraterno para todos os meus companheiros da CART 3514 e suas familias.
Ilha do Pico/Açores,
                        18 de Setembro de 2010                       
António Soares ´

Ps - (Mensagem do António Soares transmitida no decorrer do almoço-convivio do passado mês Setembro no D.Nuno em Fátima)

domingo, 3 de outubro de 2010

Fátima 2010 (1)

Agora que o convívio deste ano já passou é tempo de fazer o balanço deste encontro que ano após ano vai aumentando o número de presenças. Comecei a preparar a festa á um ano com a reserva dum espaço de restauração para uma centena de amigos e familiares, depois recomeçámos a labuta de encontrar o maior número de camaradas, que o tempo quebrara os elos de comunicação, empenhei o meu tempo e o de alguns camaradas nesta pesquisa que acabou dando frutos, mais de uma vintena de camaradas ressuscitados, com quem reatamos as vias de comunicação, foram momentos de muita persistência mas também de muita alegria sempre que reestabelecíamos contacto telefónico, alguns próximos outros nem tanto, encontra-mos na Ilha do Fogo o David Monteiro, em Angola o Arlindo Sousa, nos EUA o Ramalhosa, em França o Pinto de Fonseca. Enviámos 76 convites, 52 presenças, 73 acompanhantes entre Familiares e Amigos, 125 no total, tivemos 11 baixas, 6 recuperados, 12 maçaricos pela primeira vez no convívio que aqui quero destacar, (António Oliveira e Augusto Libâneo do1ºGr, Cunha Ramalhosa, José da Cruz, Adriano Teixeira e Francisco Alves do 2ºGr, Graciano Simões e  José Ribeiro do 3ºGr, João Fontes e Ferreira da Silva do 4ºGr, Neves Tavares e Pereira Rego das Trms), de realçar a presença pela primeira de dois camaradas de Cabo Verde, que muito nos honrou e a promessa  de trazerem mais gente para o ano.
Na sexta-feira fui ao aeroporto de Lisboa buscar um convidado especial, o amigo e decano da companhia, Octávio Botelho vindo de S. Miguel nos Açores, ao fim da tarde recebemos um convite do Monteiro para jantar em Fátima com o Medeiros e as Esposas a que não podíamos faltar de modo algum, era meia noite estávamos a chegar a Torres Novas, na manhã seguinte novamente em Fátima dando as boas vindas á rapaziada repetente nestas andanças que tiveram alguma dificuldade em reconhecer as muitas caras novas que este ano se apresentaram pela primeira vez.
Quero agradecer a todos, que ajudaram na preparação e na participação desta nossa festa,  ás famílias e amigos que nos acompanharam,  agradecer também aos companheiros ausentes que de alguma forma se aliaram ao evento, expressando através de mensagens e palavras de incentivo a sua amizade e vontade de nos acompanhar numa próxima oportunidade. 
 
Imagem dos 52 companheiros presentes em Fátima
1ª fila-Jomi, Paulo Ribeiro, Angelo, Pereirinha, Beja, Milo, Carvalho, Carrusca, Galvão, Medeiros.
2ª fila- Cruz, Ruivo, Águas, Manuel José Oliveira, Costa Carreira, Porfirio Gonçalves, César Correia Ermandino Nunes, Botelho, Luis Ferreira da Silva, Antonio Oliveira, Gaspar, Francisco Alves.
3ª fila-Vieira, José Alves Ribeiro, Eduardo Barros, Parreirinha, Fonseca Marques, Fogeiro, Raul Sousa. Serafim Gonçalves, Augusto Libâneo, Dias Monteiro, João António Fontes, Melo.
4ª fila-  Ramalhosa, Graciano Simões, Aguiar, Nunes de Matos, António Manuel Oliveira, Emilio Pires, Victor Dinis, António Duarte,  Araujo Rodrigues, Parreira, Costa e Silva, Tavares, Fernando Rego, Conceição, Adriano Mendes Teixeira,  Santiago Duarte.

sábado, 25 de setembro de 2010

Rectificação ao "post" anterior

Caros Camaradas e Amigos:
Após uma posterior revisão do "post" que antecede e de que fui autor, verifiquei ter cometido um lapso de que, desde já peço desculpas ao Camarada Carlos Porfírio Gonçalves que, na CArt 3514, fazia parte da equipa da "Ferrugem", como Sold.Mec Auto Rodas, pois foi ele que, na verdade, me deu a boleia desde Boleiros-Fátima, até à casa da minha irmã, junto à Repsol na Banática- Monte da Caparica, após o convívio deste ano. Em seu lugar, nomeei o Cabo Oliveira, também da "Ferrugem", como tendo-me dado essa boleia, o que não corresponde à verdade!... Fica assim reposta a verdade dos factos e reitero aos dois, em especial ao Porfírio Gonçalves, o meu pedido de desculpas e uma vez mais, manifesto o meu agradecimento. Um abraço para os dois e, (quem sabe?!...) até ao próximo convívio em Arganil.
Botelho
P.S. - Deixo aqui um antigo ditado que diz : "Errar é humano", mas eu acrescento mais: "Errar é humano, mas persistir no erro, é "burrice"!..."
Botelho

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Convívio CArt.3514, em 18/09/10, Boleiros-Fátima


Caros Amigos e Camaradas “Panteras Negras”:
À semelhança do anterior convívio, cá estou de novo para vos apresentar a todos, mas em especial aos ausentes , uma simples mas, ao mesmo tempo, completa descrição do que foi a celebração do 6º.Convívio comemorativo do 36º.Aniversário do regresso à Metrópole da CArt 3514(Panteras Negras).
A minha presença neste Convívio, neste ano, esteve em causa, devido às minhas dificuldades de saúde!...Mas, a verdade é que, apesar dos meus 73(quase 74 anos de idade) e dos mais variados óbices que se me apresentam no campo da saúde, nem assim deixaram de me empurrar para o Continente Português, deixando para trás a tranquilidade e sossego da minha terra, para me aproximar dos meus camaradas que, neste desafio jogam em casa, o que na verdade não acontece comigo pelo que, neste aspecto, estão em vantagem perante a minha situação. Mas, a razão por que estou aqui hoje, é muito diversa da que vos estou a transmitir neste momento!...
Mas ainda assim, não quero deixar de vos lembrar que para me aproximar de vós, tive que voar 3400 Km(ida e volta), para poder estar presente junto de vós!...Mas, prossigamos!...
O Convívio deste ano, como é sabido por todos, foi realizado sob a liderança do nosso Camarada António Carvalho e comemorou, como disse acima, o 36º.Aniversário da Chegada aos nossos Lares, desde o nosso regresso da RMAngola e foi o 6º.Evento Comemorativo de tal data. Para mim foi o 2º. e fiquei de tal modo “viciado” nessas comemorações que, nem as dificuldades próprias da minha saúde me impediram de estar presente de novo junto de vós.
O local escolhido para tal comemoração é também do conhecimento de todos: Fátima, o Altar do Mundo!...Num dos parques foi feita a concentração e aí, já se começaram a contactar, à medida que chegavam, os aderentes ao convívio, antigos e estreantes. A grande maioria eram repetentes nestas andanças!...Naturalmente trocaram-se os abraços e cumprimentos entusiásticos da praxe!...Mas, surgem novidades: Algumas caras novas estreantes. Não os menciono, porque sei que alguém se encarregará disso e acrescentará outros pormenores que, aqui e agora, não referirei. Após completada a concentração , como era natural e como gesto de agradecimento à Virgem Maria pela protecção que a todos nos ofereceu enquanto pernanecemos em África, foi o convívio iniciado por uma visita ao Santuário, sua residência na Cova da Iria, em plena Serra d’Aire, no limite sul da Beira Litoral.
De seguida, organizou-se uma caravana auto tendo como guia o organizador do evento que, após uma dezena de quilómetros, se tanto, introduziu no parque privativo do Complexo Turístico D.Nuno, todos os elementos da caravana. De seguida foi todo o pessoal encaminhado para um vasto “buffet”, carregado da maior variedade de aperitivos típicos da zona e que, só eles, chegavam para uma completa refeição.
Terminados que foram os aperitivos, foi o pessoal encaminhado para uma vasta sala de jantar, onde lhes foi servido um almoço, optimamente composto de uma sopa, um prato de peixe(bacalhau) seguido dum prato de carne(bifes), tudo optimamente apresentado, tudo isto acompanhado de bebidas à discrição(Vinhos branco e tinto, sumos, água, à escolha e opção de cada um). Seguidamente, foi servida uma sobremesa, capaz de matar um diabético, mas que, a mim, não fez mal algum, apesar de a ter comido toda. Arrematou tudo isto um cafezinho.
Por volta das 18H00, é-nos posta novamente a mesa, com uma refeição, composta de sopa(caldo verde) e um segundo prato com uns bifes excepcionalmente saborosos. Por volta das l9H00 é servido o bolo de aniversário com o respectivo espumante. Por volta das 20H30, estava terminado o convívio e os convivas começaram, lentamente, a dispersar
Tudo foi optimamente organizado, com um serviço modelar e irrepreensível.
Sem querer fazer comparações com anteriores convívios, de que também gostei, neste apenas faltou a animação musical que teve o anterior. Apesar disso, gostei muito deste e do ambiente mais intimista e tranquilo que permitiu uma boa comunicação e conversações com os comensais mais próximos o que não seria possível se houvesse presente na sala de refeições o ruído agressivo de uma orquestra ou conjunto musical. Foi tudo mais tranquilo e com um óptimo ambiente.
Ao Promotor do Convívio deste ano, apresento os meus parabéns pelo excelente desempenho da missão de que foi encarregado. Quero ainda manifestar-lhe o meu profundo reconhecimento e gratidão pelo apoio e atenções com que me cumulou, desde a minha chegada a Lisboa, até à minha despedida. Quero também aqui manifestar o meu agradecimento ao Oliveira mecânico e familiares a “boleia” que me facultaram, deste Fátima, até à casa da minha irmã, junto à REPSOL, na Banática.(Monte da Caparica).
Não quero alongar mais este “post” que já saiu dos limites.Termino enviando cordiais saudações aos restantes colaboradores deste blogue e familiares, assim como para todos os “Panteras Negras” e seus familiares e ainda aos eventuais visitantes em qualquer parte em que se encontrem.
Um abração para todos do camarada e amigo,
Botelho

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

A Caminho das Terras do Fim do Mundo (5)

Ali no Lufuta, naquelas paragens inóspitas da savana africana, havia uma importante preocupação diária, a que já, anteriormente, nos referimos - a segurança. A hipótese de um ataque ao acampamento não era ficção e não podia nunca ser encarada com leviandade. Erro seria admitir o contrário, mesmo sabendo que isso não acontecera com o grupo de combate que nos antecedeu da Caç3370. Pensando em tudo isto, pediu-se à TECNIL, cuja nossa principal função era dar protecção ao seu pessoal e maquinaria, para nos protegerem o acampamento e os seus "bungalows" erguendo uma barreira de areias e laterites com, mais ou menos, metro e meio de altura, circundando todo o acampamento que, assim, nos passaria a garantir uma confortável segurança no caso de acontecer um "aperto" inesperado. Apesar de parecer que estávamos mais protegidos, nunca se baixou a "guarda" e todos levavam isso a sério, como ficou comprovado certa vez e se demonstra com o episódio que de seguida passo a narrar:
" BUNGALOWS"
Cerca de um mês a mês e meio após a nossa chegada, uma secção de pessoal foi dar protecção a uma máquina bate-estacas que procedia à execução dos pilares daquela que seria a nova ponte do Lufuta na via de ligação Luso/Gago Coutinho. Como se tornava necessária presença diurna e nocturna, lá se tiveram de instalar dois dos "bungalows" que nos haveriam de acompanhar por toda a parte desde o primeiro ao último dia. Também aí, a segurança era a palavra de ordem mais importante. Com pouco tempo de Leste, estávamos todos a sofrer os primeiros efeitos do famoso cacimbo(*). Para nós os militares, o cacimbo, transformava-se num vírus benigno umas vezes outras nem tanto, mas que nos imunizava contra tudo e contra todos . Este vírus, já na época, era muito democrático, porque atacava toda a gente independentemente da sua patente, todos ficavam cacimbados(**). Uma certa tardinha, em que algo correu mal pelos lados da cozinha, se assim se podia chamar àquilo sem correr o risco de insultar os cozinheiros, em face da precariedade dos meios, aconteceu que o jantar, que deveria estar pronto por volta das 17.00 horas, só lá por volta das 20.00 é que seria dado por concluído. Ora, a secção que estava destacada na ponte acima referida, e que vulgarmente tinha a "janta" aí pelas cinco ou cinco e meia, sentiram-se esquecidos. Aí pelas 19.30, com tudo silencioso calmo e tranquilo, ouve-se o estrondo de uma granada que colocou tudo em "alerta vermelho". Todos imaginaram:
"O pessoal do destacamento está a ser atacado!".
Em breves momentos o pessoal da força "Delta One" , da qual eu também fazia parte - assim os designo por nela incluir o Maurício Ribeiro - mandou instalar segurança no acampamento e, armados até aos dentes, partiram pela berma da chana, em certos sítios, "tira pé, mete pé", fez em poucos minutos uma aproximação ao destacamento, que ainda distava aí uns bons mil metros ou mais do acampamento. Lá chegados, verificámos que estava tudo dentro da normalidade e “dentro dos conformes”, como diria o nosso amigo Odorico, promotor do cemitério de Sucupira, artista de outras telenovelas muito posteriores a este episódio.
Verificada a normalidade, a questão que permanecia, era o que realmente teria acontecido. Quando o Maurício, tal e qual como os outros - sujos, molhados, cheios de lama e porque não dizê-lo cheios de "coragem miudinha" - perguntaram ao Raul Sousa, o que se tinha passado para ele ter lançado uma granada, ele com a maior das calmas e descontracção, apanágio que sempre o acompanhou durante toda a comissão, mesmo nos momentos mais difíceis, respondeu: - Então, estamos cheios de fome, e o rancho, não veio!!!
- Oh pá, não brinques, mas a granada não é só para ser lançada em último recurso?
- Pois!...E achas que, sem tacho, sem rádio e às oito da noite, não foi mesmo em último recurso?!
Perante a resposta tão rápida, desconcertante e vista a esta distância, com plena justificação, foi gargalhada geral e tudo acabou ali mesmo.
Por agora, ficamos por aqui, mas a nossa história nas margens do Lufuta ainda não acaba com este episódio.
Em especial, a todos os camaradas que fizeram parte do 4º Grupo, e, em geral, a toda a família Panteras Negras, um grande abraço.
Até Fátima.

(*) "cacimbo" – nevoeiro denso que se forma à noitinha e de madrugada em alguns pontos de quase toda a África, acompanhada de chuva miudinha e fria, muito prejudicial para a saúde dos que a ela se expõem sem a devida protecção. Ocorre na época seca tropical(Inverno).

(**) " cacimbado" - em gíria militar era uma "doença psicológica benigna" de que quase todos os militares padeciam, aí dos dois meses de comissão em diante, cuja única consequência era a de ficarem "passados dos carretos".