o0o A Companhia de Artilharia 3514 voou para Angola no dia 2 de Abril de 1972 (Domingo de Páscoa) num Boeing 707 dos Tams e regressou no dia 23 de Julho de 1974, após 842 dias na ZML de Angola, no subsector de Gago Coutinho, Provincia do Moxico o0o Rendemos a CCAÇ.3370 em Luanguinga em 11 de Abril de 1972 e fomos rendidos pela CCAÇ.4246 na Colina do Nengo em Junho de 1974. Estivemos adidos ao BCav3862 e depois ao BArt6320 oOo O Efectivo da Companhia era composto por 172 Homens «125 Continentais, 43 Cabo-Verdianos e 4 Açorianos» oOo

sexta-feira, 24 de abril de 2009

O Meu 25 de Abril 1974


De César Correia
Nascido e criado em «Mosteirinho» onde vivi até aos 15 anos, aldeia pobre do interior «tal como a maioria neste País» em que a Politica era uma palavra vã.
Quando na altura das eleições via os Senhores da Junta de Freguesia á noite ensinar o meu Pai e os meus Tios como e onde deviam por a cruz no voto…!
Mas nós não sabíamos que isso era Politica…!
À terça-feira os aldeães desciam à cidade de Viseu, de visita ao mercado e feira semanal, onde se iam abastecer ou permutar alguns produtos da terra. O bilhete da camioneta da carreira custava na altura 12 tostões, e no regresso parava sempre ao “cimo do povo”, como a nossa gente chamava a este local de encontro na aldeia e a que o Senhor da Junta raramente faltava. Recordo-me dessas idas á cidade na companhia do meu Pai, e da compra do jornal em duas ocasiões, na altura das eleições em que participou o General Humberto Delgado e mais tarde quando o Galvão assaltou e sequestrou o paquete Santa Maria, ambos confiscados no “cimo do povo” pela mão do Senhor da Junta de Freguesia, perguntando ao meu Pai com desdém se já estava rico..? Mas nós não sabíamos que isso era Politica..! Vi o meu Pai ficar calado e impotente a chorar de raiva, se não..!? Não havia mais atestados de pobreza para que os filhos fossem atendidos no hospital sem pagar…! Isso era politica..? Era, mas nós não sabíamos..! Acabei a escola primária, emigrei para Lisboa, como outros conterrâneos meus, trabalhei num restaurante próximo do I.S.T. (Instituto Superior Técnico) de onde assisti algumas vezes a cargas policiais sobre manifestantes universitários, um dia intrigado com tanta violência, perguntei a razão daqueles desacatos, resposta pronta do patrão, rapaz aqui dentro és surdo e mudo, não viste, não sabes, não comentas. E assim continuei politicamente ignorante. Os anos passaram tão depressa, que quando despertei, estava na tropa de mochila ás costas, mobilizado para a guerra. Em Angola havia um nosso camarada que lia autores russos proibidos na época pela censura, que gritava alto e a bom som o que pensava, dizia coisas..! E eu lembrava-me, com estes discursos em Lisboa, já estava à muito no Limoeiro..! Até o cachorro apelidou com um nome russo, kashanovsky…! Arrepiava-me ás vezes ouvir os seus comentários e a convicção com que exultava a sua liberdade de pensamento, cheguei a sonhar com a DGS e os Flechas, na companhia do Administrador e dos Sipaios, a entrarem de rompante no destacamento e levarem o Fur. Parreira de cana, situação que certamente nunca seria possível..! Já após o final de comissão com quase um mês de mata-bicho rebenta a revolução de Abril e eu continuava não só ignorante, mas com medo daquilo que teimavam em chamar de Politica…! No dia 26 as expectativas eram desmedidas, as rádios lá nos confins das Terras do Fim do Mundo teimavam em não dar notícias sobre o evoluir dos acontecimentos na Metrópole. As horas passaram, a situação aclarou-se e á noite houve festa rija na messe de Oficiais e Sargentos onde festejaram o desmoronar da ditadura, estava presente na altura dos comentários e daquela imensa alegria, quando o nosso Capitão me perguntou, está contente Correia, e eu respondi, sim meu Capitão, pelas cervejas que me pagaram, já tenho bebida para a semana inteira, além das que já bebi. Perante o meu medo em falar dos factos o Capitão disse, acabou de me dar uma excelente ideia, amanhã todos os comandantes de pelotão vão explicar aos nossos soldados o que realmente se passou em Lisboa e o que nos espera futuramente. Hoje ainda sou um pouco alheio à politica, mas já não tenho medo, nem de falar, nem que os meus amigo falem, nem que me arranquem o jornal da mão, nem de um qualquer Senhor que não me assine o atestado de POBREZA para que as minhas Filhas e o meu Neto tenham direito a ser assistidas num qualquer HOSPITAL.
Foi com muito receio que vivi o meu primeiro 25 de Abril, um marco na história da minha Terra do meu País e no Mundo inteiro.
25 de Abril sempre..!
Um abraço

3 comentários :

  1. Caro César Correia:
    O teu "post" revela a este teu camarada de armas, uma faceta tua da qual estava bem longe de suspeitar!... Na verdade, não eras só tu que ignoravas as tramóias da política!...Até eu também ignorava tanto como tu, o que na realidade se passava nas nossas "santas terrinhas", em que a sequencia dos acontecimentos nos passavam ao lado sem percebermos a "ponta dum corno" de tudo aquilo que então decorria diante dos nossos olhos, sem darmos por isso, pois que para tal concorria a educação e formação que o Estado nos proporcionava.
    Felizmente, sucedeu o 25 de Abril, que amanhã se comemora, que nos deu muitas esperanças num futuro melhor que, pelos vistos e do modo que está o panorama político actual, está difícil de ser concretizado e satisfazer os anseios e sonhos de muitos portugueses que vivem com dificuldades de muita ordem, tais como desemprego e suas consequências, isto só para citar uma das maiores, pois que muitas outras há e que são sabidas de todos.
    Fazes um resumo bem pormenorizado da saga de muitos portugueses no antes e pós "25 de Abril", que a juventude de hoje desconhece em absoluto e que é fruto de não lhes terem ensinado que a vida dos portugueses de hoje, apesar de todas as suas dificuldades é muito boa, em comparação com a vida dos tempos que já lá vão e que foram vividos por mim, por ti e por muitos outros que ainda cá estão,
    sonhando ainda com a efectivação das promessas que lhes foram feitas na "Revolução dos Cravos"!...
    Não quero distender-me mais e vou terminar e vou desejar que tenham todos: eu, tu, os nosssos camaradas e todos os portugueses, um bom feriado do "25 Abril", não só amanhã, mas "sempre".
    Envia saudações e um abraço aos restantes colaboradores deste blogue, o camarada,

    Octávio Botelho

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  2. Caro César, deliciei-me ler o teu artigo. Julgo que ele reflecte muito do que sentíamos e víamos na altura, apesar de, no meu caso, estar bastante mais desperto para essas realidades porque tive oportunidade de conviver em ambientes sociais, culturais e académicos que me permitiram perceber um pouco mais daquilo que comentas.
    Já na altura, final da década de 60, Francisco Fanhais cantava; "Vemos, ouvimos e lemos não podemos ignorar", exactamente uma das canções que tu cantaste com tantos outros camaradas no Natal de 73 no nosso aquartelamento do Nengo.
    Não foi de forma ingénua que ela fazia parte, tal como outras, do reportório do Grupo Coral da CART 3514.
    Mas, na verdade, o 25 de Abril ainda não trouxe tudo quanto sonhámos ou esperaríamos.
    Por isso mesmo, 25 de Abril SEMPRE! para que gerações vindouras possam desfrutar da verdadeira democracia, isto é, soberania do povo, exercida pelo povo.
    O principio social da democracia baseia-se na igualdade de oportunidades para todos os homens e mulheres.
    Na verdade o capitalismo, o neo capitalismo ou, tal como agora acontece o neo liberalismo, são status politicos incompatíveis com uma organização verdadeiramente democrática, uma vez que esta fica ameaçada e até refém da acumulação de riqueza nuns tantos, muito poucos, contra a pobreza ou extrema pobreza da grande maioria.
    Não é a isto que assistimos no nosso país e nos chamados países ricos?
    A nossa homenagem pois para os destemidos e gloriosos capitães de Abril.
    Viva o 25 de Abril!

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  3. Há quem te queira ignorada
    e fale pátria em teu nome.
    Eu vejo-te crucificada
    nos braços negros da fome.

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