o0o A Companhia de Artilharia 3514 voou para Angola no dia 2 de Abril de 1972 (Domingo de Páscoa) num Boeing 707 dos Tams e regressou no dia 23 de Julho de 1974, após 842 dias na ZML de Angola, no subsector de Gago Coutinho, Provincia do Moxico o0o Rendemos a CCAÇ.3370 em Luanguinga em 11 de Abril de 1972 e fomos rendidos pela CCAÇ.4246 na Colina do Nengo em Junho de 1974. Estivemos adidos ao BCav3862 e depois ao BArt6320 oOo O Efectivo da Companhia era composto por 172 Homens «125 Continentais, 43 Cabo-Verdianos e 4 Açorianos» oOo

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

A Caminho das Terras do Fim do Mundo (2)...

Creiam meus caros amigos, que nesta senda a que me propus e para a qual é preciso muito engenho, arte e acima de tudo temeridade, é coisa que me falta, uma vez que nunca me passou pela cabeça escrever, antes de colaborar neste blogue, o que quer que fosse sobre qualquer assunto. Acho não ter capacidade para tão altas cavalarias. Não me digam que é falsa modéstia, ou que me estou a "armar em intelectual", porque tal não é verdade!... Mas os incentivos, a insistência e as palavras animadoras, que desde já aqui quero agradecer, encorajaram-me a que me esforçasse a não fazer "má figura" e não desiludir ninguém.
Depois desta nota introdutória, voltemos ao verdadeiro tema: "...Tínhamos chegado ao Lucusse.
O LUCUSSE, situa-se numa região planáltica, a cerca de 1.300 metros de altitude. Dista centena e meia de quilómetros do Luso e duas centenas e meia de Gago Coutinho. Ficará para sempre ligada à história de Angola, por ter sido nesta localidade que a UNITA realizou a sua primeira acção armada em Setembro de 1966, prosseguindo as suas acções na picada do Luso/Gago Coutinho. Foi aí também que o líder da UNITA, Jonas Malheiro Savimbi, foi morto em 2002.
Depois de uma breve paragem nas instalações militares que aí estavam sedeadas, aonde todos chegaram maquilhados de pó castanho avermelhado, mas só alguns conseguiram uma "Nocal" ou "Cuca" para diluir alguma daquela "lama" que entretanto se foi formando na "goela", pela abundância do fino pó da picada.
A picada, a paisagem, a ansiedade e, porque não dizê-lo, um misto de medo e nervoso miudinho, fazia que verificasse tudo ao meu redor e muito atentamente. Mais estupefacto fiquei, quando chegámos ao Lungué-Bungo e reparei nas instalações exemplares do destacamento dos Fuzileiros, nas bonitas margens daquele rio, nas pranchas de salto, nos botes (Zebros) acostados à margem de um lado e outro da ponte...Ali a meio do caminho das Terras do Fim do Mundo, era um oásis que se me assomava, qual postal de um hotel de quatro ou cinco estrelas. Depois disto ainda pensava eu se tudo aquilo era real ou talvez uma miragem, fruto da poeira e do calor angolano que vai tisnando a pele, o corpo e até a alma. Mas de novo tive de voltar á realidade, continuar a rota, porque a picada (estrada de terra batida e outras vezes arenosa) e a paisagem não deixava caminho para dúvidas! Tínhamos regressado à aspereza inóspita das picadas do planalto angolano. A partir daí tudo foi igual até ao LUVUEI, onde se sediava a Companhia de Caçadores 3369.
O Luvuei fica situado em pleno coração da mata, completamente isolado do mundo, em que as cidades mais próximas, Luso e Gago Coutinho, se situam a mais de duas centenas de quilómetros, que tinham de ser percorridos por picadas, normalmente minadas. Talvez por isso, alguém tenha dito que era ali que começavam as "Terras do Fim do Mundo".
Ali chegados, "maçaricos" ou "mikes" como chamavam aos militares acabados de chegar do "Puto", fomos bem acolhidos pelos nossos camaradas já mais "velhinhos" da C.Caç. 3369. Depois de apeados do nosso transporte, foi verificado se todos os "ossos" do nosso corpinho se encontravam no devido sítio e em perfeitas condições, pois os saltos e solavancos que tínhamos suportado tinham sido de tal ordem que se justificava plenamente essa conferência.
Logo ali, se verificou o primeiro evento que não abonou nada em favor da nossa fiabilidade. Depois de todo o pessoal apeado das viaturas, foram dadas, a cada um, por motivos de segurança, instruções para que fossem tiradas as balas da câmara, das respectivas espingardas G3. No meio desta operação, que se pretendia ser de segurança, alguém por descuido ou nervosismo, fez um disparo fortuito, que ocasionou que os nossos camaradas " os velhinhos", se pusessem todos a"milhas" sem olhar para trás e nós levássemos a primeira vaia monumental de "maçaricagem". Acidente de percurso, que garantidamente não aconteceu pela primeira vez, nem seria pela última.
Por agora, ficamos pelo Luvuei, prometendo contar-vos o "baile" mais selecto que se pôde levar da tropa mais velhinha, na próxima oportunidade.
Até lá, um abraço para todos os que pertencem a esta grande família "Cart 3514", desejando-vos muita saúde.

4 comentários :

  1. Caro Monteiro:
    De todo o texto do teu "post" ressaltou-me à memória o episódio passado no Luvuei, em que ao efectuar-se uma manobra de segurança com as espingardas G-3,durante a mesma ocorreu um disparo acidental, que teve como interveniente, imagine-se!...um graduado, Furriel miliciano que, quando interpelado pelos assistentes pela sua "imperícia" se desculpou, dizendo:"A G-3 tinha duas balas na câmara!"...Tal frase, com carácter de anedota, provocou o espanto de todos os presentes, inclusivamente o meu,que estava presente e assisti a toda a ocorrência!... Quem terá sido?!?- perguntareis vós, e com razão!...Mas isso é o que nunca direi seja a quem for, por nada deste mundo!...
    Cordiais saudações para ti, para os restantes Colaboradores, todos os Camaradas "Panteras Negras" e seus familiares e ainda para os eventuais visitantes deste Blogue, onde quer que se encontrem.
    Um grande abraço para todos, do camarada,
    Botelho

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  2. "ERRARE HUMANUM EST" -Este provérbio latino, serve para justificarmos os nossos erros e as nossas "burrices" também.
    Como já devem ter verificado o texto deste ultimo "post" - A Caminho das Terras do Fim do Mundo 2 - foi alterado. Na primeira versão, dizia eu, que no Luvuei estava sediada a Cart 3516, o que não era , nem é verdade. Quando lá passamos, a caminho de Luanguinga, os "velhinhos" eram da C.Caç 3369.
    Felizmente, que temos o nosso Amigo António Carvalho, sempre atento ao blogue, imediatamente disso deu conta, avisou-me e eu logo corri a remediar o erro. Estava errado obviamente, mas sempre era para mim dado como certo ser a Cart 3516. Hoje, durante toda a manhã, não se me esbatia da ideia o porquê desta confusão... uma delas deve-se á idade, que nos vai deixando meios "patarecos", a outra deveu-se ao facto de lá ter encontrado um Furriel amigo, que depois de passarmos à disponibilidade , foi comigo, "oficial do mesmo ofício", hoje infelizmente já não se encontra no reino dos vivos, que havia estado em Évora, como nós também, mas em data anterior obviamente. Como, com ele,recordei muitas vezes o RAL 3, a vida de Évora e a estadia no Luvuei, daí a confusão ou "burrice" como cada um queira entender.
    Para terminar, pedindo desculpas, pela inexactidão do assunto, isto não foi nada mais nada menos do que a" prova provada" de que a homenagem que foi prestada, ainda não passou muito tempo na rubrica - Retrospectiva 2 - ao meu Amigo Carvalho, é mais que merecida, aqui e agora , uma vez mais o volto a reafirmar.

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  3. Fiz o caminho Luso para Gago Coutinho e volta tantas vezes como todos vós, é caricato mas não consigo ligar no meu imaginário, qualquer referência a esses locais, nem do Lungué Bungo onde dormi na última de todas as viagens no leste. Chego a pensar que fiz essas viagens sempre a dormir ou então com elas calçadas conserteza, agora ainda mais o Botelho a fazer caixinha com o foguete do furriel no Luvuei, os velhinhos dos Ilhéus estavam mesmo a pedir uma morteirada, qual tiro, depois do gozo e das entrevistas aos "Contenentáis" e da "Rádio Telivision do Luvuei" que acompanhou a coluna do MVL mais de dez kms e os cartazes na chegada, acabaram mijados com um tiro dos maçaricos, mas bebemos umas cervejolas fresquinhas que nisso a malta esmerava-se sempre quando recebia convidados...!! Bem a gente depois acabamos a fazer o mesmo sempre que havia chegada de noviços, calhava a todos, aquela maldita e acolhedora praxe...!!

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  4. Amigo Carvalho:
    Na omissão do nome do Furriel que deu o tiro no Luvuei não tive a intenção de fazer"caixinha", mas apenas respeitar a pessoa em causa, não fazendo publicidade de erros alheios, aos quais todos estamos sujeitos. Se a pessoa em questão se não tiver esquecido do facto e não se opuser a que lhe divulgue o nome, podes crer que assim e só nestas condições o farei.De contrário, continuarei com a "caixinha" a que acima te referes. Tudo isto não passa de uma questão de reconhecimento de que todos erramos e de que o que aconteceu com essa pessoa, poderia ter acontecido com qualquer um de nós!...
    Um abraço.
    Botelho

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