o0o A Companhia de Artilharia 3514 voou para Angola no dia 2 de Abril de 1972 (Domingo de Páscoa) num Boeing 707 dos Tams e regressou no dia 23 de Julho de 1974, após 842 dias na ZML de Angola, no subsector de Gago Coutinho, Provincia do Moxico o0o Rendemos a CCAÇ.3370 em Luanguinga em 11 de Abril de 1972 e fomos rendidos pela CCAÇ.4246 na Colina do Nengo em Junho de 1974. Estivemos adidos ao BCav3862 e depois ao BArt6320 oOo O Efectivo da Companhia era composto por 172 Homens «125 Continentais, 43 Cabo-Verdianos e 4 Açorianos» oOo

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Leão assalta Destacamento

Histórias de Angola
Rio Luati 1 Outubro 1973
Este destacamento do 1º pelotão da Cart3514 com um efectivo de 30 homens incluindo, cozinheiro, enfermeiro, transmissões e condutor, situado na margem esquerda do rio Luati, a montante da ponte na picada que liga Gago Coutinho a Ninda, tinha como missão a segurança duma exploração de latrite (1) a céu aberto, o parque de máquinas de desmonte e carga, camiões, trabalhadores que pernoitavam no local em pré-fabricados de madeira e em palhotas rudimentares, assim como a protecção duma frente de trabalho a cerca de 5 kms, na desmatação, compactação e construção da estrada, a cargo da Tecnil (2). O local não era o ideal, no plano da segurança, muito exposto e inseguro, situado numa zona baixa em relação à envolvente, muito isolado, as transmissões ficavam inoperacionais durante a noite, a 64 kms de Gago Coutinho, a 26 kms de Ninda (3) e a 50 kms da fronteira. Havia algum receio e preocupação, o rio era um corredor referenciado de passagem, muito utilizado entre as bases na Zâmbia e o Muié na região de Cangombe, na infiltração de guerrilheiros do MPLA.
O acampamento com quarenta e poucos metros de diâmetro, era protegido por uma barreira de terra com dois metros de altura em toda a periferia, no interior seis tendas cónicas e cozinha de campanha, a uma centena de metros o rio Luati, de leito profundo, largura mediana, forte caudal, correndo num vale estreito e sinuoso entre duas colinas bastante arborizadas. Na margem direita, a montante da ponte havia uma grande chana (4), onde várias vezes fomos de noite caçar, palancas, cabras do mato e outros, quando os géneros escasseavam, se detioravam com o calor, ou simplesmente pelo gosto, ousadia e aventura.
Nos destacamentos jantava-se cedo; às seis da tarde cai a noite, nos trópicos a transição dia noite é muito rápida, luz só de petromax, as melgas são endémicas, como tal o pessoal recolhia ás tendas jogava cartas, escreviam, liam ou dormiam, apenas dois sentinelas, em turnos de duas horas, zelavam pela segurança nocturna no perímetro do destacamento. Com dezassete meses de comissão, já tinha passado a fase do medo, estávamos naquela «estou-me fod…. para isto tudo», conhecíamos o terreno, a situação, estávamos medianamente preparados para algumas situações, nas outras havia de ser o que Deus quisesse, nem sequer admitíamos pensar nelas, apesar do que ocorria á nossa volta..! Nos 27 meses que passámos nesta zona do leste, as companhias operacionais do Bcav.3862 primeiro e depois as do Bart.6320, destacadas no Mussuma, Ninda e Chiúme, nunca tiveram descanso, minas anti-pessoal e anti-carro, emboscadas a colunas-auto na picada e na mata, faziam operações constantemente na zona envolvente, algumas vezes lançadas em hélis a curta distância dos objectivos com elevado grau de risco, outras vezes em conjunto com Flechas (5), Catangueses (6), GE (7), Paraquedistas, Fuzileiros e Comandos, apoiados pela Força Aérea ou pelos Sul Africanos no lançamento de meios, transporte ou bombardeamento de objectivos do Sete ao Chalala, do Luanguinga ao Cuando.
Os aquartelamentos de Ninda e Chiúme foram flagelados várias vezes de noite pelo IN com armamento pesado, houve baixas psíquicas, feridos, estropiados e mortos.
Esperávamos interiormente cenários de outra ordem, noutros palcos, com outros actores, outras cenas, mas jamais o filme que segue dentro de momentos.
Mapa da zona envolvente do destacamento do Luati, com os camaradas António Oliveira e Castro que faziam o quarto de sentinela, e o suposto trajecto do leão assinalado a vermelho. (clique sobre a imagem para aumentar a foto)
A determinada altura da estadia começámos a ouvir «Urros» todas as noites, vindos do outro lado do rio, uns diziam que eram pacaças outros que eram leões, na dúvida uma noite, subimos para a berliett e fomos ao outro lado do rio, bater a mata com o holofote ao longo da picada, mas não vislumbrámos nada, apenas umas pegadas frescas de leão num trilho de caça. Uns dias mais tarde, precisamente a noite de 1 Outubro de1973 ficou na nossa memória, escura como breu, fria, apesar da época do cacimbo estar no fim, (Altitude média no leste de Angola 1200mts) o 1º Cabo António Oliveira e o Castro, faziam o quarto de sentinela das 23 à 1 da madrugada, sentados no aconchego da lareira, com um cachorro pequeno deitado ao lado, e a confiança absoluta no Mucoi, um cão de porte médio, valente, agressivo, muito territorial, de raça «Leão da Rodésia»(8) sempre vigilante de dia e de noite na detecção e aproximação ao destacamento de pessoas estranhas ou animais, mas naquela noite pressentindo o perigo eminente, não deu sinal algum, acobardou-se, refugiando-se numa das tendas, de pêlo eriçado e rosnando baixinho, pondo em risco a segurança, do pessoal.
Um leão solitário de farta juba, decidido a comer uma refeição a qualquer preço, vindo do outro lado do rio atravessou a ponte, seguiu picada acima até ao destacamento, protegido pela escuridão, rodeou e farejou as casas de madeira, subiu sorrateiramente a barreira de protecção do acampamento, e com um salto felino abocanhou o cachorro, o Castro ao sentir o impacto da fera contra as pernas dá um tiro por instinto e grita desesperado, é um Leão è um Leão, o animal foge pelo meio das tendas galgando a barreira de protecção oposta, desaparecendo na cerrada penumbra da mata com uma parca refeição.
Entre militares e civis instalou-se o «medo» momentaneamente, a maioria do pessoal já não dormiu nessa noite e alguns camaradas acamparam em cima da berliett até ao raiar do dia.
Tomámos o pequeno almoço, e seguiu-se o ritual diário, uma secção saiu para a protecção á frente de trabalhos, a segunda ficou de serviço ao destacamento, e a terceira que devia descansar, pegaram na arma e seguiram o rasto do leão até o perderem numa zona de mata densa já bem longe do destacamento.
No regresso avistamos duas palancas num trilho á beira do rio, caminhando em direcção á mata, o pessoal divide-se e acabamos por abater um animal, que transportámos para o destacamento, onde repartíamos habitualmente parte da carne com o pessoal civil, que trabalhava na obra. Estranhámos ninguém querer aceitar, principalmente os trabalhadores nativos, que eram sempre os primeiros a chegar e os últimos a sair, levando sempre o resto da carcaça e os despojos do animal, e tinham razão, sabiam por experiência que com carne fresca na “dispensa” corriam o risco acrescido de ser os principais alvos de ataque.
Na foto o Carvalho com o Joaquim Gonçalves "Beringel" e o Rosa a esfolar a palanca
Os Trabalhadores não queriam lá pernoitar, garantiam que o animal iria voltar novamente pela calada da noite, e que ninguém estaria em segurança, ia haver estragos, o caso tornara-se surreal, foi então que o Alferes Rodrigues juntou o pessoal, e disse, temos que tentar resolver a situação, inventar uma armadilha, cada um diga o que pensa e sabe, não tardou estava encontrada uma solução, que nos pareceu ser a mais viável, era preciso uma árvore isolada de mato, a trezentos ou quatrocentos metros do acampamento, na direcção em que o animal fugira após o ataque e com caminho aberto para a berliett passar.
A meio da tarde depois de encontrado o local ideal, montámos a armadilha com uma granada defensiva amarrada ao tronco duma árvore, meia cavilha de segurança enfiada, argola presa com um cordel de nylon tenso ao naco de carne e deste ao tronco um cordel bastante frouxo, de modo que o animal, accionasse o engenho mas não fugisse com o isco antes da explosão.
Isco com carne de palanca, armadilhado com uma granada defensiva

Ao final do dia, conseguimos convencer os civis a ficar, jantámos todos juntos, um churrasco de palanca na brasa e umas cervejinhas nocal, e assim que começou a escurecer civis e militares entrincheiraram-se em cima da berliett, numa longa pausa, a contagem decrescente tinha começado, muitos cigarros, expectativa, ouvidos à escuta, eis que uma hora e tal depois, o primeiro de muitos urros, cada vez mais perto mais intensos, instala-se o silêncio, finalmente o animal detectou o isco, um clarão, um estrondo enorme ecoa no vale, viatura em andamento, o Beja acelera, algumas dúvidas, terá sido o leão ou outro animal..? De holofote em punho, seguimos em marcha lenta, pesquisando a mata palmo a palmo...!!
Lá estava de cabeça no solo, maxilar estilhaçado, quartos traseiros em pé, ainda vivo, respiração ofegante, um momento de arrepiar, o Alferes Rodrigues salta para o chão, encosta-lhe o cano da G3 à cabeça e dispara acabando com o sofrimento deste belo e imponente rei da savana africana.
Carregado para cima da berliett de volta ao destacamento, houve farra com muito álcool e cerveja à mistura, em redor da lareira, com outras histórias de situações idênticas, narradas e vividas por indígenas locais, de ataques perpetrados por leões solitários, animais no limiar da idade, destronados e desapossados das fêmeas, escorraçados do bando e dos seus territórios de caça, por outros machos mais novos e possantes.
Estes animais muitas vezes já sem capacidade de abaterem presas que lhe saciem a fome, aproximam-se de pequenas sanzalas, pela calada da noite, e na primeira oportunidade, invadem quimbos e palhotas, atacando pessoas e animais domésticos, provocando vitimas e semeando o terror entre a população, noite após noite, até serem abatidos como solução na protecção a esta gente que continua a viver primitivamente, das lavras, da pesca, do mel e da caça em pleno coração da mata africana.
Na foto os camaradas Lourenço do Carmo, Carvalho, Ricardo da Conceição e um «peluche» de estimação
Na manhã seguinte após os muitos retratos da praxe, foi literalmente esquartejado, garras, presas, patas, pele, cabeça, rabo, partes da juba, todos queriam uma pequena recordação, um troféu para mais tarde recordarem, esta etapa da nossa passagem por África hoje aqui relembrada, na pessoa dos camaradas 1º Cabo António Oliveira natural do distrito do Porto e César Soares de Castro natural de S. Maria de Lamas, que foram protagonistas duma situação, que poderia ter sido muito complicada, mas que não passou apenas dum grande susto.
Adeus até ao meu regresso
1) Latrite - Minério terroso utilizado em África na compactação de estradas.
2) Tecnil - Empresa de Obras Públicas de Angola.
3) Ninda - Vila, 90 kms a sul de Gago Coutinho.
4) Chanas - Clareiras extensas e alagadiças de vegetação rasteira que ladeiam os rios
5) Flechas - Ex. Guerrilheiros recuperados sob o comando da PIDE
6) Catangueses - Ex. Militares da República Democrática do Congo, apoiantes de Moisés Tchombé, na falhada secessão da província do Catanga, após a proclamação de independência em Junho 1960, do jugo colonial Belga, estavam refugiados em Angola, como mercenários a soldo de Portugal.
7) GE - Grupos Especiais de operacionais indígenas sob o Comando dos Sectores de Zona
8) Leão da Rodésia - “Rhodesian Ridgeback” Raça híbrida do Terrier cruzado com o nativo africano Hottentots utilizado pelos Boers como guarda e na caça grossa na antiga Rodésia, (Zimbabwe) - mais informação clicar em « Leão da Rodésia »

2 comentários :

  1. Muito bem Carvalho! Excelente relato contado e vivido pelos camaradas do teu pelotão. Precisamos que mais companheiros apresentem factos verídicos ocorridos, por mais simples que sejam, durante a nossa estada em terras de Angola. De entre eles estou aguardando as explicações do Paulo Ribeiro sobre as carecadas de que foram vítimas os seus colegas das transmissões.

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  2. oláAdorei tudogostava que fosse a arte-e-ponto.blogspot.com

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