o0o A Companhia de Artilharia 3514 voou para Angola no dia 2 de Abril de 1972 (Domingo de Páscoa) num Boeing 707 dos Tams e regressou no dia 23 de Julho de 1974, após 842 dias na ZML de Angola, no subsector de Gago Coutinho, Provincia do Moxico o0o Rendemos a CCAÇ.3370 em Luanguinga em 11 de Abril de 1972 e fomos rendidos pela CCAÇ.4246 na Colina do Nengo em Junho de 1974. Estivemos adidos ao BCav3862 e depois ao BArt6320 oOo O Efectivo da Companhia era composto por 172 Homens «125 Continentais, 43 Cabo-Verdianos e 4 Açorianos» oOo

domingo, 2 de novembro de 2008

De César Correia (2)

César Correia
A minha primeira noite em Luanda
Como muitos camaradas sabem sou natural da zona de Viseu, nasci em Mosteirinhos, na encosta sul da serra do Caramulo, de verão calor de rachar, no inverno geada, neve e frio de cortar, mas o que mais me acagaça são as trovoadas, algum trauma de infância, não sei explicar.
Aterramos em Luanda às 8h30 em 3 Abril de 1972, saímos do Boeing 707 dos Tams e a primeira sensação foi a de entrar num forno, na pista um calor e humidade sufocante, alagados em suor a pele peganhenta, alguns camaradas com os bolsos do blusão manchados de gordura, os pacotes de manteiga e queijo surripiados ao pequeno almoço no avião começaram a derreter. Depois de recebermos a bagagem lá partimos a caminho do Grafanil, onde ficamos instalados por uns dias, antes da marcha a caminho do leste, numa das muitas casernas rudimentares de madeira cobertas com chapa ondulada, alimentados a ração de combate, por ali ficamos, não arriscando o desenfianço para Luanda a cerca de 10 kms.
Já tarde encontramos um camarada de Viseu que nos aconselhou a ir ao cinema ver um filme para nos distrairmos. A meio da fita a malta começou abandonar à pressa a esplanada ao ar livre, achamos um pouco estranho, até que um camarada, se abeirou de nós e perguntou, são maçaricos? Chegamos hoje de manhã respondemos, se estão perto do vosso sector pirem-se a correr, se não abriguem-se na pala do bar, vem aí uma carga de água car..lho..., cavamos de imediato a correr direito à caserna, mas não nos safámos, chegamos repassados que nem pintos, um porradão de água, trovões e relâmpagos que iluminavam tudo como de dia, uma coisa do outro mundo nunca visto, eu que odeio trovoadas, chorei e rezei à padroeira da minha terra (Nossa Senhora do Rosário de Fátima) que me livrasse daquele pesadelo, mas como veio assim passou, ficando no ar um cheiro acre a terra torrada, mil vezes pior que as trovoadas de Maio na minha aldeia, o tempo refrescou um pouco, mas foi coisa de pouca dura, o calor e o ar asfixiante voltaram, queria dormir, não era capaz, despi a camisa e sosseguei um pouco, de madrugada acordei com alergia , comichão no corpo, fui ao espelho parecia um Cristo, pergunta-me um camarada, tens varicela…? As melgas tinham-nos assolado com picadas, tive que recorrer à enfermaria a fim de me tratarem, pomada, umas gotas e uns comprimidos lá me aliviaram o sofrimento, mas pior ainda, aconselharam-me a não meter os beiços nas loiras da Nocal, não beber cerveja, outro pesadelo com aquele calor.
Mas nem tudo foi mau apesar do perigo em que estivemos supostamente envolvidos, eu ás vezes costumo dizer, fui um privilegiado, conheci os encantos de África, e não há palavras, fotografia ou filme que possam descrever aquela terra, os seus encantos, as suas paisagens, as suas gentes, os costumes, o pôr do sol, os cheiros, os aromas, só mesmo pisando aquela terra, poderão alguma vez sentir aquilo que atrás citei, e que jamais esquecerei.

Luanda - Campo Militar do Grafanil

Campo Militar do Grafanil - Casernas

1 comentário :

  1. Excelente César ! Proponho que o Carvalho o promova a Editor do nosso Blogue. Surpreendeu-me, nos dois encontros em que estive com ele - Anadia e Mealhada - , a frescura de memória que este nosso amigo e camarada evidencia. É espantoso! Passados tantos anos lembra-se de tudo. De pormenores que eu jamais imaginara. Aliás, o texto presente é prova disso. Acreditem que o César vai continuar a surpreender-nos...

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