o0o A Companhia de Artilharia 3514 voou para Angola no dia 2 de Abril de 1972 (Domingo de Páscoa) num Boeing 707 dos Tams e regressou no dia 23 de Julho de 1974, após 842 dias na ZML de Angola, no subsector de Gago Coutinho, Provincia do Moxico o0o Rendemos a CCAÇ.3370 em Luanguinga em 11 de Abril de 1972 e fomos rendidos pela CCAÇ.4246 na Colina do Nengo em Junho de 1974. Estivemos adidos ao BCav3862 e depois ao BArt6320 oOo O Efectivo da Companhia era composto por 172 Homens «125 Continentais, 43 Cabo-Verdianos e 4 Açorianos» oOo

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Estórias de Évora (1)

Mapa da zona envolvente do Pólo Universitário na herdade da Mitra onde fizemos o I.A.O. em Dez. de 1971

Imagem obtida no penúltimo dia de I.A.O na Herdade da Mitra nas proximidades de Évora com alguns camaradas furriéis da Cart 3514 - Fila1: Duarte, Pereirinha e Soares. Fila2: Carvalho, Marques, Raul de Sousa e Medeiros. Fila3: Arlindo de Sousa, Barros, Monteiro e Ramalhosa

Dezembro de 1971
37 anos depois, parece que foi ontem, estávamos no RAL3 em Évora, praticamente no final da formação, preparação e instrução da Companhia, com embarque para Angola, previsto para Janeiro de 1972. Tínhamos iniciado a semana de campo nos primeiros dias de Dezembro, nesta época o Alentejo é muito frio, a paisagem monótona e agreste da manhã, com os campos cobertos dum manto branco de geada e o ar gélido, eram o inimigo principal dos cento e setenta homens que compunham o efectivo da Cart3514. Acampados no mato, em tendas de três panos, muito rudimentares, com muito pouco, ou nenhum conforto, mal agasalhados e alimentados, ali para os lados de Valverde, na Herdade Estatal da Mitra a fazer o I.A.O. (Instrução de Aperfeiçoamento Operacional), em manobras e exercícios militares com fogo real, que antecedia a partida para a Campanha Ultramarina. Lembro hoje aqui alguns episódios com a sua graça, mas descabidos, reconheço, próprios da nossa juventude, passados nessa longa e penosa semana.
Todas as madrugadas saía uma viatura para Évora buscar o pão, e num dos regressos o Beja que já tinha em dias anteriores estudado um "objectivo" á beira do caminho, aliciou os camaradas, Medeiros, Carrilho, Milo e o Revés, a fazerem um golpe de mão num galinheiro do Monte das Flores, aproveitando a penumbra da alvorada, conseguiram chegar ao interior através duma entrada nauseabunda, de escoamento de água e dejectos, a operação esteve em risco de abortar, mas o sacrifício e a vontade inabalável do Revés, rendeu meia dúzia de galinhas e um ganso, que marcharam em silêncio, para a cozinha do acampamento. Era Sábado, e outro golpe já estava em marcha, este engendrado pelo Manel Parreira e pelo Parreirinha das Trms. que era doido por caça. Na periferia da Herdade da Mitra, existia um "couto de reserva" onde havia coelhos aos pontapés, simulando uma qualquer patrulha ou operação de rotina, uma meia dúzia de companheiros de G3 na mão, invadiram a herdade, atrás dos orelhudos, alguns a tiro, outros arrancados das locas, fendas e cavidades entre as pedras, com um primitivo arpejo de arame farpado, muito em uso no Alentejo.
No regresso, com as mochilas bem abonadas, somos interceptados pelo IN, um Guarda Florestal responsável pelo couto atravessa-se á nossa frente, e do alto da sua montada, espingarda em riste, berra ao pessoal, estão lixados, isto é uma propriedade privada, vocês não podem andar aqui aos tiros e a caçar, o Manel Parreira que se tinha emboscado atrás duma giesteira, numa manobra de dissuasão, lança uma granada de instrução, para as patas do cavalo, a explosão o pó e a confusão, espantam o animal que arranca a galope matagal abaixo, com o Guarda pendurado na garupa.
No dia seguinte Domingo, em concluiu com os cozinheiros, os coelhos as galinhas e o ganso, acabaram de reforço ao rancho para o almoço. A meio da manhã o tacho começa a cheirar a esturro, uma queixa do Q.G. chega ao Comandante da Companhia, acerca da invasão abusiva da Herdade, motivo pela qual fomos avisados e advertidos das consequências do acto, mas como estavam no campo mais duas companhias a 3515 e a 3516 também em exercícios e manobras, não seria fácil chegar aos autores da delituosa ocorrência, ficámos á vontade, não de consciência tranquila como é óbvio. Toca o clarim para o almoço e para nosso espanto, o nosso Capitão aparece acompanhado do Comandante do RAL3 e sentam-se á mesa, instala-se o "pânico" entre os artistas do dia anterior, só havia uma saída, comer e calar, também o nosso "Maior" ficou mudo e quedo quando detectou no prato, carne de caça, pelo contrário, o Com. do RAL3, raposa velha e astuto, com muitos anos de tarimba naquele ripado, saboreou o repasto com prazer, fazendo no final um breve discurso de circunstância, com alguma ironia á mistura sobre o menu, sorriu e agradeceu a deferência, pela qualidade do rancho com que foi presenteado, chegando mesmo a questionar se tinham adivinhado a sua presença no almoço...! Hoje dá vontade de rir, mas aquele almoço foi dos mais difíceis de roer e de engolir....!

2 comentários :

  1. Caros amigos:
    Ao deparar-se-me o episódio"Estórias de Évora(1)", proporcionou-se-me uma oportunidade
    de fazer uma rectificação a uma conversa telefónica que tive recentemente com o amigo Carvalho,em que ele me perguntou se eu tinha estado na IAO da Cart,que decorreu na zona de Valverde e ao deparar-se-me esta "estória", lembrei-me de que, na realidade não estive naquela instrução, uma vez que, logo que cheguei a Évora, vindo dos Açores,fui logo indigitado acessor
    do lº.Sargento. Estive, sim na área em que decorreu a IAO, mas apenas na missão de fazer Reab de
    materiais necessários para os exerc
    cícios. Lembro-me perfeitamente das
    características do terreno, que não
    era de "planicie", mas sim ondulado
    e cheio de pequenas elevações, tipo
    outeiros e os caminhos, tipo "picada", muito serpenteantes
    por entre as colinas.Lembro-me também do episódio da "caçada" às capoeiras, pois o Torres contou-me essa história, muito preocupado,pois que, dizia ele que
    casos semelhantes, tinham dado origem a que algumas Companhias ti-
    nham sido desviadas para outros destinos piores, como por exemplo a
    Guiné ou Moçambique, devido a tais
    ocorrências. Vocês nem queiram saber!... O homem ficou "encagaçado"... Mas, segundo
    parece, tudo ficou em "águas de bacalhau"!Para o amigo Carvalho aqui fica a rectificação das minhas
    afirmações. E não fora haver-se lembrado ele de recordar essas epopeias eu não me lembraria também
    dessa "estória" que merece, de facto ser relembrada.
    Não vou distender mais a minha conversa, pois já é um pouco tarde
    e tenho que ir para a cama.
    Apresento amistosas saudações
    para quem se der ao trabalho de ler
    estas considerações e também,para os demais colaboradores,um abraço do amigo

    Botelho

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  2. QUE BOM ! EM HARMONIA COM A NATUREZA,ESTA COLEÇÃO ESPECIAL TORNA-SE UM LINDO CONJUNTO PARA AS NOVAS GERAÇÕES.
    QUE BOM ,PERFEITO PARA ALIMENTAR ANOTAÇÕES,PESQUISAS,MUDANÇAS,
    EVOLUÇÃO,SEMPRE SE INRPIRAR DO PASSADO PARA ENTENDER O PRESENTE E PLANEIJAR O TUTURO!
    AMIGO CARVALHO, ESTA OPORTUNIDADE É FATO IMORTAL.

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