o0o A Companhia de Artilharia 3514 foi formada/mobilizada no Regimento de Artilharia Ligeira Nº 3 em Évora no dia 13 de Setembro de 1971, fez o IAO na zona de Valverde/Mitra em Dezembro desse ano o0o Embarcou para Angola no dia 2 de Abril de 1972 (Domingo de Páscoa) num Boeing 707 dos Tams e regressou no dia 23 de Julho de 1974, após 842 dias na ZML de Angola, no subsector de Gago Coutinho, Província do Moxico o0o Rendemos a CCAÇ.3370 em Luanguinga em 11 de Abril de 1972 e fomos rendidos pela CCAÇ.4246 na Colina do Nengo em Junho de 1974. Estivemos adidos em 72/73 ao BCav.3862 e em 73/74 ao BArt.6320 oOo O efectivo da Companhia era formada por 1 Capitão Miliciano, 4 Alferes Mil, 2 1º Sargentos do QP, 15 Furriéis Mil, 44 1º Cabos, 106 Soldados, num total de 172 Homens, entre os quais 125 Continentais, 43 Cabo-Verdianos e 4 Açorianos» oOo

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

A face oculta da guerra no leste de Angola (2)

Continuação de (1)
Acordo em 1968 com Unita
Depois, quase todas as subdelegações da PIDE em zonas afectadas pelo terrorismo passaram a ter os seus próprios Flechas. Na região de Carmona hoje Uíje tiveram excelentes Flechas que batiam essa zona, nomeadamente em operações contra a FNLA. Combatíamos juntamente com eles. As operações conjuntas iam desde o comerciante que andava de caçadeira a indivíduos da Polícia de Segurança Pública. Nunca houve desacatos. É digna de grande louvor a actividade dos guardas da PSP, nas aldeias estratégicas de reordenamento rural, tanto em Angola como em Moçambique. A determinada altura foi necessário fazer um reordenamento rural de todos aqueles quimbos dispersos pelo mato, devido ao terrorismo. Para não serem subjugados pelos terroristas, formavam grandes aldeias. Essas aldeias tinham só pretos, às vezes tinham um ou dois guardas da PSP a viver no meio de dois mil e tal pretos, mas nunca houve memória de lhes terem feito mal. Essas aldeias tinham depois umas paliçadas e quando havia ataques de terroristas, os guardas da PSP, com as milícias locais, com os pretos armados que não eram Flechas, eram milícias batiam-se contra os terroristas. Às vezes tinham dificuldades, às vezes era difícil os pretos controlarem o dinheiro e as munições. É por isso que se diz que explorávamos os pretos, que não lhes pagávamos: eles tinham sete ou oito mulheres, mas também tinham às vezes trinta filhos. Quando nós lhes pagávamos o ordenado ao fim do mês, eles iam para a taberna e gastavam-no todo. Depois apareciam as mulheres e os filhos. Tanto que depois passámos a fazer assim: dávamos-lhes tanto para os cigarros e para os copos, depois íamos à sapataria comprar sapatos para os filhos, comida para a mulher e, se sobrasse alguma coisa, punha-se no banco. Não quer dizer, não tenho conhecimento disso, que alguém não possa ter feito alguma vigarice, mas essa não era a ideia.Fiz várias operações com os Flechas e muitas operações dos Flechas eram feitas com europeus, mas havia algumas operações em que só iam os Flechas, nomeadamente os bushmen, porque eram operações de quinze dias em que se faziam reconhecimentos, nomadizações. É preciso lembrar, quando se fala de excessos das Forças Armadas portuguesas, que o terrorismo era preconizado nos manuais do Mao Tsé-Tung, do "Che Guevara”, do Camilo Torres, alguns dos inspiradores da guerrilha. Os meus Flechas nunca foram capturados pela guerrilha, mas alguns foram mortos: tive vários mortos em combate mas nunca nenhum foi capturado vivo. Dos outros Flechas que havia em Angola não sei. Muitas vezes capturávamos guerrilheiros, mas havia uma dificuldade muito grande, quer fosse flecha quer fosse GE, em trazer o prisioneiro. A tendência era matá-lo. Acontecia várias vezes, quando as nossas tropas chegavam, que o tipo já não tinha orelhas, já não tinha nada. Alguns guardavam as orelhas no frigorífico, mandavam-nas para a Marinha Grande e faziam pisa-papéis. Este tipo de coisas fez-se em todas as guerras. Que essas coisas eram proibidas, eram, os comandos e os quadros não deixavam que isso acontecesse, mas isso acontecia. Mas se formos para aspectos de violência e de desumanidade, basta ver as fotografias dos massacres de 1961, no Norte de Angola, quando um fazendeiro chegava a casa e ela estava queimada, os filhos trucidados e a mulher violada e cortada aos bocados. Os guerrilheiros normalmente tinham predisposição para serem capturados, senão tentavam fugir e, ao tentarem fugir, o mais natural era serem mortos. Devo dizer que não tinha problemas em pôr guerrilheiros capturados a colaborar connosco. Naturalmente que alguns deles levavam uns tabefes, um "calorzinho". Nós não éramos propriamente uma organização de beneficência. No Leste de Angola, quem começou a criar problemas inicialmente foi a UNITA. Na altura a UNITA era apoiada pela Zâmbia, que faz fronteira com o Leste, Luso e Cuando-Cubango. A UNITA começou a criar-nos problemas, mas sobretudo problemas no que respeita à mentalização da população. Uma característica dos guerrilheiros da UNITA era a sua capacidade de doutrinação das populações. Grande parte dos quadros da UNITA eram treinados na China, na Academia Político-Militar de Nanquim, e vinham realmente muitíssimo bem treinados no que diz respeito à guerra psicológica. Eram maoistas cem por cento. Em vários acampamentos da UNITA que atacámos e destruímos apareciam-nos os livrinhos com o pensamento do Mao Tsé-Tung. O célebre Jonas Savimbi era nada mais, nada menos do que um maoista ferrenho nessa altura. Já o MPLA tinha mais organização e fazia operações de guerrilha bem organizadas. Mas nós praticamente neutralizámos o MLPA, que nunca conseguiu penetrar verdadeiramente no Cuando-Cubango, por duas razões. A primeira era que nós éramos eficientes quando digo nós, refiro-me às Forças Armadas em que nós nos incluíamos. A segunda era que havia também uma presença da UNITA que se opunha ao MPLA. Em determinada altura, já com o general Bettencourt Rodrigues, chegámos à conclusão que era muito mais fácil, para evitar a penetração do MPLA, que vinha da parte noroeste inflectindo para a região do Luso, termos um acordo com os guerrilheiros da UNITA. Isto passou-se a partir de 1968".
p. 407-408) -continuação em (3)
Entrevista a Óscar Cardoso ex-agente da DGS