o0o A Companhia de Artilharia 3514 voou para Angola no dia 2 de Abril de 1972 (Domingo de Páscoa) num Boeing 707 dos Tams e regressou no dia 23 de Julho de 1974, após 842 dias na ZML de Angola, no subsector de Gago Coutinho, Provincia do Moxico o0o Rendemos a CCAÇ.3370 em Luanguinga em 11 de Abril de 1972 e fomos rendidos pela CCAÇ.4246 na Colina do Nengo em Junho de 1974. Estivemos adidos ao BCav3862 e depois ao BArt6320 oOo O Efectivo da Companhia era composto por 172 Homens «125 Continentais, 43 Cabo-Verdianos e 4 Açorianos» oOo

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Tavira - Sacrifício dos Inocentes (2)

Da última vez que por aqui andei, falei-vos da minha chegada triunfal ao CISMI em Tavira, efeméride que nunca mais esquecerei durante a vida.Mas, passado o primeiro impacto, fui a jogo, não fosse aquilo que me tinha acontecido ser bluff e por isso, paguei para ver no que aquilo ia dar. E podem crer que só fiz, realmente, POKER no último dia quando me deram a guia de marcha com destino a Vila Real, ao Regimento de Infantaria 13. Mas até que isso chegasse, passaram-se 14 longas e penosas semanas em Tavira. Ali no CISMI, sigla esta que, no final da primeira semana, já não tinha o mesmo significado, embora as iniciais fossem as mesmas, já queriam dizer uma coisa real e totalmente diferente: Centenas de Infelizes Sacrificados e Martirizados Inocentemente. Os rituais desta “guerra” eram uma dança que, afinal, tinha um pouco a ver com o Corridinho Algarvio, dança muito rápida e, cansativa, a raiar a violência!... E esta era a música que se dançava no quartel!... E os passos da dança do CISMI, ensaiavam-se de manhã, à tarde e muitas vezes à noite.Para começar o dia, logo após o pequeno-almoço, já que o quartel era pequeno, saímos umas vezes a marchar ao som cadenciado de um, dois, esquerda, direita; outras em passo de corrida até ao Campo da Atalaia. Aí iniciávamos o circuito do “pagador de promessas”, com umas corridas para aquecer e que passavam na frente de meia dúzia de capelas ou igrejas que margeavam todo o espaço do campo de treinos da Atalaia. Depois destas brincadeiras e outras afins, que nos iam moendo o corpo, seguíamos fatalmente até à maior atração turística daqueles sítios e que os nossos instrutores não esqueciam de nos mostrar diariamente de uma forma sui generis!... Quando lá chegávamos às salinas, todo o pelotão era mandado seguir em fila de pirilau (este pirilau não tem nada a ver com um outro que se possa pensar!...) ou fila indiana, por uma das divisórias que seguravam a água das salinas e eles, os artistas maiores (cabos milicianos e os aspirantes ou alferes, conforme os casos), seguiam pela divisória que ficava defronte dos “infelizes e sacrificados”. De lá, sem problemas guturais, berravam bem alto para que ninguém os ignorasse: -QUEDA FACIAL EM FRENTE!…
Canal de acesso da água do mar às Salinas
Local escolhido onde "chafurdavamos" com mais frequência
Era o mata-bicho mais delicioso que eles podiam saborear!... Ouvirem o barulho da queda naquele charco e naquele lodo nauseabundo da água das salinas, era o antiácido que eles precisavam para aquela azia própria de "militares zelosos e com a mania do aprumo”, mais xicos e lateiros que eu conheci em toda a minha vida de tropa "fandanga". Era puro gozo que lhe víamos estampado no rosto!... Assim quase como que um aperitivo antes do almoço. Depois deste cerimonial, com que os grandes senhores (daquela guerra) martirizavam os inocentes, era hora de regressar ao quartel em passo de corrida, quase sempre com a água a saltar das botas, mas que tinha o condão de nos fazer chegar à caserna com a farda praticamente seca. O remédio era mudar de roupa em grande velocidade, quase como os modelos fazem nos seus shows de apresentação das peças da nova estação.
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Preparação das salinas para a nova Safra
Com o fatinho mudado, roupinha limpa e as botas engraxadas, caminhávamos para a formatura do almoço, munidos do material individual, próprio desta outra batalha, que iríamos travar com a fome e que constava de talher e tampa do cantil, acessório este para beber água ou vinho. Eu bebia vinho, que não era mau, quer na qualidade quer na quantidade e porque, como com cerca de vinte e um anos, tinha saúde de ferro e não queria enferrujar o organismo. Bem, da ementa que se servia no CISMI, o prato que mais me recordo e dos mais típicos dos chefes cozinheiros era o carapau recheado, que constava de carapau frito com tripa e escama, daí o seu nome de ”carapaus recheados”….!Todavia, nos dias em que (à data) o Capitão Folques, Comandante do Batalhão de Instrução, estava de Oficial de Dia, o rancho era sempre do bom e do melhor, isto por ele ser muito exigente e sempre rejeitar o rancho que lhe era apresentado. Perante esta situação o que os "mestres da culinária" mais rápido conseguiam confecionar, era bife com batatas fritas e "ovo a cavalo", apesar de sermos de Infantaria.Depois do almoço, então na calma dos deuses, talvez mercê da qualidade do vinho, e não do estômago temperado, a tarde decorria calma e era muito melhor tolerada. O tempo passava mais rápido de volta das aulas de instrução táctica que duravam até às cinco e meia da tarde. Uma pausa para o banho, para novamente nos barbearmos, enfiarmos o fatinho de saída, a preparação para darmos uma voltinha por Tavira e seus arredores e arranjarmos uma gaiata a rodar a nossa idade para o namorico ou, mais tarde, para retemperar o buraquito no estômago que tinha ficado em vão na hora do almoço. Um dos restaurantes mais procurados ficava depois da ponte do rio Gilão em direção a Vila Real de Santo António e que era, nada mais nada menos, que uma churrasqueira que, além de servir a ave que lhe dava o nome, servia outros pratos. Os que por lá andaram naquela época, decerto não me desmentem. Entre todos, o prato mais requisitado era o bife com guarnição.Antes ainda de sairmos para o exterior do quartel, tínhamos de passar por outro ritual, também inesquecível. O instruendo mais ousado, colocava vinte ou trinta camaradas em formatura defronte do túnel de saída e junto ao gabinete de sua senhoria o Oficial de Dia à unidade, que se prestava logo a vir inspecionar as tropas e meus amigos, muitas vezes, desses trinta, só saíam dois ou três. Os outros, por terem a barba mal feita, o cabelo grande (em Tavira aparava-se o cabelo todas as semanas), a gravata mal colocada, os “amarelos” mal polidos, iam-se “ataviar” correctamente e voltavam quantas vezes ele, o senhor maior daquele dia e daquela guerra, entendesse. Entre eles todos havia um com a patente de tenente e que por semelhança física foi batizado com o nome de cabeça de …… (bácoro mas grande). Para verificar se as barbas estavam devidamente escanhoadas, dobrava uma folha A4 em duas e roçava-nos com ela na cara. Se ela fizesse barulho, era certo e sabido que mesmo que isso só acontecesse com um pobre diabo os outros não saiam também. Ia tudo para a caserna. Deste destemido guerreiro e defensor do seu alto espírito de aprumo militar, nunca mais esqueci e felizmente, era espécime único, porque nunca outro encontrei até ao final da minha tropa.
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Princípio da noite no Jardim dos Namoricos
Praça da República
Depois desta resenha de como era passado um dia em cheio no CISMI, quando não havia a dita instrução noturna, nem nos tinha calhado em rifa nenhum quarto de sentinela ou serviço à Casa da Guarda, ficamos agora por aqui, prometendo-vos contar, principalmente, o que se passava pela carreira de tiro em S. Marcos e o que se passou no Barranco do Velho na Serra do Caldeirão, já na fase final da nossa conquista do Reino dos Algarves que, passado um ano, nos levaria de conquista em conquista até às terras de Além Mar, às Terras do Fim do Mundo.
A todos os camaradas e amigos da CART3514 e aos seus familiares em suma a toda a Família "PANTERAS NEGRAS" votos de um BOM E SANTO NATAL e um ANO NOVO repleto de tudo o que mais desejarem.
Voltaremos a encontrar-nos um dia destes...

1 comentário :

  1. Caro camarada

    Votos de saúde para si e todos os camaradas da sua Companhia
    Estive a dar uma vista de olhos pelo vosso site e reparei que na coluna da direita estão uma série de Distintivos e Guiões de Unidades que serviram em Angola ao longo do tempo na vossa área.

    Dado estar integrado num grupo de trabalho que tenta recolher o máximo número de Distintivos de Unidades mobilizadas para o antigo Ultramar, peço-vos o favor de me enviarem fotos digitalizadas, se for possível, em tamanho natural das Unidades da lista que envio a fim de completarmos as respectivas folhas.

    -CCaç 4246/74--Nada consta em arquivo
    -3ª-Bart 6321/73--Temos a CCS/Bart 6321/73
    -CCaç 3370--Temos só o Distintivo
    -CArt 2731--Temos só o Guião
    -CConstruções 1807--Nada consta em arquivo

    Se necessitarem de fotos de alguma das Unidades em arquivo, façam favor de enviar lista.

    Estou a enviar esta mensagem por comentário, dado que enviei para o email constante no site: cart3541@gmail.com, e deu-me erro, eventualmente por estar cheio, neste seguiam em anexo o que temos em arquivo afim de, se necessário completarem o vosso arquivo de unidades que serviram na zona.

    O meu endereço: ccbitton@gmail.com

    Desejando um bom Natal e melhores entradas

    Atenciosamente, sou

    Carlos Coutinho

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