o0o A Companhia de Artilharia 3514 voou para Angola no dia 2 de Abril de 1972 (Domingo de Páscoa) num Boeing 707 dos Tams e regressou no dia 23 de Julho de 1974, após 842 dias na ZML de Angola, no subsector de Gago Coutinho, Provincia do Moxico o0o Rendemos a CCAÇ.3370 em Luanguinga em 11 de Abril de 1972 e fomos rendidos pela CCAÇ.4246 na Colina do Nengo em Junho de 1974. Estivemos adidos ao BCav3862 e depois ao BArt6320 oOo O Efectivo da Companhia era composto por 172 Homens «125 Continentais, 43 Cabo-Verdianos e 4 Açorianos» oOo

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

SOBA CAPÚLE

Após conclusão das obras do Nengo eis que surge um convite para que a nossa equipa fosse para Gago Coutinho construir uma Peixaria, mesmo defronte ao estabelecimento comercial do Senhor Aníbal, destinatário daquele novo investimento.
Analisado o projecto, hoje simples de o construir mas, à data, sem quaisquer conhecimentos técnico/científicos, valendo sómente o empirismo amador do "Bidonville" sobretudo do aquartelamento do Nengo, pedi ao Furriel Parreira, particular amigo, este sim com conhecimentos aprofundados sobre a matéria, para me dar algumas noções básicas daquela construção, desde logo pela sua implantação. De bom grado acedeu ao meu pedido e, do exterior das barreiras de protecção do aquartelamento, ensaiámos, várias vezes a sua implantação, esquadrias, folgas para as argamassas, rebôcos, limpos, etc.
Portador de todas estas noções básicas, lá reuni com a equipa de obras, com o César Correia como principal conselheiro, identificámos outras necessidades para o sucesso da mesma, concluindo que seria vantajoso a "requisição" aos Metralhas do companheiro Mil, especialista em rebôcos e acabamentos, que se juntou a nós e lá partimos cheios de entusiasmo para Gago Coutinho.
Aqui chegados tínhamos à nossa espera uma equipa de nativos, constituída por 2 mestres e cerca de 8 serventes que, sob a nossa coordenação, iriam connosco partilhar a construção da dita Peixaria.
Para que fosse rapidamente construída, a nossa equipa - de militares - pernoitou, durante alguns meses - três, salvo erro - em quartos da habitação própria do Sr. Aníbal, construção tipo colonial circundada por varandas, ficando o signatário separado destes, num espaço reservado e bem cuidado, no seu estabelecimento comercial, ao atravessar da rua.
A edificação foi tomando corpo dia após dia, com muitas faltas ao serviço dos serventes nativos, sem contudo haver grandes questões técnicas por resolver, diga-se, ressalvando-se uma anomalia grave, entretanto detectada e ordenada a sua correcção imediata pelo Administrador do Concelho de Gago Coutinho, pelo facto de termos utilizado ferro de 6 mm numa viga (imagine-se a segurança ? quando era suposto ser de 10 mm), que foi ultrapassada de imediato e que de facto veio pôr à prova os parcos e deficientes conhecimentos que, sobre a matéria, o encarregado da obra tinha - eu próprio, claro - mas que, a partir daí, outras situações jamais aconteceram, muito à custa de uma amizade feita com um construtor continental que ao lado supervisionava outra construção. Dava-me umas dicas quando necessárias, a "troco" de uns maços de tabaco da marca Coimbra - a 2$50 cada um - salpicados aqui e ali com umas garrafas de Martini, suponho que também a 2$50 cada uma.
E assim lá conseguimos chegar ao fim da obra para satisfação nossa e regalo do seu proprietário que muito enalteceu a sua qualidade, rapidez e o aspecto visual da mesma, face ao colorido garrido que a mesma ostentava; branco e azul com duas faixas no rodapé de vermelho e verde, cores muito ao gosto dos negros em geral.
Durante esse espaço de tempo que mediou a dita construção, conhecemos muita gente da Vila de Gago Coutinho, de entre ela, destaque para a esbelta filha do Governador - demasiado bonita para o meio e para as nossas cabeças- ...
Éramos entretanto sistemáticamente convidados pela população local para, aos fins de semana, participarmos nos seus batuques, cheios de música, colorido, animação, muito concorridos, com muita bebida nas gargantas e exorcismos próprios das suas crenças e etnias.
Da mesma forma mantivémos uma relação próxima e amiga com todos os nativos que trabalhavam connosco na obra. Isto originou que, inevitávelmente, aprendêssemos muitos dos vocábulos do dialecto que lá se falava, além de canções que aprendemos, cantando-as com eles nas suas farras. Uma delas, por ser muito simples, bonita e cheia de polifonia, chamava-se, Sóle, Sóle Lumetá que, invariavelmente, era cantada nas mais diversas circunstâncias, mesmo à entrada de um qualquer kimbo...
No fim daquela missão em Gago Coutinho, quase que dominávamos o dialecto, a tal ponto que falávamo-lo com grande à-vontade, sempre que a ocasião se proporcionava, muitas vezes mesmo na obra com os pedreiros e serventes oriundos da zona.
Certo dia um dos pedreiros, negro - o Sr. Humberto - pessoa de certa idade, calmo, muito educado, bom trabalhador e bom executante, saltou da sua "kinga" (bicicleta) cumprimentou-me de manhã com o seu habitual sorriso, "moio, gungungo?" (bom dia, estás bom?) acrescentando de seguida mais ou menos isto ; de hoje em diante vou passar a chamar-lhe Soba Capúle!
Fiquei atónito sem perceber o significado daquelas palavras, até que ele me respondeu: Sabe meu Furriel, em tempos havia aqui um Soba em Gago Coutinho que era muito estimado pelo seu povo. Deixou muitas saudades. Era muito alegre e amigo das pessoas. Você é parecido com ele e por isso recebe o seu nome.
Ora essa Sr. Humberto ! Não mereço tão honrosa distinção, respondi eu. De qualquer forma agradeci, meio envergonhado de tal sortilégio, não defraudando assim a mensagem que aquele homem quis passar.
Como se não bastasse e por espanto meu, no dia seguinte, o Sr. Humberto e alguns outros trabalhadores ao chegarem à obra, já me cumprimentaram como Soba Capúle e trouxeram um barrete, umas divisas e uma machadinha. Esta tinha como objectivo substituir a espingarda; as divisas, côr de pastel, eram constituídas por duas fitas caídas do ombro uns 10 cms, uma vermelha outra amarela; o barrete, com formato de cone, fazia parte também dessa indumentária.
Fiquei sensibilizado com tal atitude e então passei a usar em Gago Coutinho esse tipo de "fardamento", claro está, longe das vistas dos "chicos militares" do Batalhão existente na Vila.
Ainda hoje conservo, no meu baú de recordações estas insígnias, resquícios do que foi em tempos, um Soba tradicional de Gago Coutinho.
Tudo isto veio a "talhe de foice" pelo artigo emanado da Angola Press, trazido ontem ao nosso Blogue pelo Carvalho, sobre a reposição da Monarquia em Gago Coutinho.
Será que esse tal Soba Capúle pertencia à etnia ou dinastia dos MBundas? Se foi, então como seu "descendente", honrei o seu nome e o seu povo.
Com um abraço

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